Carrinho de compras

Nenhum produto no carrinho.

Plata o plomo?

A partir da segunda metade da década de 70, o crescimento do império das drogas na Colômbia era tamanho que os barões do tráfico precisavam de algum artifício para lavar seus milionários lucros, sob pena de perdê-los para as traças em úmidos depósitos ultra-secretos. Ironicamente, o próprio governo colombiano auxiliou na tarefa. Durante o mandato do presidente Alfonso López Michelsen [1974–1978)] o banco central do país tinha a permissão de comprar dólares sem sequer investigar a origem dos recursos. A medida era conhecida como ventanilla siniestra e permitiu que o dinheiro do narcotráfico fosse lavado e aplicado no próprio país nos mais variados setores. O futebol não foi exceção.

As regulações do mercado financeiro internacional e as pressões políticas exercidas principalmente pelos EUA acabaram fechando a janela sinistra. Mas àquela altura, o dinheiro sujo já estava tão incorporado à sociedade colombiana que parecia impossível limpar as contas dos empreendimentos que um dia contaram com ele.

Quem assistiu à primeira temporada da série Narcos, estrelada pelo ator brasileiro Wagner Moura, deve ter notado que, em dado momento, diz-se que o futebol colombiano foi um dos setores controlados pelos incontáveis milhões de dólares que jorravam do narcotráfico na Colômbia. O dinheiro foi supostamente investido em contratações, compra de árbitros, arranjos de resultados, apostas e outras burlas ao esporte.

As lavanderias de Cali, Bogotá e Medellín

Os carteis atuavam no futebol colombiano de acordo com a cidade onde estavam estabelecidos e o América de Cali parece ter sido um dos primeiros clubes a usufruir do dinheiro do tráfico de drogas. Sob o comando dos irmãos Miguel e Gilberto Rodríguez Orejuela, os Diablos Rojos viveram o período mais glorioso de sua história. Entre 1982 e 1986, o time conquistou todos os campeonatos nacionais graças a seu poderoso elenco que alinhava com nomes do calibre de Willington Ortiz — um dos expoentes do futebol colombiano e cujas cifras da contratação se desconhece até hoje —; a dupla estelar peruana Cesar Cueto e Guillermo La Rosa; o paraguaio Roberto Cabañas, ídolo do Boca Juniors no início da década seguinte e Ricardo Gareca, herói da classificação argentina para o Mundial de 1986.

Os triunfos não se limitaram apenas ao território nacional. Apesar de jamais ter conquistado a Libertadores, o América de Cali foi por três vezes seguidas o vice-campeão do maior torneio do continente, entre 1985 e 1987. Hegemonias domésticas à parte, é bom apontar que antes dos “investimentos” dos irmãos Orejuela, o clube detinha apenas uma taça em sua sala de troféus: a de campeão nacional de 1979. Nada mais.

Os dias dourados terminaram junto com a incursão de outro traficante de grife no meio futebolístico colombiano. Gonzalo Rodríguez Gacha, sócio de Pablo Escobar no cartel de Medellín, assumiu-se publicamente como acionista do Millonarios de Bogotá e, em 1987, o clube conquistaria o título nacional depois de nove anos. No ano seguinte, novo título, mas nada de jogadores consagrados. Gacha era mais afeito às compras de árbitros do que de jogadores midiáticos.

Pablo Escobar, o mais proeminente e poderoso dos traficantes colombianos, não estava alheio a essa festa. Apesar de jamais assumir vínculos oficiais, sabia-se que ele injetava dinheiro no Independiente e no Atlético Nacional, ambos de Medellín — com claros privilégios para este último. Em 1987, gastou cifras estratosféricas para atravessar as negociações de seus rivais com as estrelas colombianas Leonel Álvarez, Gildardo Gomez e Luis Carlos Perea, além do treinador Francisco Maturana, que também treinava a seleção do país. Com o timaço que formaria a base da Colômbia na Copa do Mundo de 1990, o Atlético Nacional foi o primeiro time do país a conquistar uma Libertadores — não sem uma arbitragem polêmica num clássico local.

A Libertadores suja de pó

Atlético Nacional campeão da Libertadores em 1989
(Foto: Reprodução)

O grupo 3 da Libertadores de 1989 terminou com a classificação do Millonarios em primeiro, seguido pelo rival Atlético Nacional. O regulamento punha as equipes do mesmo país para se enfrentar o quanto antes e o clássico aconteceu também pelas quartas de final. No jogo de ida, em Medellín, vitória do time da casa por 1 a 0. Na volta, em Bogotá, o time da casa sofreu com a “desastrosa” arbitragem do chileno Hernán Silva, que expulsou injustamente um jogador do Millonarios e ignorou um pênalti a favor dos locais depois de violenta entrada de Higuita em Iguarán.

Na semifinal, o time do Patrón Escobar enfrentaria o Danúbio, do Uruguai. Em Montevidéu, 0 a 0. Na volta, uma acachapante vitória do time da casa por 6 a 0. Anos após aquela partida, Juan Bava, um dos assistentes de arbitragem na ocasião, revelou à revista El Gráfico que o trio recebeu a tradicional oferta de Escobar: “Plata o plomo?” Eles devem ter escolhido a grana pois o próprio Bava, ao revelar o caso, havia dito que ele mesmo teria feito um gol para o time colombiano se fosse necessário. A vaga na decisão já parecia estar no bolso antes do apito final.

No primeiro jogo da finalíssima contra o Olímpia do Paraguai, em Asunção, vitória dos locais por 2 a 0. Por uma ironia do destino, a grande decisão foi disputada no estádio El Campín, em Bogotá — casa do rival Millonarios. O fato é atribuído a uma normativa da Conmebol, que não permite a disputa de decisões em estádios com capacidade inferior a 50 mil lugares. Por uma diferença de cinco mil lugares, o estádio Atanasio Girardot deixou de ser o palco da maior conquista da história do clube que abrigava.

O Atlético Nacional devolveu o placar e levou a decisão para uma emocionante e quase interminável disputa de pênaltis, onde brilhou a estrela de René Higuita. O folclórico goleiro pegou nada menos que quatro cobranças e ainda converteu a sua. Apesar da final ter parecido limpa, o caminho até ela manchou a campanha e é motivo de chacota entre os rivais do Nacional.

Barões mortos ou presos. E agora?

Ainda em 1989, Gonzalo Rodríguez Gacha foi encurralado na cidade litorânea de Cartagena, numa operação que destacou mais de mil homens entre policiais e fuzileiros navais do país. Após assistir à morte do filho pelas mãos dos agentes da justiça, Gacha deu fim a sua própria vida usando uma granada.

O Millonarios voltou a ser campeão nacional apenas em 2012. Felipe Gaitán Tovar, presidente do clube entre 2012 e 2013, chegou a ventilar a ideia de devolver as estrelas referentes ao bicampeonato conquistado na época de Gacha. Mas a proposta se mostrou impopular entre os torcedores e os títulos foram mantidos.

Em 1993 foi a vez do Patrón. Cercado pela polícia e fugindo pelos telhados das casas de um bairro de classe média em Medellín, Pablo Escobar foi alvejado quatro vezes. O tiro fatal desferido em sua orelha levanta suspeitas até hoje sobre a autoria do disparo: teria sido um policial bem treinado ou suicídio?

Fato é que seu apadrinhado Atlético Nacional segue como um dos grandes da Colômbia. Já o Independiente, quebrou um jejum de 45 anos sem títulos com a conquista do nacional de 2002. Na Libertadores, sua melhor participação foi em 2003, quando caiu na semifinal para o Santos de Diego e Robinho e o Atlético Nacional voltou a ganhar a Libertadores em 2016.

Os irmãos Orejuela foram capturados separadamente em 1995 e cumprem até hoje uma pena de trinta anos de prisão nos EUA. Em 1996, o América de Cali perdeu para o River Plate a decisão da Libertadores daquele ano. No mesmo ano, o clube foi incluído na “Lista Clinton” — criada pelo Departamento do Tesouro dos EUA e que aponta entidades ligadas ao tráfico de drogas. Conseguiu limpar seu nome da indesejada lista em 2013 e o clube passou anos na segunda divisão.

Entre 1986 e 1994, a Colômbia foi o país mais violento do mundo com nada menos que 505 assassinatos por “limpeza social” e mais de 1.500 seqüestros e desaparecimentos sem solução, de acordo com números do jornal colombiano El Tiempo. Há quem diga que até mesmo nos dias de hoje o tráfico de drogas estende seus tentáculos pelo futebol colombiano — uma assertiva difícil de confirmar com tão poucas pessoas dispostas a falar sobre o assunto. Entre dinheiro e chumbo, os envolvidos de hoje — se é que existem — parecem preferir o dinheiro.

Jornalista por formação, músico por insistência. Jamais desperdiçou uma cobrança de pênalti e lamenta que a torcida brasileira não possua gritos de guerra intimidadores para jogos da Seleção. Otimista por excelência, ainda acredita no futebol-arte, se diverte com o Brasileirão e se emociona com jogadores emocionados.

Deixe seu comentário