Carrinho de compras

Nenhum produto no carrinho.

Ricardo Rocha

Xerife. Apelido que marcou. Seu bigode dos tempos de jogador já não existe mais, e ele explica o porquê. O estilo tradicional do zagueiro ganhou novas tendências. Óculos hipsters, calças e camisas justas. Ricardo — que não era Rocha ainda — ganhou o sobrenome como complemento quando passou a dividir a zaga da seleção com o outro Ricardo, que não era o Gomes até então. Fez parte da geração massacrada, como ele mesmo disse, “que sofreu muito mais do que a geração do 7 a 1”. Foi um dos que compuseram a Era Dunga dos anos 90. Não era o capitão em 1994, aliás, era o Raí, mas após o camisa 10 ser barrado durante aquela Copa, e Ricardo Rocha sair lesionado no primeiro jogo contra a Rússia, Dunga acabou recebendo a braçadeira e levantou a taça que não era do Brasil há 24 anos. Essa história todo mundo sabe, são as credenciais de Ricardo Rocha. Um cara que saiu do Santo Amaro muito jovem, foi para o Santa Cruz, de onde migrou para o sudeste, precisamente para o Guarani. Dali em diante, teve uma carreira expressiva, passando por vários times tradicionais do Brasil como Sao Paulo e Vasco, e do exterior, como o Real Madrid, Sporting e Newell’s Old Boys.

O almoço estava marcado num restaurante de comida nordestina, especializado em camarão. Chegou muito simpático, cumprimentou, olhava o celular a cada segundo, sentou. “Tudo bem?” Interagiu. Enquanto a entrevista era preparada, o freqüentador do Camarada Camarão já sabia o que pedir. Acompanhado de sua filha, foram direto no camarão crocante com risoto. Pedido feito e o papo já fluía pra lá e pra cá. Ricardo fala fácil, nada ‘complicado’, sujeito simples. Perguntado sobre preconceito — afinal, um nordestino que veio pro sudeste tentar a vida é uma história que se repete todo dia, há décadas —, Ricardo disse que na sua época existia muito mais: “Já havia muitos jogadores do nordeste vindo pra cá, mas você quer ver uma coisa? Jogador ser convocado pra seleção de base era muito raro. Mudou muito. A gente não tinha tanta chance de ser sequer convocado. Jogador do nordeste ser convocado era quando estava no sul. Mas sair do nordeste direto pra seleção era muito difícil. Era um preconceito, mas era tudo muito distante.”

O Xerifão lembrou-se de uma citação do presidente do Guarani de sua época: “Você é o último jogador [nordestino] que estou trazendo. Aqui normalmente os caras vêm, falam que está muito frio, não aguëntam, querem voltar”, falando da pressão que sofria porque não havia muita margem pra erro.

Com relação ao seu sotaque, Ricardo Rocha reduziu a importância que se dá pra essa questão e desdobrou o assunto em torno do ‘politicamente correto’: “Quer ver uma coisa? Qualquer coisa que se faz aqui no Rio, chamam o cara de Paraíba, aí se fala em bullying. É tanta coisa, gente, eu acho que você tem que saber diferenciar como essa pessoa trata você no dia-a-dia. Às vezes tem muita brincadeira, ‘seu paraíba!’, não sei o quê, mas as pessoas levam isso muito a sério. O mundo está chato.” E lembrou-se de um bate papo com Carlos Alberto Torres: “Ele falou, ‘Ricardo, pô, o Pelé era sempre Negão pra lá, Negão pra cá. Hoje em dia, talvez rendesse muitos processos.’” O Capita viria a falecer dias depois. Eles eram bastante próximos.

Ricardo disse nunca ter negado suas origens: “Sou nordestino, com muito orgulho, nasci em Recife, vim pro sul e fui muito bem tratado. Houve problemas, às vezes, dentro de um jogo, eu acabava até rindo, às vezes a pessoa não é má, mas quer ganhar o jogo, e eu não levava aquilo pra fora do campo. Mas é claro que se ficar insistindo muito naquilo, é preciso tomar alguma atitude.”

Houve um ‘plebiscito’ realizado no ano de 2016 que perguntava aos sulistas se eles desejavam se separar do Brasil. Conhecido como ‘Plebisul’, o pleito online votou majoritariamente a favor da separação. Se em uma hipótese tão surreal quanto a separação do sul, caso o nordeste se separasse, e ele ainda fosse jogador, Ricardo não hesitou em dizer qual lado defenderia e lembrou-se da questão da Catalunha: “Em primeiro lugar, isso aí se fala muito em Barcelona e Madrid, naquela questão da separação. E se houvesse uma separação, eu sou nordestino. Se houve uma separação, não foi por mim. Aliás, esse negócio de separação, isso pra mim não existe. É um Brasil só. O meu lado é o lado mais pobre, com secas, problemas seríssimos, mas eu tenho que respeitar, numa separação, eu seria nordestino, e se dependesse da minha escolha, eu escolheria o nordeste. Eu deixaria de ser brasileiro com essa separação, embora na minha cabeça isso não exista. Eu sou brasileiro e gosto do sul, do norte, do nordeste. Eu amo Brasil. Amo o meu país. Se quiserem votar, eu não sou contra. O Brasil pra mim é um só. Mas se houvesse uma separação, você pode ter certeza, eu jogaria pelo nordeste.”

Givanildo Oliveira

Um técnico pernambucano que rodou pelos principais clubes do nordeste e também do norte, e teve êxito na maioria dos seus trabalhos. Mas sempre encontrou muita resistência no sudeste. Sequer chegou a trabalhar no sul do país. Sobre a existência de preconceito neste caso, o Xerifão foi enfático e abrangente: “Eu não diria nem só em relação a Givanildo. Você vê muitos treinadores negros no Brasil? São raros. A gente fala que não tem preconceito. Mas claro que ele existe. Existe sim. Givanildo é aquele treinador que a adaptação dele ao nordeste é muito melhor. Eu conheço Givanildo. É uma pessoa extraordinária, um baita profissional e acho injusto o que fazem com ele em alguns clubes. Ele subiu com o América [em 2015] e o América tirou ele [já em 2016]. De que adiantou tirar Givanildo? Nada. O América caiu [em 2016]. Não há uma paciência em relação a ele e ao trabalho dele. E há sim um preconceito em relação a ele.”

Chegou a comida. Pausa na entrevista. Seguia o papo. Impossível ser diferente com Ricardo Rocha à mesa. No final do almoço, chega um sujeito à mesa já de 60 e poucos anos, e diz que Ricardo jogou em seus dois times: “Esse aqui jogou no meu Santos e no meu Vasco”, e continua a falar sobre as qualidades do ex-zagueiro e se alonga, fazendo perguntas que, na verdade, ele mesmo queria respondê-las. Ricardo Rocha deve passar por isso praticamente todo dia. Uma figura pública como ele, que além de ex-jogador também se tornou comentarista, tem que estar acostumado a isso.

Sotaque

Seria essa a razão para preconceitos? Talvez a forma mais direta de identificar uma pessoa, e discriminá-la. Mas Ricardo Rocha não acredita que seja por causa da forma de falar que Givanildo de Oliveira não tenha as oportunidades que mereceria, embora tenha dito antes que houvesse preconceito. O ex-zagueiro atribui ao mérito das pessoas também: “Acho que, o que mais importa, é a competência do treinador. Você não tem que se sentir diminuído pela forma como fala. Eu tenho 31 anos fora de Recife e, quando eu começo a falar, logo percebem que sou nordestino. Entendeu? Eu não sou aquele cara que veio passar uma semana no Rio e volta falando carioca. Eu tenho a minha maneira de ser Se você vai bem e a equipe vai bem, isso [o sotaque] não vai mudar em nada.”

Em 2014, Ricardo passou a atuar como comentarista da Sportv, onde pretende continuar: “Estou muito feliz fazendo o que faço. Eu tenho um contrato que foi renovado e estou feliz no que faço. Voltar ao futebol, só se tiver uma coisa muito interessante. Até porque no Brasil tem um problema. Você faz um planejamento, mas ele é mentiroso. O planejamento só é levado adiante se tiver vitórias, sem vitórias, esquece! Poucos presidentes conseguem segurar um treinador pela pressão do torcedor. O torcedor é imediatista. O presidente de um clube pode colocar a casa em ordem, pagar as dívidas, e o torcedor não quer saber disso. Isso é muito ruim, pois ele está melhorando o clube. Por exemplo, o Flamengo tinha uma dívida de R$ 750 milhões. Reduziu pra R$ 450 milhões. Mas se não ganhar títulos isso não vale nada. A cobrança é muito grande. O torcedor não entende que as pessoas que estão no clube não são culpadas pelo rombo que foi deixado. E é muito difícil com o que se arrecada pagar toda a dívida que se acumulou.”

Ex jogador comentarista

Ricardo comparou a diferença entre criticar um jogador e faltar com respeito. Como ex-jogador, ele percebeu que há maneiras de se direcionar à performance do atleta: “Eu penso como eu me sentiria. Uma coisa é você falar que um jogador não está jogando bem. Ele entende. E se você falar que tal jogador não joga nada é outra coisa. A crítica é fundamental desde que ela seja leal. É o que eu tento ser. Eu nunca vou falar de um jogador como, em 1990, aquela Era Dunga, nós fomos execrados. O 7 a 1 não é nada perto do que a gente passou. A pressão foi muito maior. E claro, eu não queria ouvir que o Ricardo é o melhor zagueiro, não. A unanimidade é burra como diria o nosso amigo lá, o Nelson [Rodrigues]. Pernambucano, né? Eu tinha um papel de liderança em 94. Quando algum jogador me perguntava alguma coisa, eu sempre perguntava de volta se ele queria que eu respondesse para o ego dele ou dizer o que eu realmente acho? Porque pro ego dele, ele é sempre o maior do mundo. Jogadores falham e chegam em casa e o pai e mãe falam que não, que foi o lateral que não te cobriu, começam a buscar desculpas que eu acho totalmente errado. Você tem que chegar e falar a realidade. Você não esteve bem, pode melhorar. Outra coisa, o jogador não é obrigado a jogar bem em todos os clubes. O treinador não é obrigado a fazer um grande trabalho por todo clube que passa. Eu gosto de treinador que chega e fala — o que é raro de acontecer — que veio pra fazer um trabalho, não deu certo, em vez de ficar buscando desculpas, porque tem muito jogo, porque não tem jogador. Você quando assume, você tem que saber o que o clube vai te dar. Às vezes, quantos jogadores não estão mal num clube e quando são transferidos jogam muito? Ele pode não jogar bem no Flamengo, mas pode jogar muito bem no Fluminense porque pega um treinador que entende melhor a maneira dele jogar.”

Jornalista que nunca entrou em campo

Sobre os jornalistas que nunca jogaram bola, e se propõem a fazer análises técnicas ou táticas, Ricardo se mostrou muito moderado: “Eu acho que o respeito tem que vir dos dois lados. Eles têm que respeitar tudo o que fiz, e eu tenho que respeitar tudo aquilo que eles estudaram. Eu tenho aprendido muito com pessoas que não foram jogadores. Me ensinaram muito. Quando eu comecei, durante a Copa de 2014, foi com o Jader Rocha e o Carlos Eduardo Lino, até brincamos de chamar o Lino de Lino Rocha pra fazer a família Rocha. Aprendi muito. Aprendi também com o Edinho, que foi jogador que já estava no canal. Você tem que ter a humildade de saber que aquilo ali você nunca fez. Tinha jogo que eu ficava sozinho, com o cara da câmera e eu. Eu nunca tinha feito aquilo. Fui jogado aos leões [risos]. Eu sei muito pouco ainda, quero melhorar muito. É importante você escutar, ver as pessoas. Vejo o Luiz Carlos Júnior narrando, o Lédio comentando, o PC [Paulo Cesar Vasconcellos], vejo o Galvão no ‘Bem, amigos!’, vejo o Caio que é bem mais novo. É importante pra aprender.”

1990 vs 7 a 1

Ricardo falou do quanto a geração dele sofreu ao ser derrotada na Copa do Mundo da Itália em 1990 e em relação ao 7 a 1, que a cobrança não se comparava entre um fracasso e o outro. Ricardo Rocha falou sobre as diferenças das gerações: “Nós perdemos um jogo. Se você buscar o jogo do Brasil do 7 a 1, e você pegar Argentina e Brasil, é diferente. O Brasil simplesmente massacrou a Argentina. É porque tem um homem chamado Deus, que sabe das coisas, e aquele não era o nosso momento. E digo mais, o grupo não estava unido pra conquistar aquela Copa do Mundo. Muitos problemas na chegada, na saída. Esse grupo se fortaleceu em 94, mas por conta dos problemas de 90. A gente jogou muito, três bolas na trave, massacre total, eles foram lá, numa jogada de Maradona, uma linda jogada, um dos maiores jogadores do mundo, um gênio, tocou pro Caniggia, 1 a 0. E nós chegamos e fomos massacrados. Eu me recordo quando eu ia almoçar ou jantar com meus filhos pequenos, eles não entendiam muito, não digo que os torcedores queriam bater, mas você ouvia uns comentários, ‘esses caras não jogam nada, tudo mercenário, ladrão, na cara de pau’, do teu lado e tu com os teus filhos. E você tem que agüentar muitas coisas. Eu agüentei porque eu jogava no Brasil, eu não jogava fora. Um ano depois que fui pro Real Madrid, tive que segurar e confiar que um dias as coisas iam mudar. A diferença no campo foi essa porque a gente não jogou mal, jogou muito bem. Nos 7 a 1, não. O Brasil taticamente tomou um baile, parecia até que os caras tiraram o pé. Verdade! Outro ponto: nós perdemos a Copa em 90, e todos foram execrados e ficaram de fora. Nem Romário, nem Bebeto. Todos fora. Fizeram uma limpeza. Falcão assume e o Brasil simplesmente não consegue vencer nenhum dos amistosos. E há uma pressão pra pelo menos voltar alguém. Os primeiros jogadores a voltarem, se não me engano, foram o Taffarel — para a Copa América —, eu, Branco, Renato Gaúcho e Mazinho, acho que jogaram em 90.

Ali começa um resgate da geração de 90 com a nova geração, que era a do Mauro Silva, o Neto estava também nessa Copa América, não tinha ido pra 90. Ali começa um resgate. Eu falava muito com o Branco — a gente tem uma amizade muito boa —, que tínhamos que trazer o máximo daqueles jogadores que tinham qualidade e que queriam voltar. É isso que eu falo sobre o 7 a 1. Têm jogadores que eram muito jovens e que não tiveram culpa nenhuma. Podem falar o que quiser, mas eu digo uma coisa: pra ganhar Copa do Mundo você tem que ter experiência. A nossa seleção [de 94] tinha disputado uma eliminatória, essa seleção do 7 a 1 não tinha jogado nenhuma eliminatória, nada! Foram de uma Copa das Confederações, que é enganosa, direto pra uma Copa do Mundo, sem experiência nenhuma. Uma seleção do mundo que ganhou a Copa com um time inexperiente? Não conheço. Vou falar do que eu conheço. Em 70 no Brasil, pergunta à turma de 70, a quem estava lá, perderam em 66. A Alemanha foi de 70 pra 74. A Argentina de 74 pra 78. Amigo, não tem jeito. Não ganha Copa do Mundo se você não sentir [na pele].

Eu me recordo do Mascherano, ele fala assim numa entrevista, que ‘Eliminatórias não tem nada a ver com Champions League’. Champions é uma coisa, agora, vai jogar uma Libertadores!’ Esses jogadores brasileiros, agora sim, você tem um Neymar, e vários desses jogadores que jogaram uma Copa do Mundo. A próxima Copa eles vão estar ‘cascudos’ e na outra ainda mais. Essa seleção do Brasil, eu sempre pensei que ia ser boa pra outra [Copa]. Pela juventude e inexperiência. Você tinha três jogadores que disputaram uma Copa do Mundo [antes de 2014], mais ninguém. Você tem que ter um peso de jogadores que disputaram Copa do Mundo e o Brasil não teve. Era uma equipe experiente na Europa, mas em Copa do Mundo não. Essa Seleção agora está indo jogar na Colômbia, no Equador, ela vai amadurecer, vai crescer muito mais. Com paciência, porque a gente tem que ter paciência com esses jogadores. E acho que estão no caminho certo. E acho que a grande diferença é que a gente [geração de 90] tinha disputado uma eliminatória e o jogo foi 1 a 0. Eles não. Tomaram de 7 a 1 sem disputar nenhuma partida de eliminatória e isso pesou. O Brasil perdeu pela inexperiência. Mesmo tendo treinadores experientes, não resolve.

Se você não tiver dentro de campo jogadores que tenham participado de eliminatórias e de Copa do Mundo, porque se não me engano, de 90 pra 94 tinham dez jogadores. Goleiro [Taffarel], o lateral direito [Jorginho], eu, Branco, Romário, Bebeto, Mazinho, Dunga, então você tinha uma base forte, Aldair. É fundamental amadurecer esses jogadores. Eu não gosto quando o Brasil vai jogar com a Colômbia nos EUA, por exemplo. O Brasil tem que jogar com a Colômbia aqui ou lá. Você fazer um jogo, tudo bem, mas toda hora, tudo nos EUA, Suíça… Não serão os mesmos torcedores que você vê lá na Colômbia ou aqui no Brasil. São torcedores diferentes. São brasileiros, mas é diferente. Não há uma pressão. Eu gosto, quando nos amistosos, você tem que ir lá na Argentina. Esses garotos estão amadurecendo agora,

Pós 7 a 1

Dunga, um dos que foram de 90 pra 94 — aliás, aquela geração que fracassou na Itália ficou conhecida como ‘geração Dunga’ —, foi o escolhido para reconduzir o futebol brasileiro após o 7 a 1. O Capitão do Tetra, e companheiro de Ricardo Rocha naquela campanha, não ficou imune. O Xerife não passou a mão na cabeça do amigo: “Dunga, pra mim, em 2010 foi excelente, fez uma bela campanha. Porque o povo brasileiro é o seguinte: tu se apega em um jogo. Se você pegar Brasil e Holanda naquela Copa, o Brasil era pra ter vencido de 2 ou 3 a 0 no primeiro tempo. Não fez o gol. Terminou 1 a 0. No segundo tempo, quando toma o gol, o Brasil afunda psicologicamente, o Brasil foi um desastre. A equipe não se recuperou do gol. Aí tomou o segundo e foi eliminada. Mas acho que Dunga foi bem na Seleção. Se tu me perguntar sobre a volta de Dunga, se era pra ser ele, eu vou dizer não. Sou amigo dele. Não é por nada. Mas eu não esperava a volta de Dunga. E acho que nem ele.

Quando o Gilmar Rinaldi assumiu, ele foi buscar o Dunga. E já tinha um problema do Dunga com a imprensa, com o público no Brasil, né? E por incrível que pareça, começou muito bem. Foram 11 amistosos e 11 vitórias se não me engano. E vários fora do país. Eu fiz os dois primeiros, foram nos EUA. Mas sempre teve aquele pé atrás em relação ao Dunga. Ele pra mim é um cara extraordinário, conheço o Dunga, um cara que tem um coração enorme, mas ele tem a sua maneira de ser, aquele jeito dele. Não sou eu nem ninguém que vai mudar, então aquilo foi irritando algumas pessoas. Quando veio a derrota na Copa América e na Copa América dos 100 anos, ele perde. E ali foi a grande gota d’água. E todo mundo esperava, e eu achava que o Tite era o melhor treinador e que ele deveria ser chamado, mas quando foi escolhido o Dunga, eu disse: vamos com tudo! Vamos lá. Se Deus quiser, as coisas vão caminhar bem. Mas não foi da maneira como a gente esperava. Porque uma coisa é você jogar amistosos e outra coisa é ganhar os campeonatos. A exigência no Brasil é por você ganhar a Copa América, você classificar pro Mundial. Mas além de perder a Copa América, o Brasil era o sexto colocado [nas Eliminatórias]. O Brasil estava fora, naquele momento, da Copa do Mundo. Claro que faltava muito jogo. Mas aquilo foi a gota d’água.”

Telê Santana

Em 1991 Ricardo Rocha estava no São Paulo junto de outros seis jogadores que também foram pra Copa do Mundo de 1994: Zetti, Cafú, Ronaldão, Leonardo, Raí e Müller. Antônio Carlos era outro que poderia ter ido à Copa de 94 e que também fazia parte do São Paulo, campeão brasileiro. É impossível, no entanto, não pensar na importância de Telê Santana no tetra. Ricardo falou da transcendência do treinador: “Telê é importante para o futebol brasileiro e mundial. A gente se apega muito a 82, que perdeu, e também perdeu em 86, de ser pé frio e aquelas coisas. Não é porque eu ganhei uma Copa do Mundo que sou o maior. Não! Zico não ganhou uma Copa do Mundo e foi um jogador espetacular. Um dos maiores jogadores que vi na minha vida, com aquela geração de Sócrates, Zico, Júnior, Leandro… Os caras foram fantásticos. Só que não tiveram a sorte de ganhar uma Copa do Mundo. O Telê tinha uma parcela muito grande naquela geração [de 94]. Cafú é um deles. Raí é outro. Eu mesmo aprendi com ele. Eram muitos daquele time do São Paulo. Ele [Telê] era uma pessoa muito séria, turrão. O Parreira era mais maleável, mais amigão. Não que o Telê não fosse um amigo, mas ele tinha uma maneira de ser dele. Telê foi importante não para aquelas gerações, mas pro futebol brasileiro como um todo.”

Passagem frustrada pela Europa

Ricardo foi treinado por Telê no São Paulo, onde foi campeão brasileiro de 1991, mas antes de chegar ao São Paulo, o Xerife teve uma passagem frustrada pelo futebol português. Uma temporada curta no Sporting Clube de Portugal, que poderia significar um salto na carreira, acabou encerrada prematuramente. Ricardo Rocha contou essa breve passagem e por que escolheu o São Paulo: “Quando eu cheguei lá, no Sporting, o clube ficou com sete meses de salários atrasados. É muita coisa, você não consegue. Com dois ou três meses já é difícil. Aí chegaram algumas propostas e eu já conhecia a estrutura do São Paulo, conversava muito nas concentrações com o Careca, com o Müller, com todos. Todo mundo falava bem do clube. Então, eu me interessei pelo São Paulo. E foi uma das coisas mais acertadas que fiz na minha vida. Tenho muito orgulho de ter participado dos campeonatos que disputei. O São Paulo me ensinou muito no que diz respeito a profissionalismo. Quando eu saí do São Paulo para o Real Madrid, a estrutura do São Paulo era melhor que a do Real, que hoje é espetacular. Mas a estrutura do São Paulo era melhor. Era um exemplo pra todos os clubes brasileiros. Todo jogador queria jogar no São Paulo. Por isso digo que foi uma escolha acertadíssima.”

Volta à Europa

Tão acertada foi sua escolha que os êxitos no Tricolor Paulista acabaram lhe credenciando para jogar em um dos maiores clubes da Europa de sempre: o Real Madrid, como Ricardo contou. Sem dúvida, uma consagração. Era chegar no mais alto imaginado, já aos 29 anos: “Eu tive três propostas. Um clube da Itália, um da Alemanha e o Real Madrid. Eu escolhi o Real. Era um sonho. Eu conhecia um pouco da história. Um clube que tinha vencido várias Champions, que teve Di Stéfano, Gento… E foi um orgulho quando apareceu essa oportunidade. Eu só saí do São Paulo porque era o Real Madrid. Não sei se eu sairia do São Paulo, eu já tinha uma identidade [com o clube], tinha sido campeão brasileiro com o São Paulo. E depois veio toda aquela geração [bicampeã do mundo], porque eu pego uma antes com o Zé Teodoro, e depois já começam a surgir outros jogadores: Vitor, Elivélton… Todos garotos. Ali era a minha casa também. Eu fiquei feliz quando eu saí porque fui para um grande clube, um dos maiores do mundo. E fiquei dois anos e meio.”

No Real Madrid duelou contra o Dream Team, o Barcelona de Cruijff. O curioso é que em 1992, seu ex-clube, o São Paulo, derrotaria esse mesmo Barça por 2 a 0, na final da Taça Intercontinental, em Tóquio. Sua trajetória a partir daí é conhecida por quase todo mundo. Uma passagem pelo Santos, depois pelo Vasco — onde virou ídolo. Sua volta ao Brasil, no entanto, foi motivada pelo limite de jogadores estrangeiros no elenco Merengue. Ricardo Rocha, por ser zagueiro, acabaria sendo preterido por um jogador, de meio ou ataque, estrangeiro, no caso, Robert Prosinečki ou Ivan Zamorano. Ele percebeu, então, que sua participação na Copa do Mundo de 1994 poderia ficar comprometida com a reserva no clube espanhol.

“Eu não caio!”

Foi quando decidiu voltar ao Brasil. Após a Copa do Mundo, permaneceu no Vasco e após uma breve passagem pelo Fluminense, Ricardo recebeu uma proposta inusitada para ir jogar no futebol argentino. Um hermano no Brasil é bem mais comum que um “brazuca” em terras platinas. E detalhe, ele foi para um clube considerado grande por lá, mas como eles mesmos se intitulam ‘El Más Grande Del Interior’. Um clube da província de Santa Fé, da cidade de Rosário, a maior da província, apesar de não ser a capital. O Newell’s Old Boys divide a cidade com o Rosario Central. ‘Leprosos’ e ‘Canallas’ são os apelidos de cada um dos arquirrivais, segundo o folclore local, devido a um amistoso beneficente para combater a lepra na cidade, nos anos 1920. O Newell’s resolveu participar, mas o Central não. O clube que aceitou o convite ficou conhecido como leproso, por ter se contaminado com a enfermidade, e já o que recusou jogar, virou um canalha. Essa rivalidade é também a maior do interior argentino. E logo após sua chegada ao Newell’s Old Boys, Ricardo Rocha enfrentaria o Central no campo do rival. Uma derrota no clássico rosarino seria normal, ainda mais no Estádio El Gigante de Arroyito, mas acabou sendo um episódio que credenciaria a fama de Xerife em terras vizinhas: “Foi um jogo que o árbitro começou a expulsar os jogadores do Newell’s e estava pintando uma goleada, já estava três ou quatro pra eles, nem me recordo bem. E a gente já tinha três jogadores expulsos. Se outro fosse expulso, o juiz iria acabar o jogo. Aí veio uma pessoa e falou que o presidente [do clube] pediu pra cair pra acabar o jogo. E eu falei: eu não vou cair não! Eu falei pros jogadores pra ele [o presidente] resolver o problema da arbitragem, que tudo bem, nos roubou, nos prejudicou, mas eu não vou cair não. Se vocês quiserem, podem cair. E os outros seis jogadores que ficaram comigo no campo não caíram não, fomos até o final. Eu podia perder de 10 a 0, ia ser uma humilhação pro Newell’s, mas aquilo [cair] era uma humilhação pro futebol. Se alguém se machucar, ok, tudo bem, acabou o jogo. Agora, sacanagem, não! E graças a Deus os caras seguiram. E outra coisa, os caras do Central viram aquilo. O respeito que tivemos com o público. Claro que eles seguraram, tocavam mais a bola. Como é um clássico, você sempre quer fazer mais gols, mas ficamos ali quietinhos atrás, não tomamos gols. Perdemos de 4 a 0, é muito pra um clássico, mas aquilo foi um grande exemplo de todos. Tem um torcedor que a gente precisa respeitar. Houve um erro de arbitragem, expulsando alguns jogadores. Ninguém queria perder de 4 a 0, então, algumas pessoas foram contra. Eu pensei em mim, pensei no torcedor. Ele não vai pro estádio esperando que um árbitro vá prejudicar o outro time, mal intencionado. Até acho que foram mais erros mesmo do que má intenção. Acho que essa atitude ficou marcada. Eu não cairia.”

Estilo

Um xerife não cairia mesmo. Seu estilo condizia com sua personalidade viril. Impunha respeito lá na retaguarda. O apelido, aliás, foi criado, segundo Ricardo Rocha, por Galvão Bueno: “Eu tinha uma maneira de ser, eu gritava em campo, eu não me recordo quando, acho que foi depois da Copa de 90, e outra coisa, eu não era Ricardo Rocha. O Ricardo Gomes não era Ricardo Gomes, era Ricardo [também]. Só que quando a gente foi pra Seleção, o Galvão rapidamente começou a nos diferenciar e aí veio o apelido também”. Tinha um cabelo com mullets também, moda no final dos anos 80 e início da década de 90, e aos 50 e poucos anos, Ricardo Rocha chama a atenção pelo estilo ‘moderninho’, e como ele mesmo diz aos risos: “Totalmente fashion!”

Enquanto olha inquietantemente para o celular — segundo sua filha, o Instagram é o seu grande vício —, após a sobremesa, o assunto se debruça no estilo que adotou: “Tudo é moda, se você pegar uma foto tua de 20 anos atrás, você vai dizer ‘eu não acredito que eu era isso!’. Tudo evoluiu muito, a medicina ajuda muito. A idade vai chegando, mas você vai mudando um pouco, ajudado por esses avanços. Mas o pessoal comenta muito, ‘pô esse cara tá muito fashion, novos óculos, a maneira de se vestir.’ Sempre gostei de me vestir dentro do que era a moda do momento. Então tem umas coisas ridículas, uma foto minha de 20 anos atrás, que tu olha e pô, eu era ridículo. Até Bruno Carvalho, lateral direito que começou no Vasco, disse que queria me falar uma coisa. Falou que eu era seu ídolo, e aquele cabelo que eu tinha, o bigode, e que tinha uma foto comigo, aí foi ver num outro dia, olhou pra foto com nós dois, ele com o cabelão querendo me imitar, aí olhou e disse que aqueles dois caras eram dois ridículos! Agora, o pessoal com barba, bigode começando a voltar. Tudo se copia, calça com a boca aberta, sapato com salto alto, uma reciclagem, mas se você olhar, na moda se cria muito pouco, tudo vem dos anos 70, 60, 30… os próprios estilistas vão buscando isso. E tudo mudou muito, todo mundo pode comprar roupas hoje. Antigamente você queria ter uma roupa e não podia. Hoje você pode ir e comprar uma semelhante, numa loja mais barata de departamento. Às vezes eu mesmo olho e acho que tá muito fashion, volto, falo com a minha esposa, e ela diz que posso ir tranquilo, falo com meus filhos, e dizem que tá moderno. Recebo muitos elogios também, nas redes sociais. Teve um que achei fantástico, ele me viu na televisão e ele falou assim, tá aqui, até guardei: ‘Ricardo Rocha era um zagueiro moralizador de bigode e mullet. Hoje parece um designer de interiores!’ Achei fantástico. Recebo muitas brincadeiras, levo na boa. Às vezes falam que ‘gourmetizou’.”

Mas Ricardo deixou por último qual era o maior número de pedidos que recebia: voltar com o bigode! “Pedem muito, mas sabe o que é? A idade chega, e minha barba e meu bigode ficaram muito brancos. E eu tenho um problema sério, é foda, meu cabelo é preto, só aqui que é um pouco branco [aponta para o costeleta], e falam que eu pinto o cabelo. Não, eu não pinto, nem mexo no cabelo, mas quando eu deixo a minha barba, fica muito branca. E isso envelhece muito, e pintar o bigode não dá. Não tenho saco. Se um dia voltar o bigode, vai voltar branco.”

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

Deixe seu comentário