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Passolig

O boicote, o frio, a torcida única e o estádio lotado

O contato foi feito antes de viajar novamente a Istambul. Kaan, Ersin e Emre disseram que tinham que ver se era possível fazer o cartão pra poder ir ao jogo. Beşiktaş e Galatasaray, derby do lado europeu da antiga Constantinopla, seria no dia quatro de janeiro de 2015.

Desta vez, a chegada foi pelo aeroporto Sabiha, nome em homenagem à primeira piloto de avião turca, Sabiha Gökçen, filha adotiva de Atatürk. O sobrenome foi dado a ela somente depois da Lei de Sobrenome, pelo próprio Mustafa Kemal Atatürk — “Gök” significa céu e a terminação “çen” quer dizer “pertencente a”. Sabiha era de ascendência armênia, como relatam alguns artigos e historiadores, e foi adotada logo após o genocídio armênio.

Cruzando o lado asiático, algumas tantas mesquitas, de enormes a modestas, e alguns bairros com edifícios gigantes, muitos ainda em construção. Até que se cruzou o Estreito de Bósforo e, uns vinte minutos depois, chegava-se ao Taksim, onde era o ponto final do ônibus.

Dava pra ir a pé até o hotel, que na verdade era um híbrido de AirBnB com Hostel. O Taksim fica em uma parte alta da cidade que tem um relevo bem acidentado. Além de Istambul estar dividida ao meio, o relevo é outro aspecto que torna o transporte da cidade caótico.

O jogo era dois dias após a chegada. Kaan e Ersin disseram que seria bem fácil de conseguir, era só ver como fazia pra se cadastrar e retirar o tal cartão de acesso. De tanto repetirem o nome, deu pra memorizar: Passolig. Na véspera do jogo, então, Kaan disse que era só ir à bilheteria no estádio do Beşiktaş — ainda em obras na época — e levar os documentos, que eles fariam lá.

Ersin disse que não ia ao jogo. Não fazia nenhum sentido. Mas tudo bem, Kaan falou que iria, mas que nem Emre, nem Enes iriam. Estranho, muito estranho. Lá na bilheteria, na beirada do Bósforo, Kaan foi ajudar, caso houvesse alguma dificuldade, e também pra carregar seu Passolig. Estava bem movimentado, parecia que haveria uma grande adesão, embora aqueles três fanáticos não fossem. Kaan, no entanto, ia. Entre eles todos, dava pra ver que, sem querer comparar a paixão, mas Kaan era quem mais seguia o clube. Sim, o clube, e não o time. Ele inclusive fez um convite para um jogo de basquete da liga turca, dos quais mostrou uns vídeos no celular: insanidade! Vale buscar no YouTube.

Kaan disse que entendia o boicote, pois no cartão, que emitiram na hora e é idêntico a um cartão de crédito, inclusive leva a bandeira da MasterCard, figuram também o nome do torcedor e o documento. Era um cadastro de fato, como eles haviam dito. Mas Kaan não queria saber, pra ele o Beşiktaş estava acima de tudo.

Mais tarde, no Grand Bazaar, Ersin explicou que o intuito da medida era prender pessoas, retirar os “torcedores de verdade” dos estádios e controlar. Uma medida abusiva, segundo eles, do estado turco. Não bastasse a torcida única, era a vez de registrar quem ia ao estádio, e ambas as medidas tinham eficácia bastante contestadas.

O caminho de ida foi inacreditável. Kaan é um sujeito normal, comedido, fala baixo, mas o rádio de seu carro tocava músicas de amor ao Beşiktaş o tempo inteiro. Além disso, ele não se preocupou com o engarrafamento. Simplesmente tomou a contramão e ligou o pisca-alerta. Loucura. Quando perguntado porque fazia aquilo, a resposta foi simples: “está tudo parado ali”. Ele não era o único, muitos faziam o mesmo até o estádio.

O público, no entanto, foi bem superior ao esperado. Embora houvesse todo um boicote, estima-se que a presença foi de mais de setenta mil espectadores, e sim, muitos “Ultras” presentes nos setores que costumavam ficar atrás do gol à esquerda e na parte superior oposta às cabines de imprensa — pra quem se lembra do milagre de Istambul, todos os seis gols foram convertidos à direita.

Além de muito distante, o frio era tremendo naquele quatro de janeiro de 2015. A temperatura negativa era ainda mais forte, dada a arquitetura do estádio, totalmente aberto ao vento que rachava. Além disso, choveu. Ou seja, todos os motivos para um estádio vazio, mas não. Mesmo com o boicote de parte dos torcedores mais radicais, seus lugares foram ocupados por outros torcedores, igualmente fervorosos. Vaiavam Felipe Melo a cada toque do brasileiro na bola. Mesmo com a derrota para os rivais, os Águias Negras seguiam cantando e direcionando seu ódio ao Galatasaray.

No intervalo, dava pra ver alguns torcedores com o ritual de oração islâmica, descalços, com seus tapetes em um canto específico. O jogo acabou com vitória por 2 a 0 do Gala, com gol de Felipe Melo, logo no início do segundo tempo, e de Burak Yılmaz, nos descontos. O técnico do Beşiktaş, Slaven Bilić, dispunha de Ramon, lateral que defendeu Flamengo e Vasco anteriormente, além do argentino José Sosa, do franco-senegalês Demba Ba e de uma promessa turca — nascida na Alemanha —, Gökhan Töre, que, mais tarde, o mesmo Bilić levaria para o West Ham. Mas não parecia ser um jogador tão bom quanto os Águias Negras acreditavam ser.

A torcida única era outro fator que deixava o clássico do lado europeu de Istambul um pouco sem sal. Tudo jogava um pouco contra. Mas não importa, era um Beşiktaş-Galatasaray.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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