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Pau nos vagabundos!

No Brasil, em pleno 2017, um pré-candidato à presidência, representava uma esperança para determinados grupos da sociedade. Alguém que poderia reerguer o país da crise. Felipe Melo, jogador do Palmeiras nessa época, declarou apoio a Jair Messias Bolsonaro logo após as manifestações contra a reforma da previdência e trabalhista que o governo de Michel Temer pretendia aprovar. O jogador endossou o discurso sobre “vagabundos” que impera entre empresários e conservadores. Não demorou muito e Jadson, jogador do Corinthians nesse período, também se mostrou alinhado com Bolsonaro.

O discurso “firme”, que propõe uma organização nacional em detrimento da “bagunça” que se vive, ganha muita popularidade em tempos de crise econômica. A criminalidade aumenta, a inadimplência cresce, os créditos ficam escassos, a inflação gera uma recessão, o desemprego se espalha. No Brasil, a crise teve como responsável o gasto com o Bolsa Família, um programa de bem estar social que nem se compara com o de países com altos índices de desenvolvimento humano. Quem recebia o benefício passou a ser chamado de vagabundo.

O período em que o Partido dos Trabalhadores (PT) esteve no poder no Brasil, entre 2003 e 2016, foi marcado por avanços e retrocessos. Os gastos públicos alcançaram proporções imprescindíveis, dado o atraso estrutural do país, e altíssimos custos superfaturados. Para fins de comparação, o estádio da Juventus, inaugurado em 2011, teve um custo total de € 155 milhões (um pouco mais de R$ 500 milhões). Já a Arena Corinthians, inaugurada em 2014 para a Copa do Mundo, um estádio com capacidade similar ao do Juventus Stadium, teve um custo total de mais de R$ 1,1 bilhão. O fato da construtora do estádio corintiano ser a Odebrecht, a principal empresa investigada pela Operação Lava-Jato, dispensa maiores considerações. As conclusões são óbvias.

Mas é verdade também que durante os 13 anos do governo PT, o país quase alcançou o pleno emprego. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2012, a taxa de desemprego era de 5,5%, o percentual era de 12,4% em 2003, quando Lula assumiu. O inegável desenvolvimento econômico ergueu uma “nova burguesia” no Brasil levando a discussão política a outro patamar. Aqueles que foram beneficiados por programas sociais que movimentavam a economia e elevaram o poder de consumo, passaram a exigir o mesmo crescimento econômico dos anos anteriores. Frustradas as expectativas, cresce uma insatisfação fomentada pelos opositores, representados pelo Partido Social Democrata do Brasil (PSDB), sigla que governou o país por oito anos antes do governo Lula, do PT, e esteve ininterruptamente no poder no estado de São Paulo — o mais rico da República Federativa do Brasil — desde 1995, ainda que, a nível nacional, o partido continue a entoar o discurso de alternância de poder.

Para os conspiracionistas, mesmo com a derrota de 7 a 1 pra Alemanha, o governo brasileiro foi reeleito na urnas. Uma conquista do título mundial não mudaria o resultado das eleições que em 2014 marcaram a divisão de Brasil em dois. Ficou declarado o Fla-Flu político. Fla-Flu esse que fez a oposição (PSDB) se fortalecer e se alinhar — novamente — com o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), que compunha a base governamental com o PT. A instabilidade política culminou com o processo de ​Impeachment​ da presidente Dilma Rousseff antes de finalizar seu segundo ano do mandato .

Durante o processo de impedimento da presidente, uma figura passou a ganhar destaque. Ele mesmo: Jair Messias Bolsonaro. Sobretudo com as citações do nome de Aécio Neves, candidato de oposição (PSDB) derrotado no segundo turno em 2014, nas delações da Operação Lava-Jato. Defensor da ditadura militar, o então Deputado Federal prestou homenagem, em seu voto a favor do ​Impeachment​ de Dilma, ao Coronel Brilhante Ustra, acusado de ter torturado a própria presidente [Dilma] durante o regime militar no Brasil.

Bolsonaro ganhou mais apoio com o passar do tempo, chegando a 15% das intenções de voto, segundo pesquisa realizada pelo Datafolha em 2017. Mas Walter Casagrande, símbolo da Democracia Corinthiana, comentou em sua coluna no site da revista GQ, que outros objetivos unia palmeirenses e corinthianos na época de chumbo : “Aos mais jovens, ou nem tão jovens, como Felipe Melo e Jadson, é bom lembrar o que aquilo significou para nós atletas. Já contei aqui em outra oportunidade, mas vale recordar: a vontade de viver novamente em uma democracia era tão forte que fazia até os palmeirenses apoiarem o elenco da Democracia Corinthiana, como ficou claro quando nós fomos aplaudidos ao passar no meio da torcida alviverde momentos antes de jogar a semifinal do Paulista de 1983”. Em 2017, quase 35 anos depois, ele completou: “Um basta na corrupção é o que todos desejamos, mas como conseguir isso é que são outros quinhentos. Na Democracia Corinthiana, nós sabíamos o que queríamos: a redemocratização do Brasil. Cumprimos o nosso papel. Não à toa, Sócrates ficou tão marcado na história da camisa alvinegra, a mesma que é vestida por Jadson. Ironias da vida.”

Donald Trump, Brexit, Geert Wilders, Jair Bolsonaro ou Marine Le Pen, a extrema direita cresceu no mundo todo, e suas idéias de liberdade se sobrepõem à liberdade, igualdade e fraternidade conquistada na Revolução Francesa, há mais de 200 anos. Eles querem, dois séculos mais tarde, retomar a idéia de um EUA sem mexicanos, de um Reino Unido que não pertence à Europa, de uma Holanda que nunca pisou em territórios fora de suas fronteiras, de um Brasil governado por um militar — Marechal Deodoro, General Garrastazu Médici ou outro — e de uma França “mais pura”, sem negros nem árabes. Felizmente, como disse a autora senegalesa Fatou Diomé, esse processo é irreversível.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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