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Reinaldo

— Vai jogar no domingo, Reinaldo?

Deitado em um dos leitos de uma sala de fisioterapia da Cidade do Galo, o ex-atacante responde com um sorriso acolhedor. A estrutura disponível no local parece materializar tudo o que o Rei precisava há pouco mais de trinta anos, quando deixou de participar de jogos e torneios importantes graças às impiedosas lesões que o perseguiram por toda a carreira — naqueles dias, a medicina esportiva adotava alguns métodos abomináveis para os padrões atuais.

Reminiscências à parte, ninguém jamais tirou dele a condição de ídolo máximo do Clube Atlético Mineiro, com o qual manteve relações alternadas entre proximidade e distância ao longo dos anos como ex-jogador. Nos dias atuais, no entanto, não poderiam ser mais próximos: ele é o atual coordenador técnico das categorias de base do clube e fala com o coração quando tenta expressar em palavras o significado do Galo em sua vida.

Reinaldo brilhou em um país que vivia os anos finais de uma ditadura militar — chegou a receber uma recomendação pessoal do general Ernesto Geisel para que se preocupasse apenas em jogar bola pois, da política, o regime cuidaria. É verdade que a situação política do país já se encaminhava para momentos de maior participação popular, mas a livre expressão de opiniões ainda apresentava seus riscos, dizia o Rei.

Talvez tenham sido justamente suas opiniões as responsáveis por sua não-convocação para o Mundial de 1982; talvez tenha sido mesmo sua condição física que o impediu de ir ao torneio, como atestavam as justificativas da comissão técnica da Seleção — ele jamais saberá ao certo. O que ele sabe é que Telê Santana abraçou uma suposta campanha difamatória da “imprensa oficial” em que o ex-camisa 9 atleticano era criticado por tudo — posicionamento político, personalidade forte, amizade com homossexuais, abuso de álcool —, exceto por suas condições futebolísticas, que se mantiveram em alto nível, tanto antes quanto durante e depois da Copa que deixou de jogar.

A passagem dos anos deu ares mais tranquilos ao temperamento considerado intempestivo para um jogador de sua época. O que se mantém intacto, no entanto, é justamente o que mais interessa aqui: palavras livres de alguém que sabe como é receber orientações oficiais para ficar em silêncio.

Você se lembra em que momento da sua vida começou a sua relação com a política?

Ah, a relação com a política… Começou depois de um aniversário do meu pai. Ele faz aniversário no dia 30 de março e, [foi] depois, no 31, por aí… Eu, morava no interior, ia pra rua jogar bola de manhã cedo. Peguei a bola e, na hora que eu ia pra rua, eu vi dois soldados de guerra na divisa do passeio da minha casa com a outra casa. Dois soldados. Eu nunca tinha visto um soldado, eu tinha o quê? Uns 7 anos, 8 anos, por aí. Foi justamente em 64. No golpe de 64. Só que o nosso vizinho, eu engraxava os sapatos dele, levava a gente pro campo de aviação, ficava falando no rádio, a gente ficava jogando bola, lutando boxe… Depois desse dia, o Sr. Morentes desapareceu? Ele era ligado ao Partido Comunista. Aí na cidade toda foi aquele: “Uai, o Sr. Morente era comunista”. Aí foi o primeiro contato. Depois vieram aquelas eleições que tinham naquela época, mais para deputado: a gente distribuía santinho na rua, no interior, mas sem envolvimento político.Depois, em Belo Horizonte, já em 1975, 76…

Você veio para jogar?

Não, eu vim jogar em 1971. Eu to falando do contato político. Aí, em 76, por aí, eu morava ali no bairro São Pedro e a família do Frei Beto era vizinha nossa. Foi justamente quando o Beto tava saindo da prisão. Ele veio visitar a família e, assim, nós tivemos o primeiro contato. Ele passava alguns dias aqui e ia embora. Mas o pai dele, o Dr. Antonio Carlos Cristo, que foi juiz, escrevia umas crônicas mais políticas para o Estado de Minas.Sempre que eu estava de folga conversava bastante com ele e com o irmão do Frei Beto, o Léo Cristo. Ele abriu os nossos olhos para a realidade política do país naquela época da ditadura. Era uma época ainda muito tensa, muito sombria, né? Mas com isso a gente foi tendo contatos também com várias pessoas. Uma época em que o país se movimentava para se organizar, ter maior participação política, uma abertura lenta, gradual? Aí você começava a ter contato com alguns setores mais progressistas, mas tudo ainda com muito receio. Foi logo na época do AI-5. Então todo mundo tinha muito cuidado. Você também não tinha apoio nenhum de sindicatos, de partidos, de setores progressistas, nada. Eram umas coisas muito ocultas ou então muito individuais.

Havia certa clandestinidade ainda, certo?

É, era uma época ainda meio clandestina e oprimida.

E você tinha uma consciência socialista? Como era seu posicionamento? Você se diria socialista naquele momento?

É, eu acho que esse sentimento socialista todo mundo tem. Todo mundo tem uma fraternidade, todo mundo quer um bem, uma sociedade mais justa. Então a gente tinha. Mas, na verdade, a gente não tinha essa discussão socialista e nem acesso às leituras socialistas e muito menos encontro, reunião, partido, alguma organização disso… Não tinha. A gente ali era mais movido pelo espírito ou um sentimento de… sabe? Ainda um pouco daquele som cubano, da coisa da Revolução Cubana ainda. Mas, mesmo assim, não tinha contato, não tinha informação, não tinha nada. Era mais aquele sentimento mesmo. E o sentimento foi muito mais agregado a nós pela opressão do governo. A gente percebia que poderia fazer essas reformas somente através do parlamento.

Você costumava discutir sobre isso com seus colegas, outros jogadores…

Não, não, não. Não discutia com ninguém. Aquela época era cheia de dedo-duro. Se eu fosse conversar com você, no dia seguinte cê [sic] tava me entregando lá. Isso dentro do país, dentro do Brasil. Dentro do futebol existia já uma alienação. Quer dizer: o país todo era alienado. Mesmo assim, quem tinha um pouco mais de consciência ou participação política, era oprimido. Se não fosse oprimido, era reacionário e dedo-duro. Então, o medo de todo mundo era esse. Ninguém conversava sobre política. A gente não falava nem o nome do presidente, fosse numa conversa, num almoço na sua casa, você não falava que “o presidente estava de bermuda”. Você não fazia referência nenhuma ao governo nem a política, porque se você fizesse… Primeiro que você seria monitorado pelo exército. Tanto que se você for procurar minha ficha lá, tem vários encontros, lançamento de livros, umas bobagens. Mas se você falasse: “Ah, eu vou jogar bola no campo do PC”, que fosse um Paulo César, eles iam achar que era Partido Comunista. Tinha todo esse fantasma… Quer dizer, fantasma não. Realmente tinha uma opressão mesmo. E como tinha muito, sempre teve muito dedo-duro, né? Muito infiltrado e tudo. E eles tinham controle total da coisa. Ninguém se posicionava. Nem sindicato, nem propriamente os políticos do Congresso. Ninguém.

Você conhece o Lula nessa época…

Conheci. Final dos 1970, na fundação do PT.

Numa recente entrevista que você deu à edição brasileira do El País, há um trecho em que você fala sobre a comemoração do gol que você marcou contra a Suécia, na Copa de 1978. Parece que houve uma espécie de aviso para que você segurasse seu ímpeto nas comemorações. Como foi essa história?

Esse episódio foi quando eu cheguei à Seleção brasileira, durante as eliminatórias de 1977, quando comecei a ser convocado. A comissão toda da Seleção era militar: Coronel André Richer, Capitão Coutinho, apesar de o Coutinho ser um diplomata. O Richer falava pra eu não vibrar assim, com esse gesto. Antes desse episódio, em 1976, 77, eu tinha dado uma entrevista para o Jornal Movimento. Era um jornal da imprensa alternativa, mais sindicalizada. Eu dei uma entrevista num tom assim, de anistia, para os militares voltarem pro quartel; a Constituição, as eleições, acelerar o processo democrático, etc. Esse foi o meu primeiro impacto direto com o governo militar. E por causa disso eu deixei de ser chamado, passei a ser perseguido. Começaram a formar aquela difamação de que eu era gay, cachaceiro e tal. A imprensa oficial é a imprensa muito do governo filho da puta. Era eu sozinho, não tinha partido e também não tinha amigo pra conversar. Mas eu dei essa entrevista e foi aí que deflagrou. Então, eu já tinha esse posicionamento mais político, mais para a democracia do país, o que não era bem visto pelo governo militar. Um ano antes, sei lá, o Alysson Paulineli, que era ministro da agricultura e também vizinho meu aqui em Belo Horizonte, e o Zé Cunha, que era do rádio, era lá da minha terra, me chamaram uma vez em Brasília pra falar mais ou menos: “ele não tem perigo”, pra melhorar minha imagem com o governo. Ali eu conheci também o Ney Braga, que era o ministro da educação. Então, no dia lá da despedida da Seleção rumo à Copa de 1978, lá no Palácio Piratini, no Rio Grande do Sul, eles me levaram lá na presença do presidente, do Geisel. Presidente não. General, né? Quando me apresentaram a ele, falaram: “Esse é o garoto”. Aí ele falou pra mim: “Olha, você joga bola muito bem, mas pense somente em jogar bola. Deixa que a política a gente faz aqui”. Só que foi num tom… Ele estava de farda, militar… Um tom mais de militar mesmo.

Sentiu que era um recado?

Claro, uai! Eu, menino lá, e o presidente chega e fala: “Ó, vai jogar bola e não fala de política”. Eu vou falar o que pra ele? “Ah, presidente, vai tomar no cu”?

Mas e na hora do gol? Você se esqueceu do recado?

Pois é, na hora do gol, você vê que eu comemoro assim [gesticula]: primeiro eu abro os braços depois eu faço o gesto. É mais ou menos isso.

No início da década de 1980, surge a Democracia Corinthiana. Deu vontade de jogar naquele time, pela causa?

Naquela época a gente não cogitava muito. O jogador tinha o passe preso. Não existia esse negócio de “ah, eu quero jogar ali, tô sonhando em ir pra Europa”, não vendia. Mas é claro que todos nós ficamos bastante orgulhosos, bastante entusiasmados com esse movimento da Democracia Corinthiana. Até porque o Sócrates se destacava como grande jogador, a grande liderança. Mas eu via que o movimento tinha toda uma retaguarda sindical e política. Quer dizer, era um movimento dos jogadores, tudo bem. Era a fantasia que precisava. Por exemplo: esse gesto [do gol na Copa de 1978] era fantasia. Você não podia falar porra nenhuma, não podia fazer nada. Você não tinha a tribuna. Quer dizer, você tinha a tribuna para falar somente de futebol, não se podia falar de outra coisa. É aquele negócio, driblar a censura? Então eu vi que a Democracia [Corinthiana] era importante por causa disso. Trazia no seu bojo mais coisas do que somente a fantasia de democracia corinthiana. Era mais um posicionamento político, não só desse grande clube que é o Corinthians, mas a grande torcida do Corinthians, sobretudo em São Paulo, que era o berço dos movimentos sindicais e políticos.

Entre 1978 e 1982, você e Sócrates chegaram a conviver algumas vezes no ambiente da Seleção. Vocês falavam sobre temas políticos?

Falamos, mas muito de en passent. Porque não é o ambiente pra gente conversar de política. Estamos na Seleção, a gente falava de futebol, pô. Eu não era político, não era filiado, não tinha nada. E outra: ninguém falava de política igual se fala hoje. Esse negócio de você falar de política nessa época, meu amigo, você pensava umas dez vezes antes de falar. “Ah, vamos conversar de política”: tá doido! Não era assim não. Além disso, a gente não tinha essa profundidade pra discutir política não. Nós éramos pessoas normais, do povo, como vários outros aí. Mas ninguém tinha essa erudição política não, pra você fazer um discurso. Como hoje: qualquer um vai na televisão e faz uma exposição política. Antigamente não tinha isso. A não ser os grandes intelectuais e, mesmo assim, não se manifestavam.

Ultimamente escuta-se muito que não houve ditadura militar, mas sim, um governo militar. Esse discurso é geralmente reproduzido por pessoas mais novas, que escutam isso dos pais e dos avós. O que você acha disso?

Foi uma ditadura militar porque os militares tomaram o governo. Então, foi uma ditadura. O governo era militar, então era uma ditadura militar? Hoje nós temos militar no governo, mas não é uma ditadura. A ditadura é quando você toma o governo e impõe a sua vontade, desprezando todas as prerrogativas do Congresso, do Judiciário. Então foi uma ditadura. O que comprova a ditadura é a truculência, as atrocidades, as torturas, a repressão, a censura… Isso só acontece em ditaduras. Os fatos estão aí e agora vem surgindo cada vez mais documentos comprovando a ação dos militares, o que esse governo militar fez com o povo brasileiro.

Um mês após a Copa de 1982, você tem uma exibição de gala pelo Atlético Mineiro em jogo pelo Torneio de Paris, contra o Paris Saint-Germain. Acha que seu corte teve mais a ver com uma decisão do Telê Santana ou do regime militar? A justificativa oficial para seu corte era a de que você estava machucado…

Primeiro, eu acho que a influência vem do meu histórico de contusão. Eu fui machucado pra Copa de 1978, o Coutinho que me bancou e tal. Tinha essa ressalva aí de “ah, ele na outra copa foi machucado”. Essa é a primeira coisa que eu considero dentro da normalidade: “Vão me tirar porque acham que eu não vou suportar fisicamente”. Somente com muita má vontade mesmo porque se eu estava jogando normalmente, era porque eu tinha condições. Se eu machuquei, machuquei no ano anterior à Copa de 1982. Em segundo, porque… Ah, o Telê me conhece desde pequeno e eu conheço o Telê também. O Telê sempre teve uma posição assim, apesar de ser um grande treinador, uma grande pessoa, ele sempre teve uma posição mais reacionária, né? Então ele declinou [da minha convocação] com esse argumento. Talvez não tenha sido nem tanto pela política. Aí já foi coisa de que eu era amigo de um homossexual, do [radialista] Tutty Maravilha, e que eu dava opinião política, que eu não era intelectual, que eu não podia discutir, que eu tinha que só pensar em futebol… Telê era meio assim. Então eu acho que é por essas duas coisas. Talvez por comportamento ou posicionamento.

Você acha que o Telê foi na onda de uma suposta campanha difamatória contra você?

Ah sim, sim, sim. Ele declarou que eu não era intelectual, que eu não entendia nada, que eu tinha que jogar bola… Essas declarações ele fez. E que ele não era amigo de homossexual, aquelas coisas.

Você era amigo do Tutty Maravilha e isso acabou sendo usado para difamar você…

A imprensa explorou isso. Porque amigo gay, todo mundo tem. Naquela época não se dizia nem gay: era afeminado.

No futebol existe um tabu enorme por isso, imagina nessa época. Você acha que jogadores homossexuais devem assumir essa condição? O que falta para quebrar esse tabu no futebol?

Eu não sei se há necessidade. E outra: é vida pública. O receio do jogador é o seguinte: o cara não vai querer duas vezes, três vezes por semana, cair numa multidão e uma multidão ficar… Porque uma multidão te massacra, meu irmão. Sendo heterossexual já é difícil. Igual lá no Maracanã, contra o Flamengo [Campeonato Brasileiro de 1980]. Eu estava em campo, machucado. Cada vez que eu pegava na bola, eram 200 mil pessoas gritando: “Bichado, bichado”. Você tem vontade de entrar debaixo da grama e sair correndo pro colo da sua mãe. Multidão é um massacre, ainda mais em campo de futebol. Então, talvez seja isso. Políticos assumem porque levantam essa bandeira com pretensões eleitorais. Cantores assumem porque são artistas, vale tudo. Mas tem várias outras profissões que exigem que você fique um pouco mais reservado, que não se exponha, a não ser que haja necessidade. Pra quê você vai assumir: “Ah, hoje eu vou jogar porque eu sou…” Não…

Você já conheceu algum jogador homossexual, mesmo após o fim da sua carreira?

Não. Declarado, não.

Então a torcida atrapalha?

Não é a torcida. É a multidão. Você ficar ali no meio e a multidão: “Ô filho da puta, filho da puta”, 24 horas na sua cabeça. Se um jogador chama o outro de “negão” você vê que ele já abala… Multidão… Não brinca com a multidão não. Tem que melhorar mas, no futebol, ainda é a reserva do baixismo.

Alguns ex-jogadores brasileiros têm falado publicamente que são melhores do que os grandes jogadores da atualidade: Renato Gaúcho afirmou ter sido melhor do que Cristiano Ronaldo; Romário disse que teria ganho mais duas ou três bolas de ouro se tivesse ficado na Europa. Você também se compara a algum craque da atualidade?

Não, eu sou melhor do que eu mesmo [risos].

Qual jogador você viu que mais se assemelha ao seu futebol?

Ah, o Romário. O Romário era meu fã, depois eu passei a ser fã do Romário, vendo ele jogar. Romário ultrapassou o mestre. O Fenômeno também jogou pra caralho. Romário, Ronaldo Fenômeno, Careca jogou pra caralho. Ah, tem muitos jogadores… O Coutinho, eu vi um pouco do Coutinho. Muitos jogadores. Dentro da área ali… Mesmo o Adriano Imperador, que é um outro estilo, um centroavante canhoto, pesado, também foi. O Brasil já fez grandes atacantes e centroavantes também. Mas você não pode ser afirmativo, taxativo de que “eu sou melhor que o outro” porque cada um é um estilo. Cada um produziu de um jeito. Eu, por exemplo, não tenho o histórico desses grandes jogadores. Mas o meu jogo era um jogo refinado, um jogo incomparável. O meu toque, meu estilo, minhas características, sabe? Aí, quem que aproxima um pouco mais acho que era o Romário, o Careca. Por exemplo, eu não tinha a força do Fenômeno, a força do Adriano, mas eu tinha um outro jogo que… É igual pintor: cada um tem uma pincelada, meu irmão. Cada um dá uma pincelada e é ali que tá a arte.

Às vezes comparam o Agüero ao estilo do Romário também…

Agüero? Ah não, você tá de sacanagem. Pode parecer fisicamente e tal. Romário driblava, era habilidoso… Agüero é bom jogador, mas…

Mas esses saudosismos, por exemplo, na comparação entre o Messi e o Maradona…

São estilos diferentes, cara. O Messi, por exemplo. O Messi, porra! Craque, ganhou tudo, a produção dele, o custo-benefício: em tudo o Messi é top. Mas você já viu o Messi dar uma pedalada? Já viu ele dar um elástico? Não. Mas ele tem uma característica de conduzir a bola colada no pé. Ele não tem aquela fantasia do jogo, as cores do futebol … O Cristiano Ronaldo ainda dá umas pedaladas, mas são umas pedaladas meio duras ainda. Aquilo é velocípede [risos].

Na sua época, era capaz dele sequer receber uma chance, porque fisicamente ele não tem nada de jogador…

Pois é, aí é que tá. Ele é o cara que, aos 45 do segundo tempo, dá um pique de 100 metros. O cara é máquina, biotipo. Hoje , a base do futebol é força e velocidade: é ele.

Hoje você é o coordenador das categorias de base do Atlético Mineiro. Existe alguma diretriz para biotipo de jogadores de acordo com suas posições? Um zagueiro, por exemplo: se for menor que 1,85m não serve…

Ah tem, tem. Aqui, por exemplo, goleiro tem que ter 1,90m. Félix, em 1970, tinha 1,73 ou 1,75m. Leão, um metro e sei lá. O goleiro, aqui, com 14, 15 anos, eles já tiram uma radiografia, um negócio da mão, que já mostra o tanto que ele pode crescer e tal. Justamente pra você não ficar trabalhando o garoto e na hora que chega aos 18 anos ele tá com 1,70m para goleiro. Então, pra goleiro, precisa ter uma estatura. Pra zagueiro também. É difícil eu, com o meu tamanho, virar zagueiro. Posso jogar pra caralho, ser bom de antecipação, mas no alto eu perco. Aqui tem sim, essas diretrizes, principalmente para zagueiro e goleiro. Para o resto das posições não. Mas você não pode botar um zagueiro nanico… Pode até jogar, mas chega uma hora que compromete.

Hoje você está aqui no Galo, mas nem sempre você esteve perto do clube ou atuando dentro dele. O Atlético ofereceu ajuda nos seus piores momentos? Independente das diretorias, como tem sido sua relação com o Clube Atlético Mineiro?

Com o Atlético é uma relação assim… Indispensável… Porque é o Atlético que dá um certo sentido na vida… Ou melhor: é o Atlético que concretiza melhor a nossa vida. Sobre as diretorias que passaram… Aí são atleticanos, pseudo-atleticanos. A relação é mais política do que a relação de paixão e de amor que a gente tem pelo clube. Mas eu sabia que a gente ia vencer essas vaidades. Hoje não. O que é que eu quero da vida? O que eu quero é fazer o que eu gosto — futebol — no lugar que eu gosto, que é na Cidade do Galo. Eu passo o dia inteiro aqui como se estivesse no paraíso. Fico feliz e agradeço todos os dias, sabe? Por poder, mais uma vez, apesar de ser o maior artilheiro do clube, grande jogador do clube, servir ao clube com uma palavra, um treino, um gesto, com a captação de meninos, fazendo alguma coisa para o clube. É isso que alimenta a minha alegria de trabalhar. Porque nos últimos anos, eu fiquei uns três, quatro anos sem fazer nada… Quer dizer, fazer nada não. Fazia muito evento, mas não faz muito sentido. Era até legal porque era com a torcida. O Atlético tem consulado no mundo inteiro, então rodei muito.. Ah, atleticano me chama aqui, aniversário, jogo, fazer isso aqui, aquilo. Era futebol, mas era fora do clube. Agora não: agora eu tô ali no campo. Eu vou dar um treino hoje, se vocês quiserem… Então é bom ter essa atividade com o futebol e, o que é melhor ainda: é saudável, né? Você muda a sua vida. Você acorda vibrando.

O fim da sua carreira de jogador foi justamente quando veio à tona o seu problema com drogas. Queria que você falasse sobre a importância de se manter ativo, até para ajudar a ficar longe do álcool e outras drogas. É um momento de muita fragilidade para o jogador, quando ele se aposenta…

É. No pós-carreira, você fica ainda naquela expectativa do clube te chamar. E na verdade, quando você para, o clube é o seguinte [faz gestos de “tchauzinho”]… Agora está mudando um pouco. O clube, agora, está vendo que é importante manter uma relação amistosa, uma relação fraternal com aqueles que fizeram a história do clube. O perigo é o seguinte: você tem uma disciplina sua vida toda, desde menino. Desde menino é isso aqui [aponta para a entrada principal do CT], é treinar, comer, dormir, treinar, comer, dormir. Você está nessa vida: jogo, viagem, jogo, viagem, tal, dinheiro… Mas você não tem uma vida social. Jogador não tem vida social. Vida social de jogador… Se ele tiver um dia na semana pra visitar a mãe ou assistir um filme no cinema, ir num churrasco, sair com a namorada, é muito. Jogador não tem vida social. Eu, por exemplo, parei de jogar: porra, o Rei, liberado pra ir nas festas, todos os lugares e tal. Aí infla seu ego. Você sai na rua: “Pô, o Rei e tal”, vai te inflando o ego. Aí você vai entorpecer, vai ficar com a consciência alterada, aí você se torna um refém fácil de qualquer droga, bebida, tudo. É como tirar o chimpanzé do zoológico e dizer pra ele: “Ah, vai lá pra rua agora viver”. Se ele não tiver uma readaptação… Além disso, também depende da formação de muita gente. Nem todos nós somos privilegiados de ter uma educação, uma consciência, uma família equilibrada. Todos nós temos problemas. E o problema da droga é muito mais porque… Naquela época era quase uma política da droga mesmo. Nevava [drogas] neste país, era quase um modismo os incentivos. Era aquela época ainda daquele romantismo, anos dourados… A cocaína tomou conta, caiu no mundo inteiro.

Você ainda jogava quando teve contato com as drogas?

Não, foi depois.

Sentiu que era necessário suprir a adrenalina dos jogos com alguma droga?

Não, não. O barato é completamente diferente. A droga fazia algum sentido pra mim porque eu sempre tive umas dorzinhas no joelho. Com a cocaína, por exemplo, eu ficava sem essa dor. Não é que eu usava pra tirar, mas me anestesiava muito mais. Mas não usava para substituir os aplausos, nem adrenalina. Não sei se é redução de danos… Todos nós temos nossas angústias e nossos problemas. Ainda tenho vários amigos que continuam com a mesma coisa, outros que param, outros que vão para a igreja. Estamos expostos a isso tudo. Mas também, a gente não tinha informações sobre o poder de sedução e do poder da droga. Porque a cocaína é poderosa demais e sedutora. Você acha que domina, mas é você quem está se tornando prisioneiro ali. Foi dessa maneira que eu caí nessa esparrela, nessa escuridão, nesse inferno. É um verdadeiro inferno. É o vício, né?

Em algum momento você se sentiu dependente?

Eu não digo que era uma dependência forte. Eu tinha uma fissura, mas que podia ser substituída com a visita de um amigo, do meu filho, sabe? Não era assim “eu tenho que usar”, não. Mas era um vício já. Não é que eu usava todo dia, mas eu usava pelo menos uma vez, duas vezes na semana.

Em que momento você decidiu não usar mais?

Ah, o momento foi quando eu fiquei de frente pra justiça. Eu tinha uma filha que tinha acabado de nascer, aí eu falei: “Ah, eu não vou perder essa oportunidade de viver com a minha filha pra ficar usando droga”. Aí eu dei esse primeiro passo. Mas também foi necessário que eu fizesse um tratamento terapêutico, ambulatorial, clínico. Fiquei internado por um mês, um mês e pouco.

Como foi a abstinência dentro da clínica?

Foi tranqüilo, porque aí vem a redução do dano. Eles te dão um “sossega-leão”. É outra droga, mas não é tão nociva quanto a cocaína.

Depois disso você entra na carreira política, certo? Você começa como vereador e depois é eleito deputado estadual, ou o contrário…

Deputado estadual antes. Só depois que eu fui ser vereador.

Você chegou a ser eleito pelo PRTB, cujo líder é o Levy Fidelix, que é um cara conservador, de direita… Eu queria entender…

Não, mas aí a escolha é mais eleitoral, do coeficiente eleitoral. Eu fui eleito pela primeira vez pelo PT. A primeira vez que eu participei da política, nas eleições de 1989, foi pelo PT — aí sim, uma opção política minha. Só depois que eu fui pro PRTB, pro PDT… Para o PV eu ainda fui com um pouco ainda de [ideologia]… Mas depois eu falei: “é a mesma coisa”. Eu só fiz essas escolhas pensando no coeficiente eleitoral. Se eu preciso me eleger com vinte mil [votos], eu vou entrar num partido em que eu precise de cinqüenta mil? Eu nem conheci o Levy. Ele que me ligou uma vez, cobrando uma contribuição do partido… Mas não conheci ele não, nem sei. Nem o programa do partido. Hoje nenhum partido mais… Aliás, ter, tem. Nós vamos voltar aí e voltar com tudo.

Como você viu o julgamento do Lula?

Bicho… Eu sou jornalista, mas não tenho análise, profundidade no caso. Eu posso falar do sentimento apenas. Na verdade, é esse processo que está aí. Como eu sofri, ele também sofreu. É o Lula. É uma liderança que “vamos desmontar isso aí”. Já que não pode esquartejar, então vamos detonar o Lula.

Acredito que você não estaria a favor de nenhum esquema de corrupção, mas você sente uma politização dessa investigação? Um interesse político?

Claro! Interesses antes de tudo políticos. Porque é político, para exemplificar. Porque não vai prender todos. Você acha que só o Lula, só o PT que estão envolvidos nisso? Então, como não pode fazer paredão, não pode prisão perpétua, vamos exemplificar, pegar alguns, mas não todos. Aí, só quando vier a revolução.

Quais são seus ideais políticos? Você acredita ou deixou de acreditar em alguma coisa durante sua vida política?

Minha esperança política… Ela é divina.. A política é divina, tá no astral.

Você é cristão, evangélico…

Sou cristão.

Sempre foi cristão?

Já fui em igreja evangélica, naquelas épocas, já fui em centro espírita…

Sempre acreditou em Deus?

É. No divino. Acredito.

Você disse que a política é divina. Dentro da sua atuação política, como você planeja ou pretende atuar para contribuir justamente com essa divindade que você atribui a ela?

Ah, com fraternidade, sabe? Isso que é o socialismo, fraternidade. Ajudar as pessoas. Sair um pouco desse mundo de ilusão, do material, do mercado, do consumo… Desse mundo de Platão que eles mostram pra gente. Na verdade, existe outro que é muito mais fácil, muito mais simples e muito mais legal. É paz e amor. Você quer passar na minha frente, quer ganhar dinheiro? Tudo certo. Eu acredito nessa evolução do homem, nessa política do homem, sabe? Desprendido do material. Não é nenhuma proposta de política, é de comportamento. Teve uma época em que eu quis ser político, lutei pra ser eleito; teve uma época em que eu quis ganhar dinheiro, corri atrás de dinheiro. Hoje eu quero é ajudar, fazer o bem. Estar no mundo para fazer o bem. A proposta é essa.

Jornalista por formação, músico por insistência. Jamais desperdiçou uma cobrança de pênalti e lamenta que a torcida brasileira não possua gritos de guerra intimidadores para jogos da Seleção. Otimista por excelência, ainda acredita no futebol-arte, se diverte com o Brasileirão e se emociona com jogadores emocionados.

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