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Respeita o moço

Porque o bigode é grosso

Poucas cidades do mundo foram tão protagonistas como Istambul. Estrategicamente localizada entre dois continentes e com acesso ao mar, foi a capital de quatro impérios ao longo de 17 séculos. Ante à tamanha relevância, a queda de Constantinopla — como Istambul era conhecida — marcou a passagem da Idade Média para a Idade Moderna, em 1453. Se a tomada da cidade pelo Império Otomano é creditada ao sultão Mehmed II, o grande herói foi Ulubatlı Hasan, primeiro guerreiro a fincar a bandeira otomana nas fortificações locais, defendendo-a até a sua morte e virando um mártir nacional.

Séculos depois, a cena se repete e, embora tenha acontecido em um campo de futebol, também marcou um antes e depois na rivalidade já extenuante do Derby Intercontinental. Curiosamente, no entanto, este feito não foi protagonizado por um turco, e sim por um escocês que já havia escrito o seu nome no hall dos maiores personagens do esporte bretão: Graeme Souness.

O bigode dos Leões e a bandeira da discórdia

Considerado um dos maiores jogadores do Liverpool de todos os tempos, com o qual venceu três vezes a Champions League, a habilidade de Souness era proporcional não só com sua dureza, como a sua capacidade de se meter em controvérsias, ao, por exemplo, após duas temporadas na Sampdoria, aceitar, no final da década de 80, o desafio de voltar ao seu país para ser jogador e treinador do Glasgow Rangers — equipe pela qual torcia, ao lado do Hearts, durante sua infância em Edimburgo.

No futebol escocês, a personalidade confrontadora do veterano seguiu tão presente quanto o seu icônico bigode. Os títulos vieram na mesma medida das polêmicas, fossem nas respostas ácidas à imprensa ou nas transferências. Basta dizer que foi sob o comando de Souness que o Rangers fez a sua primeira grande contratação de um jogador católico, em 1989, estabelecendo um marco dentro de um ambiente cercado pelo sectarismo religioso: o atacante Mo Johnston, que estava prestes a retornar para o Celtic quando Souness o convenceu a vestir a camisa azul.

Cinco temporadas e sete troféus depois, Graeme aceitou o convite para voltar ao Liverpool. A passagem como treinador esteve longe de equivaler aos seus melhores momentos como jogador em Anfield, conquistando apenas uma Copa da Inglaterra em quatro temporadas. Ele já estava há um ano sem trabalhar quando, em 1995, aceitou a proposta para comandar o Galatasaray, onde reencontrou um clima de futebol que se assemelhava ao vivido por ele no seu auge como meio-campista, com torcidas tão espetaculares quanto perigosas.

Em sua chegada, Souness trouxe alguns britânicos, em especial o atacante galês Dean Saunders. No entanto, aquela que seria a primeira e única temporada do técnico no futebol turco não ia caminhando nada bem. O time havia sido eliminado nas rodadas preliminares da Copa da UEFA e não brigava pelo título do campeonato nacional. Neste cenário de fracasso, o treinador escocês convivia com críticas constantes, restando a sua salvação na decisão da Copa da Turquia, contra um brilhante Fenerbahçe.

Os arquirrivais do lado asiático de Istambul viviam uma fase melhor, na ponta da tabela do Campeonato Turco que viriam a conquistar. E, como as esperanças de triunfo europeu historicamente ficam pelo caminho no país, ganhar o double — Liga e Copa — costuma ser o ponto mais alto que um clube da Turquia consegue atingir. Por isso, o foco do Galatasaray estava em repetir a vitória por 2 a 0, conquistada meses antes, na sua então casa, o estádio Ali Sami Yen. No primeiro jogo da final, disputado no lado europeu do país, um único gol anotado por Dean Saunders garantiu uma vantagem considerada pequena, afinal de contas, a força do estádio Şükrü Saracoğlu estava sendo decisiva a favor do Fener naquele ano — os Canários não perderam nenhuma vez dentro de casa no campeonato nacional.

No jogo de volta, os donos da casa responderam com um gol solitário no tempo regulamentar à bola no travessão acertada pela equipe de Graeme. Foi na prorrogação que Saunders voltou a mostrar ser o grande acerto do treinador escocês, ao infiltrar livre dentro da área e desferir um chute mortal que garantiu o empate por 1 a 1 e, conseqüentemente, o título ao Galatasaray.

Enquanto os seus comandados saboreavam a vitória, Graeme sentia alívio. Mas quando viu, entre milhares de rostos tristes nas arquibancadas, o de Ali Haydar Şen, o sangue subiu à sua cabeça: o dirigente do Fenerbahçe estampou as capas de jornais meses antes, dizendo que o Gala havia contratado um treinador “aleijado”’ — em referência à cirurgia no coração feita por Souness pouco tempo antes. Foi então que ele pegou uma bandeira gigante com as cores do Galatasaray e saiu em disparada rumo ao meio-campo. Lá golpeou o gramado três vezes, até conseguir cravá-la, sem tomar ciência de que, naquele momento, se tornava um imortal. Em referência ao mártir otomano que, séculos antes, havia enterrado a sua bandeira em território inimigo para clamá-lo como seu, o técnico passou a ser chamado como ‘Ulubatlı’ Souness. Mas antes disso, teve de fugir da ira dos torcedores adversários enquanto os policiais faziam o máximo para evitar uma grande invasão de campo. Ainda assim, o título não foi o bastante para manter o escocês no cargo, mas o episódio serviu para inflamar ainda mais uma das maiores rivalidades do mundo.

A vingança nunca “sempre” é plena e o bigode dos Canários

“A mosca é pequena, mas é grande o bastante para atormentar”, diz o ditado turco, não existindo melhor analogia para sintetizar o que é a figura de Okan Güler, torcedor mais famoso do quadro asiático de Istambul, um homem de estatura baixa, ostentando um pomposo bigode, com um corte de cabelo esteticamente questionável e uma coragem inabalável.

Seis anos após o insano ato de Graeme Souness, a bandeira do Galatasaray ainda estava entalada na garganta dos aficionados do Fener. Rambo Okan, como também é conhecido, teve que tomar uma atitude, pois os rivais teriam que sentir o gosto amargo das cores contrárias no meio do gramado fincando a terra e os corações dos seus apaixonados.

Doze de agosto de 2002. Este foi o dia escolhido para a improvável vingança. Seria o primeiro jogo do Galatasaray da temporada e Rambo não poderia deixar aquele tenebroso ato do rival passar impunemente por mais um ano. Arquitetou um plano e decidiu agir. Escondido, levando consigo uma faca e fardado com o azul, branco e amarelo do Fenerbahçe, Rambo entrou no Ali Sami Yen na madrugada do dia 12. Relatos dão conta de que o fanático teria ficado 14 horas espremido em uma placa de publicidade e sem fazer barulho até o horário da partida. Antes do apito inicial, com sua faca ele rasgou a placa, saltou no gramado, correu até o centro do campo e cravou a bandeira no território rival. Como se não bastasse, ainda a defendeu com sua arma branca, enquanto policiais tentavam retirá-lo do gramado. Ao fim, a polícia conseguiu levá-lo para fora do estádio, mas quem assiste às imagens sabe que ali está sendo carregado um homem vitorioso.

Desde então, Rambo tornou-se torcedor símbolo do Fenerbahçe e presença constante nas manchetes dos jornais locais. O episódio no estádio do Galatasaray não foi o único: em 2008, ele participou da reconhecida maratona de Istambul, quando surpreendentemente chegou em primeiro lugar na categoria 40–44 anos. No dia seguinte, ao verificar o microchip dos competidores, a organização do evento chegou à conclusão de que Okan venceu de forma ilícita, possivelmente pegando alguma carona no caminho.

A última grande aparição do herói dos Canários Amarelos aconteceu em 2010, quando decidiu roubar armamento policial. Câmeras da delegacia filmaram a ação e, algumas horas depois, o encontraram dentro de um canil com todo o conteúdo bélico. Imagens dos jornais da época o registraram apontando uma ostensiva arma automática para os repórteres que cobriam a ação. Rambo resistiu por uma hora até se entregar às autoridades. Em depoimento, revelou ter cometido o crime pois não suportava mais Aziz Yıldırım, presidente do Fenerbahçe, e pretendia levar o armamento para o protesto contra o dirigente.

O mundo do futebol é violento e apaixonante na curiosa cidade de dois continentes, rasgada por um estreito tão cobiçado historicamente e habitada por um povo temperamental. Os turcos possuem a sua sabedoria, e claro que suas torcidas também. Em alguma interpretação à la Fener, podemos dizer que “Rambo Okan é pequeno, mas louco o bastante para atormentar”… e para responder a uma perigosa provocação entre bigodes e bandeiras

Jornalista formado na FACHA, acredita que o futebol, além de ser o melhor dos esportes, é palco para grandes lições sociológicas, históricas... e de vida. Árduo defensor de que 3 a 0 jamais será goleada, foi um goleiro promissor e hoje brinca de ser zagueiro esforçado.

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