Carrinho de compras

Nenhum produto no carrinho.

O hiato

Os 10 anos de hibernação do futebol holandês entre a Copa do Mundo de 1978 e a Eurocopa de 1988.

Na Copa de 1978, o esquadrão neerlandês já não era o mesma que marcara época no vice-campeonato mundial de 1974. Ainda assim, a campanha que terminou em outra segunda colocação, após a derrota para a Argentina na decisão, rendia alguma honra, e sinalizava que a Laranja chegara ao grupo das equipes nacionais prestigiosas – e era para ficar. 

Pelo menos, parecia. Porque, entre o 25 de junho de 1978, em que se jogou a final da Copa do Mundo no Monumental de Núñez, em Buenos Aires, e o 25 de junho de 1988, em que ganhou seu único título de vulto (a Euro, no Estádio Olímpico de Munique), a equipe masculina dos Países Baixos viveu exatamente dez anos cheios de decepções, de esperanças frustradas – algumas, de maneira até incrível. Hora de ver o que ocorreu nesse hiato.

1978-1980: uma troca confusa de gerações

Logo após a Copa do Mundo, uma mudança foi oficializada: o auxiliar técnico Jan Zwartkruis virou o treinador principal dos Países Baixos, sucedendo o austríaco Ernst Happel – que só fora treinar a Laranja durante a mundial, aliás. Antigo comandante da seleção neerlandesa das Forças Armadas, Zwartkruis já teria de começar o trabalho no fim de 1978, com o início das eliminatórias para a Eurocopa. Ainda teria à disposição a geração que começava a envelhecer (Ruud Krol, os Van de Kerkhof, Willem van Hanegem, Arie Haan, Johnny Rep, Johan Neeskens, Rob Rensenbrink), mas poderia convocar jovens promissores – como o atacante Jan Peters, do AZ.

A Holanda começou impondo respeito, num grupo acessível na qualificação: em três jogos, três vitórias (contra Islândia, Suíça e Alemanha Oriental). Porém, quando encarava adversários mais fortes em amistosos, fraquejava. Foi assim no jogo derradeiro de 1978, quando caiu para a Alemanha Ocidental (3 a 0). Foi assim na primeira partida em 1979 (outro revés por 3 a 0, para a Itália, também num amistoso). Se os problemas fossem só em jogos amigáveis, tudo bem. Mas uma queda para a Polônia, única adversária mais forte nas eliminatórias da Euro (2 a 0, na quinta rodada), acendeu o sinal amarelo. Que quase ficou vermelho com as defecções que vinham entre velhos conhecidos: Van Hanegem, Rensenbrink e Neeskens tiveram suas últimas partidas vestindo a camisa alaranjada naquele 1979, e Arie Haan decidira deixar a seleção, sentindo-se desprestigiado por Zwartkruis – e expondo isso numa carta aberta.

Só restavam as convocações de mais novidades: o lateral direito Ben Wijnstekers, o zagueiro Michel van de Korput, o atacante Simon Tahamata (guarde este nome). Parecia insuficiente: um empate contra a Polônia, na penúltima rodada das eliminatórias da Euro – 1 a 1 –, deixava o país na segunda colocação do grupo 4. Se não vencesse a Alemanha Oriental, na última rodada, em Leipzig, em 21 de novembro de 1979, a vice-campeã mundial estaria fora do torneio continental a ser sediado na Itália.

Em 33 minutos, os germânicos do lado leste fizeram 2 a 0. Pior, muito pior: após um entrevero em campo, ainda antes do intervalo, cada equipe ficou com um homem a menos (pelos laranjas, Tshen La Ling levou o cartão vermelho; pela Alemanha Oriental, Konrad Weise). Diante daquela decepção que se delineava, Simon Tahamata chamou a responsabilidade. Logo após as expulsões, ainda no primeiro tempo, ele fez a jogada com que Frans Thijssen diminuiu o placar, para 2 a 1. Na etapa final, os Países Baixos foram à frente, carregados pelos dribles de Tahamata. Coube a um atacante sem presença em Copas do Mundo, mas recheado de respeito no futebol europeu – Kees Kist, presente na Euro 1976, Chuteira de Ouro europeia – empatar o jogo, já aos cinco minutos do segundo tempo. E, aos 25 minutos, Willy van de Kerkhof marcou o gol da virada. Graças ao “Milagre de Leipzig”, como a imprensa celebrou no dia seguinte, a seleção estava na Euro 1980.

Contudo, quando enfim chegou a hora do torneio, as pequenas fissuras vistas sob Zwartkruis ficavam maiores. Certo, Arie Haan se reconciliara com o treinador e voltara à seleção. Já os mais experientes tinham pequenos estranhamentos com os mais novos – por exemplo, entre os goleiros, o titular Piet Schrijvers (34 anos) e o reserva Willem “Pim” Doesburg (37 anos) tinham um comportamento áspero com o terceiro arqueiro convocado, Hans van Breukelen (com 24 anos). Alguns outros se perdiam com as questões das próprias carreiras: Van de Korput, por exemplo, concluiu a transferência para o Torino no aeroporto, quando embarcaria para a Itália.

Não deu outra: a seleção nacional chegou ao certame europeu sem brilho. Na estreia pela Euro, contra a Grécia, um insípido 1 a 0 (gol de pênalti de Kees Kist). No jogo seguinte, num clássico contra a Alemanha Ocidental, o placar de 3 a 2 foi enganoso: naquela que foi a primeira partida de Lothar Matthäus pela seleção germânica, Klaus Allofs roubou a cena, marcando três gols e simbolizando o domínio dos alemães. Nos últimos dez minutos, Rep e Willy van de Kerkhof até diminuíram, mas o nervosismo neerlandês impressionou negativamente.

A derrota deixava dificuldades. Mas ainda se podia chegar até a decisão: seria questão de vencer a Tchecoslováquia, e esperar que a Alemanha Ocidental tropeçasse contra a Grécia. Este tropeço veio (0 a 0), mas os Países Baixos nunca passaram perto de poder vencer os tchecos, que saíram na frente. Kist até empatou, mas a igualdade foi o ponto final do país naquela Euro. Uma campanha esquecível. Que indicava os tempos duros que estavam por vir.

1980-1982: de volta ao passado

Tão logo começou a campanha para as eliminatórias da Copa do Mundo de 1982, com boa parte dos nomes dos anos 1970 deixados de lado, vieram duas derrotas por 1 a 0, para Irlanda e Bélgica, no grupo 2. Mal visto pelos veteranos que ainda persistiam (como Ruud Krol), desprestigiado pelos mais novos, Jan Zwartkruis ficava em situação periclitante. Às pressas, ainda teve de comandar o time no mundialito da virada de ano – com a recusa da Inglaterra em participar do torneio com campeões mundiais no Uruguai, a Laranja foi convidada e viajou, ainda que sob protestos de entidades da sociedade civil, queixosas de ver a seleção ir a um país que estava sob o governo ditatorial de Juan María Bordaberry.

Em campo, Zwartkruis apostou na base do AZ, que furaria o domínio do trio Ajax-PSV-Feyenoord para ser campeão holandês em 1980/81: o zagueiro Ronald Spelbos, o meio-campo Hugo Hovenkamp, os supracitados Jan Peters e Kist. Não adiantou: duas derrotas para Uruguai e Itália, ambas por 2 a 0. E o mundialito foi o ponto final para Jan Zwartkruis, demitido da seleção tão logo a delegação retornou do Uruguai.

Após um respiro nas eliminatórias da Copa (3 a 0 no Chipre, na terceira rodada, sob o comando do interino Rob Baan), a federação holandesa ganhou algum tempo para escolher o novo técnico. A opção recaiu sobre Kees Rijvers, elogiado pelo trabalho nos oito anos (1972 a 1980) que catapultaram o PSV à posição de clube grande na Holanda e na Europa. Com uma mudança notável – trazer de volta à seleção, após três anos, o meio-campo Arnold Mühren –, Rijvers viu um primeiro jogo altamente promissor: vitória por 1 a 0 sobre o adversário mais forte no grupo 2 das eliminatórias da Copa, a França, na quarta rodada, em 25 de março de 1981.

O que não queria dizer que os problemas tinham acabado. Naquela partida de estreia, Kees Rijvers pensou em convocar… Johan Cruijff, já ausente da seleção havia quatro anos, tentando retomar a carreira após rapidíssima passagem pelo Levante, da Espanha – e até um jogo fugaz, pelo Milan, num torneio amistoso. Cruijff até topou conversar. Mas logo colocou suas condições: só aceitaria a convocação se pudesse vestir roupas da Cruijff Sport, sua marca de material esportivo, e não da Adidas, empresa patrocinadora da federação holandesa. A condição aborreceu Rijvers, que deixou a ideia do retorno de lado.

Na quinta rodada das eliminatórias, outro triunfo sobre o Chipre (1 a 0, com gol de uma aposta de Kees Rijvers – o atacante Kees van Kooten, 32 anos, do Go Ahead Eagles). Aí viriam três jogos decisivos para tentar a vaga: nas rodadas derradeiras da qualificação, seriam enfrentados justamente os adversários mais fortes – Irlanda, Bélgica e França. Contra a Irlanda, nem um ataque experiente (Johnny Rep, Ruud Geels e Van Kooten) evitou um tropeço: empate por 2 a 2, em Roterdã. Então, Kees Rijvers tentou atrair mais um veterano para voltar à Laranja. Desta vez, conseguiu: mesmo em queda física e técnica no New York Cosmos, mesmo sofrendo com a bebida naquele momento de sua vida, Johan Neeskens, 30 anos em 1981, aceitou ser convocado, para ser um nome de referência no meio-campo, nas “decisões” contra Bélgica e França.

Contra os belgas, na penúltima rodada, num time que tinha veteranos (Krol, Neeskens, Johnny Rep) a nomes mais novos que ganhavam espaço (o goleiro Van Breukelen, o zagueiro John Metgod), um triunfo promissor: 3 a 0 em Roterdã. A Holanda ia para a segunda posição do grupo 2, com nove pontos. Assim iria ao Parc des Princes, em Paris, para enfrentar a França, na última rodada, em 18 de novembro de 1981. Se vencesse, abriria quatro pontos de vantagem para os franceses, e se garantiria na Copa do Mundo de 1982.

A seleção neerlandesa suportou a pressão dos Les Bleus. Até os seis minutos do segundo tempo. Falta na entrada da área: Michel Platini foi cobrar, e Van Breukelen descobriu o seu canto, para ficar mais avançado. Foi nesse átimo de desatenção que Platini bateu: bola no ângulo, França 1 a 0. Aquele lance deu a má indicação aos Países Baixos: a Holanda ficaria de fora do mundial. Partindo para o ataque, ela deixou espaços aos franceses. Num contra-ataque, aos 35 minutos, Didier Six fez 2 a 0. A tentativa de trazer os veteranos de volta fracassara: Bélgica e França foram à Copa, e os Países Baixos amargaram o quarto lugar do grupo. Era a volta a um passado sem mundiais.

1982-1984: pareceu piada, pareceu mutreta, mas foi só azar para os jovens

No meio dos veteranos que voltaram para ajudar, pouca gente notou, mas Kees Rijvers começou a fazer o que mais gostava em sua carreira de técnico: revelar jovens jogadores. Com isso, começou indiretamente a dar espaço a nomes que acabariam com o hiato vivido pela Laranja. Um jogo simboliza isso: num amistoso contra a Suíça (que venceu por 2 a 1, em 1º de setembro de 1981), estrearam dois garotos que eram amigos de infância, no bairro de Jordaan, em Amsterdã. Um deles já era volante pelo Ajax: Frank Rijkaard, de 19 anos. O outro era atacante, no HFC Haarlem: Ruud Gullit, com a mesma idade.

Após a ausência do mundial, Kees Rijvers teve mais espaço para abrir aos novatos – muitos deles frequentando as seleções de base da Holanda. O ano de 1982 começou mal para a Laranja, com derrotas para Escócia e Inglaterra em amistosos, mas outros dois jovens entravam nas convocações para não saírem mais: os atacantes Wim Kieft, 20 anos, e Gerald Vanenburg, 18 anos. Dos nomes que evocavam os dois vices em Copas, só restavam o goleiro Schrijvers (cedendo cada vez mais espaço a Van Breukelen), Krol e Willy van de Kerkhof. 

Sim, alguns nomes de mais idade persistiram na seleção sob Rijvers, como Kees van Kooten. Mas seriam os jovens que teriam mais espaço no começo da campanha das eliminatórias para a Euro 1984, no grupo 7. Campanha que começou bem: um empate contra a Islândia (1 a 1), duas vitórias (2 a 1 na Irlanda, 6 a 0 em Malta), dando chances até a gente de brilho fugaz, como o atacante René van der Gijp, do Sparta Rotterdam.

Em 1983, a primeira dificuldade apareceu: logo em 16 de fevereiro, derrota por 1 a 0 para a Espanha, a adversária mais forte da chave de qualificação. Uma pesada queda para a Suécia, em amistoso (3 a 0), não melhorou as coisas. Ainda assim, Rijvers seguiu com algum respaldo na seleção. Teve espaço até para treinar a equipe sub-20 que disputou o mundial da categoria no mesmo ano. Eliminada pela Argentina (vice-campeã do torneio) nas quartas de final, a equipe neerlandesa teve como destaque um atacante tecnicamente promissor – Marco van Basten, de 19 anos. Ele já entrou no radar da seleção principal: estreou na quinta rodada das eliminatórias da Euro – 3 a 0 contra a Islândia, em 7 de setembro. Outros dois nomes que começaram na Laranja no mesmo ano também eram garotos, e irmãos: o zagueiro Ronald Koeman, 20 anos, e o volante Erwin Koeman, 22 anos.

A juventude tomava conta da seleção holandesa em 1983. A tal ponto que Kees Rijvers deixava de fora das convocações Ruud Krol, o jogador com mais partidas pela Laranja até então (para decepção do próprio Krol, que desejava continuar). Os resultados justificavam isso. Principalmente aquele visto em 12 de outubro de 1983, na sexta rodada das eliminatórias da Euro: contra a Irlanda, em Dublin, a Holanda saiu perdendo por 2 a 0, no primeiro tempo. Pois Gullit e Van Basten, que tanto sucesso fariam, explodiram ali: carregaram a Laranja para a virada, no segundo tempo. Dois gols do primeiro, um do segundo, Holanda 3 a 2.

De quebra, nas duas últimas rodadas da qualificação para o torneio continental, duas vitórias: 2 a 1 na Espanha, em novembro, e 5 a 0 em Malta, em 17 de dezembro. Com treze pontos, dois à frente dos espanhóis, e tranquila vantagem no saldo de gols, primeiro critério de desempate, a Holanda esperava estar na Euro 1984. Só um triunfo da Fúria por 11 gols de diferença, na última rodada, contra Malta, tiraria os Países Baixos da competição.

21 de dezembro de 1983. Naquela noite, em Amsterdã, se apresentava Freek de Jonge, popular cantor e humorista neerlandês. A certa altura de seu espetáculo, De Jonge falou aos espectadores: a Espanha ganhara de Malta por 12 a 1, e estaria na Euro 1984. A gargalhada foi generalizada: todos acharam que era mais uma piada de Freek. Não era. Enquanto todos viam o show, a Espanha, que só vencia Malta por 3 a 1 ao fim do 1º tempo, fez nove gols na etapa final em Sevilha. Chegou-se a suspeitar de que os jogadores malteses haviam facilitado o resultado: nada foi encontrado nas investigações de apostas. 

Jantando na casa de um amigo, Kees Rijvers viu ali o tamanho do azar holandês. Acontecia o quase inimaginável: a Holanda estaria fora da Euro 1984, pelo mérito da Espanha, demérito de Malta… e azar laranja.

1984-1986: faltou atenção no momento final

Quando 1984 começou, já era claro: Kees Rijvers estava sob pressão. Sob seu comando, a Holanda já ficara fora de uma Copa do Mundo e uma Eurocopa. De quebra, no começo do ano, a federação holandesa tomou uma decisão polêmica: trouxe Rinus Michels para ser o diretor técnico da entidade. Mesmo que não o fosse abertamente, era uma sombra respeitável para o trabalho de Kees Rijvers. E mesmo que o ano tivesse começado com uma goleada na Dinamarca (6 a 0, num amistoso em 14 de março), a campanha no grupo 5 das eliminatórias da Copa do Mundo deveria começar muito bem, se o treinador quisesse evitar a demissão. Não foi o que aconteceu: em 17 de outubro de 1984, a Hungria já começou ganhando em pleno De Kuip, em Roterdã (1 a 0). A pressão tinha sua gota d’água: Kees Rijvers foi demitido.

Na segunda rodada das eliminatórias, contra a Áustria, em 14 de novembro de 1984, Rinus Michels voltava a treinar a Laranja, dez anos após comandar a seleção nos sete jogos que impressionaram o mundo na Copa de 1974. Só o resultado destoou: com gol contra de Michel Valke, derrota para os austríacos – 1 a 0. De quebra, uma aposta de Michels na convocação se frustrou: iniciado na reserva, o temperamental meio-campista Mario Been ralhou ao só entrar aos 28 minutos do segundo tempo. Nunca mais foi convocado. A primeira vitória nas eliminatórias da Copa veio só na terceira rodada: 1 a 0 no Chipre, em 23 de dezembro de 1984.

A saúde impediu que Rinus Michels pudesse continuar seu trabalho: logo que 1985 começou, um grave problema cardíaco o forçou a passar por uma operação e a se licenciar do comando da seleção. Às pressas, a federação teve de achar um técnico para a Laranja. Apostou então em Leo Beenhakker, do Volendam, admirador confesso de Michels, que seguiria o trabalho nas eliminatórias. 

“Don Leo” seguiu o que Rinus vinha fazendo: intercalando a nova geração (Van Breukelen, Gullit, Van Basten) com os nomes frequentes daquele hiato (Michel Valke, Ronald Spelbos, os zagueiros Peter Boeve e Ernie Brandts – este, egresso da Copa de 1978 –, um raro veterano em Willy van de Kerkhof). Veio uma ligeira reação na quarta rodada da qualificação: 7 a 1 no Chipre, em 27 de fevereiro de 1985. Porém, enquanto a Hungria garantia a primeira colocação e a vaga direta na Copa, um empate com a Áustria (1 a 1, em Roterdã) diminuía novamente as expectativas. Se quisesse manter alguma chance de tentar lugar no mundial, via repescagem, a Holanda teria de vencer a Hungria em Budapeste, para manter a segunda posição da chave. Poucos acreditaram.

Eis que, em 14 de maio de 1985, a sorte esteve do lado laranja. Por obra e graça de um nome tão fugaz quanto talentoso: o atacante Rob de Wit, de 22 anos, do Ajax. Contra a Hungria, De Wit fazia seu segundo jogo pela seleção da Holanda. Aos 23 minutos do segundo tempo, iniciou uma sequência de dribles, que só parou com um toque sutil para o 1 a 0. Houve suspeitas de facilitação dos resultados por parte dos húngaros (que viviam momentos de polêmicas sobre corrupção no futebol). Mas a Laranja ganhava sua segunda chance: iria à repescagem por vaga na Copa de 1986. Contra a Bélgica, vizinha e rival tradicional.

No primeiro jogo, em Bruxelas, Wim Kieft cometeu um erro fatal: agrediu um adversário aos quatro minutos de jogo, e foi expulso. Com superioridade numérica, a Bélgica fez 1 a 0 e levou a vantagem para a volta, em Roterdã, no dia 20 de novembro de 1985. Mesmo com nomes como Rijkaard e Gullit em campo (e no banco, um veterano Willy van de Kerkhof), Rob de Wit quase foi o herói da vaga na Copa: se Peter Houtman abriu o placar, De Wit fez 2 a 0. O lugar no México estava garantido. Mas a cinco minutos do fim, uma desatenção defensiva em De Kuip, e o zagueiro Georges Grün fez o gol da Bélgica. A vitória podia ser holandesa, mas os belgas é que iriam ao mundial, pelo gol fora de casa. 

Mais um trauma. Por falta de atenção no momento final. Falta de atenção que causou fortes críticas de Leo Beenhakker àquela geração.

1986-1988: uma bomba ameaçou, mas o hiato acabou

Recuperado do problema no coração que o tirou dos campos em 1985, Rinus Michels pôde voltar a treinar a Holanda no ano seguinte. Em março de 1986, o destino tiraria um forte candidato a ser titular em sua equipe: grande destaque na reta final das eliminatórias da Copa, Rob de Wit sofreu um acidente vascular cerebral que inviabilizou sua carreira (De Wit sobreviveu, e ainda vive, embora com pequenas sequelas motoras, aos 57 anos). No entanto, Rinus já sabia: formaria a seleção rumo às eliminatórias da Euro 1988 com base em Frank Rijkaard, Ronald Koeman, Ruud Gullit e Marco van Basten. Todos já relativamente calejados pelos traumas das qualificações na Euro 1984 e na Copa de 1986.

Os amistosos no primeiro semestre de 1986 reduziram as expectativas: em quatro jogos, só uma vitória. Ainda assim, quando a qualificação começou, a Holanda despontou bem no grupo 5: duas vitórias (1 a 0 na Hungria, 2 a 0 no Chipre) e um empate (0 a 0 com a Polônia). Rinus Michels ia encontrando a convocação mais confiável, pouco a pouco: reintegrava Arnold Mühren, aos 37 anos, após seis anos de ausência das convocações, dava a última chance (não aproveitada) a Simon Tahamata, abria espaço para nomes como Adri van Tiggelen e Jan Wouters.

E os Países Baixos pareceram um time maduro quando 1987 começou. Duas vitórias por 2 a 0, contra Hungria e Polônia, colocaram a Laranja na rota da Euro, mesmo com um empate contra a Grécia (1 a 1). Faltava pouco para voltar a uma grande competição. Um triunfo contra o Chipre, em 28 de outubro de 1987, em Roterdã, selaria a classificação.

Todavia, ainda no primeiro tempo, quando a Holanda já vencia por 1 a 0, uma pequena bomba caseira, envolta numa casca de laranja, foi atirada em direção ao campo. O artefato caiu na área cipriota, e explodiu perto do goleiro Andris Charitou, que desmaiou. Jogo interrompido por alguns minutos, para ser retomado e terminar em goleada neerlandesa: 8 a 0. De nada adiantaria: a UEFA não só anulou o resultado, como decretou, a princípio, uma vitória do Chipre por 3 a 0. Tal punição devolvia chances de classificação à Grécia, vice-líder do grupo – e justamente a adversária holandesa na rodada final das eliminatórias da Euro.

O “bomincident” (incidente da bomba, em holandês) aumentou o temor da torcida. Assim, a federação entrou em campo, na figura do diretor de futebol da entidade à época, Jacques Hogewoning: com um recurso contra a punição, alegou que ela era injustificada, afinal, Andris Charitou nem fora atingido pelo artefato caseiro. A UEFA aceitou: transformou a sanção da derrota numa obrigação de um novo jogo contra o Chipre, a portas fechadas, em De Meer, o estádio do Ajax na época. Aí, sim, a vaga na Euro foi garantida: Holanda 4 a 0, com três gols de John Bosman, atacante que andava até acima de Van Basten (então lesionado) nas preferências de Rinus Michels para o time. De quebra, na última rodada da qualificação, nova vitória holandesa: 3 a 0 em cima da Grécia.

O hiato acabava. E o fio da meada, parado no vice-campeonato da Copa do Mundo de 1978, seria retomado em grande estilo na Eurocopa de 1988. Mas essa história já não faz parte dos tempos difíceis.