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Quando Zlatan se tornou Ibrahimović

A transição do jovem rebelde sueco em lenda mundial

O documentário “Becoming Zlatan” traz imagens exclusivas do início da carreira de Zlatan Ibrahimović. A produção sueca, de 2015, começa com o jogador embarcando para Amsterdã e mostra o impacto midiático da transferência mais cara da história do Ajax até então, cerca de nove milhões de euros.

Logo depois, o filme volta dois anos no tempo, e exibe a trajetória do filho de imigrantes dos Bálcãs Zlatan no Malmö, clube que leva o nome da cidade natal do sueco. O material é muito rico, com imagens únicas de um jovem que já mostrava sinais de rebeldia desde muito cedo, no início de sua carreira.

Em sua primeira pré-temporada na Holanda, Ibrahimović marcou um gol em um amistoso, e tudo parecia perfeito para sua carreira decolar. Ele mesmo dissera na entrevista coletiva de sua apresentação em Amsterdã: “Meu jogo é perfeito para o Ajax.” Perguntado sobre como era seu jogo, respondeu com o inglês um pouco duro que marcaria seu estilo de falar para sempre: “Técnico.”

Mas a primeira temporada no Ajax ficou muito aquém das expectativas. Um dos poucos holandeses que criou uma relação extracampo com Zlatan, Andy van der Meyde, conta no filme que Ibra se sentia preso durante os jogos e não conseguia fazer gols como no Malmö, gols que o credenciaram a ser, até então, a contratação mais cara da história do maior clube holandês. Foram sete tentos em 27 jogos. 

Logo no início da temporada, uma cotovelada em um zagueiro do Groningen lhe rendeu cinco jogos de suspensão e sujou a sua imagem junto à torcida ajacied. Outra contratação do verão de 2001, o egípcio Mido, que chegara para jogar de ponta esquerda, começou a marcar gols e se colocou em condições de lutar por um lugar no ataque com Zlatan e Nikos Machlas. O time terminou fazendo a dobradinha, conquistando a liga e a copa do país. Segundo a imprensa, mesmo com os títulos, Zlatan era carta fora do baralho para a temporada seguinte.

Na película, Mido fala sobre a relação de amizade entre eles. Relata, por exemplo, a vez que Šefik, pai de Ibrahimović, foi até Amsterdã, mostrou uma foto dos três atacantes juntos e disse que estava muito chateado por o filho não usar o sobrenome paterno na camisa.

No começo da temporada posterior (2002/03), Mido começou a se desentender com o técnico e a causar problemas no vestiário, inclusive com Zlatan, atirando, certo dia, a tesoura que usava para cortar o esparadrapo dos meiões na direção do rosto do sueco. Como o próprio relata no documentário, Ibrahimović foi o único jogador do elenco a sair em sua defesa após o incidente. Mido acabou deixando o clube e nunca mais se firmou em outro time.

Para a nova temporada, o técnico do Ajax, Ronald Koeman, recebeu o antigo ídolo do clube Jari Litmanen como reforço. O finlandês era o jogador que faltava para abrir os espaços e encaixar as bolas para Zlatan. Conhecedor dos atalhos no campo, ele foi um verdadeiro tutor para Ibra. A temporada 2002/03 não foi gloriosa para o time, mas o sueco começava a mostrar, enfim, do que era capaz. Foram dezesseis gols em 28 jogos. A influência de Litmanen era nítida.

Sobre o ano seguinte, que contou com o título da liga nacional, o então team manager, David Endt, relata uma mudança pequena, porém significativa, na carreira de Ibrahimović: o sueco chegou até ele e disse que não queria mais o nome Zlatan na camisa. Ele preferia Ibrahimović. Não há outra menção ou uma possível explicação sobre esta decisão. Terá algo a ver com aquela ida de seu pai a Amsterdã? 

Foi nesse ano que Rafael van der Vaart, cria da base do clube, tornou-se capitão do time. No início da temporada, após a primeira Eurocopa de Zlatan com a camisa da sua seleção, em um amistoso entre Suécia e Holanda, em Estocolmo, no dia 18 de agosto de 2004, Ibra fez uma jogada na entrada da área e, ao dividir a bola com van der Vaart, esticou a perna e quase quebrou o tornozelo do companheiro de equipe. A jogada terminou em gol do país nórdico, e Ibra comemorou como se nada tivesse acontecido, mesmo com van der Vaart caído aos prantos. Zlatan ainda daria um golpe violento em Giovanni van Bronckhorst neste jogo.

Perguntado, após a partida, sobre como seria a relação com Ibrahimović, van der Vaart disse que seria muito difícil, pois estava muito desapontado com o companheiro. Nos comentários exibidos no filme, as insatisfações são contundentes e beiram o ódio.

Conhecido como cigano por sua origem balcânica, Zlatan não pertencia, de verdade, à comunidade sueca, onde era discriminado pelo sotaque peculiar do bairro onde cresceu, com predominância de imigrantes. Na Holanda, sua imagem também não estava boa após o ocorrido no amistoso. Imprensa e torcida se posicionaram contra ele. 

Ronald Koeman foi, então, obrigado a convocar uma reunião e interceder. Mas confessou que uma solução seria difícil. “Zlatan disse a Rafael: eu não gosto de você, não gosto de você como capitão do time”, contou o treinador, com olhar de quem não tinha mais o que fazer.

No fim de semana posterior ao encontro, precisamente em 22 de agosto de 2004, o Ajax jogaria contra o NAC Breda. Foi quando Zlatan tornou-se definitivamente Ibrahimović. Dessa vez, também dentro de campo. Fora dele, o recado já estava dado. Rafael van der Vaart não jogaria e ficaria na arquibancada, pois estava lesionado após o pisão de Ibra no amistoso entre suas respectivas seleções.

No primeiro toque na bola, uma vaia monumental para o sueco. Logo depois, o NAC fez 1 a 0. Zlatan marcou o gol de empate. Não comemorou. E depois desempatou, ainda que o tento tenha sido atribuído ao defensor como gol contra. Ibra tampouco festejou. O Ajax ampliou para 3 e depois para 4 a 1. E foi aí que o sobrenome do sueco percorreu o mundo. Ele recebeu a bola de costas, fez o pivô, dividiu com um rival que tentou explodir a bola e, no pé de ferro, a bola repicou e caiu para ele novamente, desta vez de frente. Em seguida, ameaçou o chute de fora da área, iludindo dois defensores que tentaram interceptar. Trouxe então a bola para dentro, próximo à sua perna esquerda, cortou para a direita, depois novamente para a esquerda, e, já sobre a linha da grande área, entortou o marcador. Um outro zagueiro veio de carrinho e foi driblado, ficando no chão. Outra finta, outro carrinho, mais um no chão. O goleiro caiu junto e Ibrahimović trouxe para a perna esquerda de novo, com os dois estirados no gramado. Bola na rede.

Van der Vaart ficou atônito, não reagiu, permaneceu parado como se nada tivesse acontecido. Ibrahimović saiu então correndo, comemorando, gritando. A torcida, que vaiava, explodiu de emoção ao ver um dos gols mais plásticos da história do futebol. Todos os jogadores correram atrás do sueco e se amontoaram sobre ele eufóricos.

Dias mais tarde, no fechamento da janela de transferências, Ibrahimović e seu agente, Mino Raiola, estavam na cerimônia de Melhor do Ano do futebol holandês. De repente, Mino se levantou com pressa e foi para um corredor. Ele atendeu a ligação falando em italiano. Já havia uma expectativa em torno de uma transferência de Ibrahimović para a Itália. Era a Juventus, que oferecia dezesseis milhões de euros, segundo o Transfermarkt.

O filme termina após o fim da primeira temporada do sueco na Juventus, com o título da Serie A. Esse caneco foi revogado após o escândalo de suborno e manipulação de resultados, e a Velha Senhora foi rebaixada para a Serie B ao término da temporada seguinte, mesmo conquistando o maior número de pontos. Com a Juve fora da divisão da elite, Ibra se transferiu para a Internazionale por 25 milhões de euros. Em 2009, após três temporadas com a camisa nerazzurra, o Barcelona desembolsou uma fortuna por ele, cerca de setenta milhões de euros, além de ceder o atacante camaronês Samuel Eto’o.

No livro “Eu Sou Zlatan”, de David Lagercrantz, Ibrahimović conta que seu único problema na Catalunha foi com Pep Guardiola, a quem se referiu como “filósofo”. 

Depois do Barcelona, ele voltou para a Itália, dessa vez para o rival de Milão, o AC Milan, por 24 milhões de euros, onde jogou por duas temporadas, até ser contratado pelo PSG, no projeto catari do Sheik Nasser Al-Khelaïfi. Ao fim de seu contrato com o clube parisiense, o sueco se despediu como Ibra: “Eu vim como um herói e vou embora como uma lenda.” Ele deixou o PSG como o maior artilheiro da história do clube àquela altura, seguindo para o Manchester United.

Ibra ainda teria uma passagem midiática pela emergente liga estadunidense, a MLS. No Los Angeles Galaxy, em 2019, ele protagonizou um de seus típicos episódios. Um jornalista norte-americano havia comparado os números de Carlos Vela com os do sueco, e perguntou: “Você ainda se considera o melhor jogador da MLS?” A resposta veio no melhor estilo Ibra: “De longe!” 

Ibrahimović então perguntou a idade do mexicano Vela, e o jornalista respondeu: 29 anos. 

“Ele está no auge dele. Ele joga na MLS. Quando eu tinha 29, onde eu jogava? Grande diferença, certo?”, rebateu Zlatan, aos 37 anos.

A parte que o filme não mostra, depois de sua chegada à Juventus, é a história que todos já conhecem, pois a partir daquele momento, por onde passou deixou sua marca. 

Talvez o filme devesse ser intitulado “Becoming Ibrahimović”, pois a história que não se conhecia era a de Zlatan até ele se tornar a lenda — como ele mesmo se autodenominou — que leva nas costas o sobrenome Ibrahimović.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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