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Em terra de cego, quem tem um olho é Pelé

O Brasil tricampeão mundial foi o melhor campeão das Copas. Um time que estreou no México e só jogou junto três partidas oficiais depois de quatro meses treinando.

Ado ou Leão na meta; Carlos Alberto, Baldochi, Joel Camargo e Marco Antonio na zaga bem mexida em relação às Eliminatórias de 1969; Piazza e Gerson no meio-campo armado em um imutável — e caminhando para ser antiquado — 4-2-4; no ataque, Jairzinho, Tostão — como se imaginava que ele iria se recuperar do descolamento de retina sofrido seis meses antes —, Pelé e Edu.

No começo de março de 1970, essas eram as “Onze Feras” do treinador João Saldanha para o pontapé inicial da Copa do Mundo no México, três meses mais tarde. Mas já não eram tão feras assim como foram no escrete que foi 100% em seis partidas nas Eliminatórias, vencendo as fragilíssimas seleções de Venezuela e Colômbia e ganhando da razoável equipe do Paraguai. Quando o time-base do discutido treinador e indiscutível comentarista brasileiro encantou. Goleou. Também por falta de melhores adversários.

O time de Saldanha

Da equipe que não teve rival em 1969, Félix [Fluminense FC] já não estava entre os goleiros convocados por Saldanha em 4 de fevereiro de 1970. Assim como Djalma Dias [Santos FC] não estava entre os 22 chamados para o trabalho que começou já em 12 de fevereiro. Assim como o lateral-esquerdo santista Rildo, outro titular nas Eliminatórias. Segundo o treinador, ele só não foi chamado de novo porque o médico da Seleção [Lídio de Toledo] disse que ele “tinha um sopro no coração” e não tinha como ser convocado… No mais, era o mesmo time. O esquema, o já surrado e pouco equilibrado 4-2-4, também era igual a 1969.

Brasil 4-0 Bahia em Salvador.
Em pé: Carlos Alberto, Joel Camargo, Félix, Djalma Dias, Clodoaldo e Rildo;
agachados: Nocaute Jack, Jairzinho, Gérson, Tostão, Pelé, Edu e Mário Américo,
(Foto: Arquivo/CBF)

O desempenho? Mais inconstante que o humor de Saldanha por aquelas semanas de início de trabalho em 1970. Ainda sem Tostão, o técnico optou pelo companheiro de Cruzeiro, Dirceu Lopes, ao lado de Pelé. Não rolou entrosamento e bom futebol coletivo no amistoso em que o Brasil perdeu para a Argentina por 2 a 0, em Porto Alegre, em 4 de março. Mesmo no troco no Maracanã, no 2 a 1 brasileiro, quatro dias depois, não houve química. Pelé não estava tão bem — embora tenha feito mais um “gol de Pelé” encobrindo Cejas —, ao ponto de se discutir a majestade e o trono do Rei. Não só a titularidade [!?], também se cornetava a convocação entre os 22 para a Copa. Dirceu Lopes, um espetáculo que brilhava na constelação celeste do Cruzeiro, de amarelo não rendia o mesmo exuberante futebol.

Birra bairrista

A imprensa paulista, em bom número, não gostava do seu coleguinha João Saldanha comandando o escrete canarinho desde 1969. Ainda que gaúcho, ele era mais um titular absoluto da “cariocada” que comandava a CBD. Uma resposta à “paulistada” que havia comandando a Seleção até antes da Copa de 1966. O bairrismo que tanto atrapalhara o Brasil desde a primeira Copa em 1930 ainda era uma birra burra que murchava a bola brasileira. As rixas Rio-São Paulo do século XXI são como emojis de carinhas vermelhas bravas de casais adolescentes se comparadas às tretas entre jornalistas e até mesmo jogadores e treinadores de federações diferentes.

Torcida, então… a Argentina foi menos vaiada em Porto Alegre do que o Brasil. Jogar em qualquer parte do país parecia ser aquela parte do país contra a Seleção.

O último amistoso do escrete canarinho em 1969 foi um exemplo de que os “90 milhões em ação” do empolgante hino “Pra Frente Brasil!” de Miguel Gustavo eram 90 milhões menos os torcedores de um estado ou de um clube. O time de Saldanha perdeu para o Atlético, no Mineirão. Um gol de Dario para o dono da festa e da casa teria feito o general Emílio Garrastazu Médici — fanático gremista e flamenguista — torcer pela convocação do artilheiro atleticano. Torcer e/ou sugerir. Ou decretar mesmo, como ditador de plantão que era.

Se a frase atribuída a Saldanha, “Nem eu escalo ministério, nem o presidente escala time”, chegaria depois aos ouvidos fardados e palacianos, não se sabe. Ou não se sabe de que jeito uma provocação de um treinador comunista de carteirinha — de fato — cutucou os coturnos do presidente, no auge da repressão e da tortura nos porões da ditadura militar.

Se o governo não queria, por princípio e desde o início, um juramentado comunista comandando o Brasil no exterior, Saldanha não teria sido nem convidado por João Havelange em 1969. Tacada de mestre do presidente da CBD — e futuro presidente da Fifa a partir de 1974 — para dar mais respaldo à Seleção e, ao mesmo tempo, fechar o microfone e as tribunas do mais contundente e popular comentarista esportivo. Tão genial quanto genioso.

Não que Havelange ouvisse sempre os ditados da ditadura em Brasília. Até porque então havia uma espécie de “agência reguladora do esporte”, o CND, Conselho Nacional dos Desportos, que meio que mandava na CBD. Na burocracia estatal, o órgão estava acima dela, atrelado ao Ministério da Educação. Chefiado então pelo coronel Jarbas Passarinho, um moderado naqueles tempos de chumbo, que tinha bom diálogo com Saldanha.

Foto: Folhapress

Quem não enxergava nada era Saldanha

O treinador da Seleção era um comunicador brilhante. Inteligentíssimo. Tão bom de papo quanto de briga. Tinha arrumado encrenca, com e sem razão, com quase toda a comissão técnica e com a direção da CBD. “O maior problema do Saldanha é que ele é muito amigo dos amigos e não consegue administrar bem quando precisa agir politicamente em algumas situações”, afirmava Aymoré Moreira, então treinador da Portuguesa, campeão mundial pelo Brasil em 1962.

Muito querido pelos atletas e pela maioria da comissão técnica, o treinador, porém, não vinha se dando bem com o ortopedista que ele conhecia desde o Botafogo, em 1959, e que era médico da família do treinador. A relação fraturara na Seleção. Doutor Lídio era Honoris Causa na costura e no meio-campo com a direção da entidade, e não tinha receio em cortar asinhas e nomes da Seleção. Foi ele que, em 1º de março de 1970, cortou o centroavante Toninho Guerreiro do grupo para a Copa, ainda com Saldanha no comando. Motivo? Sinusite. Ele não se adaptaria à altitude da Cidade do México… o artilheiro do São Paulo não se conteve. Pediu abertamente para o general de plantão em Brasília que intervisse na CBD. O jogo era muito duro. Dias depois, laudos médicos apresentados pelo clube paulista constatavam que ele tinha condição de jogo “até no Himalaia”. E que já tinha jogado 27 vezes no México sem problemas de saúde.

[Scala, zagueiro do Internacional também cortado pelo afiado bisturi de Lídio, foi outro que chiaria mais tarde quando o zagueiro botafoguense Leônidas seria chamado por Zagallo: “eu saí da Seleção só para que pudessem convocar o Leônidas que estava em baixa no Botafogo”.]

A crise a respeito da miopia no olho direito de Pelé não foi um diagnóstico do ortopedista. Mas foi mais um desgaste desnecessário em que se meteu Saldanha e que o doutor Lídio não teve receita para aplacar, ou não quis remediar. Pelé realmente tinha problemas para enxergar de noite, como qualquer míope. Mas, ainda assim, enxergava mais em campo do que qualquer terráqueo, como mostrou no golaço de fora da área contra a Argentina.

Saldanha, porém, não parecia enxergar mais nada. Ou só via inimigos pela frente e no front.

João Saldanha ao lado de Walter Clarck, diretor da TV Globo à época
(Foto: Gazeta Press)

Saldanha dissolvido

A gota d’água que quase virou de sangue para a saída do treinador foi na quinta-feira, 12 de março. Irritado com duas entrevistas e com algo que teria dito Yustrich, treinador do Flamengo, a jornalistas, Saldanha fez algo que era parte do repertório dele. Quem nunca? Às 22 horas da véspera da sexta-feira 13, ele foi armado à concentração do Flamengo em São Conrado para “tirar satisfações” com o técnico rubro-negro. Apelidado de “Homão” pelo trabalho e truculência, Yustrich era desafeto histórico de Saldanha — e não apenas dele. Os dois nunca se bicaram. Como muitos treinadores viraram o bico quando foi ele o escolhido para dirigir a Seleção em 1969.

Daí, há uma distância entre democracia e ditadura para justificar que um treinador de Seleção invada a concentração do Flamengo, empurre o porteiro José, converse rispidamente com o goleiro Adão, discuta com o cozinheiro Oliveira, e diga, na coluna que desde fevereiro Saldanha tinha no jornal O Globo, que ali estava apenas para dialogar com um colega de trabalho…

“Meu filho João, de 10 anos, no colo do meu irmão, ouviu o pai ser chamado no rádio (por Yustrich) de covarde, imbecil e outro palavrão impublicável. Estou há seis meses sendo atacado por ele”, falou para quem ainda o quisesse ouvir.

Imagine Tite chegando armado ao Ninho do Urubu para conversar com Jorge Jesus?

Por sorte, o “Homão” não estava na Gávea. Ou deixou de estar quando soube que Saldanha chegara às dez da noite para trocar umas ideias, ou fazer uma “visita cordial” como defendeu no jornal o João Sem Medo.

[Na véspera, como se não bastasse, ele havia dito que não tinha como o futebol carioca ser dirigido por um homem que usava ceroulas como o presidente Otávio Pinto Guimarães.]

A invasão na concentração rubro-negra da rua Jaime Silvado, número 7, só virou notícia no sábado. Quando a Seleção fez jogo-treino em Moça Bonita. Medíocre atuação no empate por um gol. Saldanha minimizava o episódio com Yustrich. Garantiu ter ouvido do presidente da CBD: “morro contigo” em relação aos desdobramentos do caso e da crise.

Ele realmente se sentiu respaldado pelo chefe. O treinador disse não poucas vezes que, se ele não fosse um marido fiel a Teresa, casaria com Havelange por tudo que ele dissera ali, e também por uma entrevista que ouvira dele ao radialista Gilson Amado.

No começo da noite de segunda-feira, Havelange começava a mudar o discurso. Ou mantinha a prática histórica. André Richer, presidente do Flamengo, anunciou à imprensa que no dia seguinte prestaria queixa-crime contra o treinador da Seleção, “já que ninguém da CBD se manifestou” a respeito da invasão de Saldanha.

O diretor de futebol da CBD colocou o cargo à disposição — pela enésima vez. Antonio do Passo passou a bola para Havelange. Saldanha dava de ombros e falava para a imprensa e os atletas: “não me demito. Ou me mandam embora ou eu não saio. Peguei esse barco e vou até o fim. Não sou o PSD mineiro”.

No dia seguinte, ele chegou às 11 horas à Casa de Retiros Padre Anchieta, concentração da Seleção no Rio. Disse aos jornalistas que não acreditava em mais um pedido de demissão. Reiterou que confiava no caráter e na retidão do presidente da comissão técnica. Confirmou treino às 15h30 no Itanhangá Golf Club, e a reunião extraordinária na sede da CBD, na rua da Alfândega, centro do Rio, para 19h30.

Saldanha colocou paletó e gravata, pegou seu Fusca e chegou para o encontro no oitavo andar do edifício da entidade. Saiu de lá às 20h30. Disse que recusou o aperto de mão de despedida de Antonio do Passo e de Havelange. O vice-presidente da CBD desceu então para o quinto andar, onde ficavam os jornalistas. Sylvio Pacheco anunciou que toda a comissão técnica estava demitida. Quem iria formar a nova seria Antonio do Passo. “Mas ele não tinha se demitido?”, perguntou um repórter. O vice da CBD não soube responder.

Só disse que o preparador físico Admildo Chirol daria o treino na quarta-feira. “Mas ele também não foi demitido?”. Pacheco não soube dizer.

João Havelange não quis falar de Saldanha. Ao jornal O Globo, minutos depois, afirmou que “nem na natação, que é o meu esporte, eu defino o nome do técnico. Quem vai definir agora é o Passo”.

No almoço, horas antes naquela terça-feira, no Centro de Esportes da Marinha, mesmo com Saldanha ainda treinador da CBD, Havelange disse aos presentes que tinha outros cinco nomes para comandar a Seleção: Dino Sani [campeão do mundo em 1958, fazendo bom trabalho no Corinthians], Oto Glória [terceiro lugar por Portugal em 1966, tinha chegado ao América do Rio havia menos de uma semana após passar 12 anos fora do Brasil], Zagallo [bicampeão mundial e ótimo trabalho no Botafogo], Zezé Moreira [treinador na Copa de 1954, disciplinador] e Paulo Amaral [preparador físico bicampeão mundial, também disciplinador].

A cabeça de Saldanha estava servida no almoço com a Marinha. Logo depois, às 14 horas, na 15ª Delegacia Distrital, os advogados do Flamengo entraram com alarde com a queixa-crime contra Saldanha.

Havelange ao menos isso deixou claro ao treinador. Não era só o futebol da Seleção e os desgastes com o doutor Lídio. Problemas extracampo também o levaram a “dissolver a comissão técnica”. Cinco dias depois da invasão da concentração do Flamengo, três dias depois do horrível jogo-treino com o Bangu, João Saldanha foi demitido pela CBD.

“Não sou sorvete para ser dissolvido”, disse saindo da sede da entidade. E só foi realmente tirado da receita da sobremesa a cereja do bolo: ele.

“Eu até sei por que eu fui demitido. Eu só não consigo entender por que motivos eles me contrataram ano passado”
— João Saldanha

Só Saldanha caiu. O supervisor Adolpho Milman, o Russo, saiu em solidariedade ao amigo. Todos os “dissolvidos” continuaram na receita preparada por Antonio do Passo. Quem realmente mandava ali dentro. Quem conhecia de futebol. Bem mais do que Havelange, nadador e jogador de polo aquático.

Saldanha saiu atirando como quisera ter entrado na concentração do Flamengo. Ainda antes de voltar ao Fusca, disse aos jornalistas que a queda se deveu à “falta de pujança do futebol brasileiro e à covardia [da cúpula da CBD]”. Chegando à redação d’O Globo para escrever a sua coluna [em que só falou mal dos dirigentes do Flamengo], comentou com os colegas mais motivos para a sua queda.

“O Crioulo está mal fisicamente e precisa descansar. O Pelé jogou 18 vezes e todas no vinagre. À noite o Negão não enxerga nada. O olho que me preocupa não é do Tostão, mas o do Pelé”

“O Crioulo está mal fisicamente e precisa descansar. O Pelé jogou 18 vezes e todas no vinagre. À noite o Negão não enxerga nada. O olho que me preocupa não é do Tostão, mas o do Pelé”. Saldanha disse que mesmo assim não discutia os nomes que tinha escolhido para o grupo. Entendia que todos estariam bem até a Copa. Reafirmou que não tinha problemas com a comissão técnica. Exceto o doutor Lídio. Insinuou que havia uma pressão absurda para botar o Dario na Seleção. Por isso Lídio tinha cortado Toninho por sinusite. Só para agradar Antonio do Passo que queria Dario. Ou queriam que ele quisesse…

Quem? Havelange? Médici?

“O Brasil vai jogar com todos os europeus fechadinhos lá atrás. A gente precisa de gente que bote a bola no chão. Esse não é o jogo do Dario”, comentou Saldanha.

Mas, para ele, e para sempre para ele, o que pesou mais para a sua saída foi quando definiu o time que jogaria um amistoso contra o Chile no domingo seguinte no Morumbi; “Leão; Carlos Alberto, Brito, Joel e Marco Antonio; Piazza e Gerson; e, lá na frente, Jair, Dirceu Lopes, Tostão e Edu”.

Sem Pelé.

“O Passo dizia que não podia tirar nunca o Negão. Que tem o dinheiro dos patrocinadores, o público… já falei: eu prefiro sair de pires e realejo na mão pra arrumar dinheiro do que depender de patrocinador pra Seleção”. Na TV Globo, foi mais direto: “Pelé é o jeito que a CBD usa para tirar dinheiro dos banqueiros”.

Saldanha também entendia que atrapalhava muito outros negócios da entidade. Que as traves do campo de treino em Itanhangá custaram três vezes mais do que o preço normal. As diárias no México seriam caríssimas, além do necessário. O material esportivo estrangeiro era muito melhor que o brasileiro e ele não entendia por que tinha gente no país que preferia usar chuteiras que pesavam o dobro e caneleiras cinco vezes mais pesadas.

Na sua briga com Lídio, Saldanha diria depois que tinha um informante na comissão técnica de um jornal [Jornal do Brasil] e que ele soube do corte do zagueiro Scala [Internacional] e do Toninho pelo JB.

“Eu até sei por que eu fui demitido. Eu só não consigo entender por que motivos eles me contrataram ano passado”.

Zagallo

O ex-demissionário Antonio do Passo telefonou ainda para a sede da CBD para falar com Dino Sani, que estava em São Paulo. Na quarta-feira pela manhã eles conversaram no Rio de Janeiro. Além dos predicados já externados por Havelange, o ex-volante era nome que agradava ao “Trio de Ferro” no qual atuara, mais ainda ao Corinthians, onde trabalhava, e também à cúpula da Federação Paulista. Mas o ex-meio-campista do Boca Juniors e do Milan, Dino, já tinha se acertado com Saldanha: ele seria observador técnico dele durante a Copa. Ele se sentia desconfortável para ser substituto de Saldanha. Além disso, Dino pediu plenos poderes a Passo. Não aceitaria um supervisor acima dele, como pretendia a CBD.

Não deu jogo. Dino voltou para São Paulo e pousou em Congonhas às 16h30. Meia hora antes da chegada do Opala de Admildo Chirol no campo de Itanhangá, com Antonio do Passo como carona. Enquanto Dino voltava de ponte aérea, o médico e o presidente da comissão técnica que não fora tão “dissolvida” assim acertaram com Zagallo, que estava discutindo novo contrato com o Botafogo.

Quando desceram do Opala em Itanhangá, Passo foi em direção aos jornalistas e não esperou a pergunta deles: “Zagallo. Zagallo é o novo treinador”.

O então jovem Lobo já foi apresentado naquela mesma noite de quarta-feira para o grupo. Foi aplaudido e abraçado pelos novos comandados, que também lamentavam a saída de Saldanha. “Ele é muito inteligente. Só deixou amigos aqui. Ficamos chateados com a saída dele”. Palavras reais do Rei Pelé. Tostão, anos depois, sintetizaria o ex-comandante: “Saldanha era corajoso, inteligente, visionário e diferente. Às vezes, viajava, fantasiava a realidade. Isso é necessário. Há pessoas demais no mundo excessivamente operatórias, padronizadas e normais”.

Zagallo chegou já trazendo mais três nomes para o grupo: um terceiro goleiro que já vinha com status de titular pela experiência e pela ótima campanha nas Eliminatórias: Félix. E dois centroavantes, ou “pontas-de-lança”, como preferia chamar Zagallo: Roberto Miranda, seu atleta no Botafogo, e… Dario.

O centroavante predileto de Médici. O artilheiro do Galo. Um sujeito maravilhoso. Engraçadíssimo. Baita artilheiro. O que diz que “não existe gol feio; feio é não fazer gol”. A figura querida que meses antes havia sido “convocada” para a Seleção pelos companheiros de Atlético: eles forjaram um telegrama como se fosse da CBD o chamando para a Seleção, só para tirar sarro de Dario — além de uma grana pelo chope para todos para celebrar a “convocação” de araque.

Dario não acreditou quando recebeu o chamado — agora oficial. Estava em São José dos Campos com o Atlético. Quando chegou à concentração no Retiro dos Padres, foi alojado no quarto 38, que era usado por Saldanha.

Prova dos 9

Todos os candidatos preteridos para substituir Saldanha também entendiam que faltava pelo menos um centroavante desde o corte de Toninho Guerreiro. Oto Glória disse que o elenco tinha “muitos pés de seda” e nenhum camisa 9 para aguentar o tranco do “futebol-força” europeu. Dino Sani também achava que faltava um centroavante entre os 22. Zezé Moreira, Vicente Feola, campeão em 1958, e Aymoré Moreira, campeão em 1962, concordavam.

Oto Glória ia além. “Além de um centroavante, o time precisa de Rivellino para armar. Mas ele e Pelé não podem jogar juntos. Como um treinador não pode armar um time em função de um só jogador, entendo que hoje Rivellino é mais necessário para a Seleção do que Pelé”.

Zagallo não só trouxe um goleiro e dois centroavantes como já havia antecipado. Chamou no dia seguinte o zagueiro Leônidas, do Botafogo [que, segundo Saldanha, doutor Lídio recomendara antes não ser convocado], e o ponta-esquerda Arilson [Flamengo]. De características semelhantes à de Paulo César Caju, mas muito menos talentoso, ele sabia recuar e armar o jogo. Ao ser chamado de modo surpreendente, também conseguiu reduzir a pena de um ano de suspensão por agredir um bandeirinha em dezembro de 1969.

Formiguinhas vs feras

A Formiguinha de 1958 e 1962 dizia que aprendera com Vicente Feola na conquista na Suécia que, numa seleção, é necessário respeitar as características dos atletas. Sem improvisar. Sem inventar… [Ainda que o time que tenha dado a volta olímpica no Estádio Azteca em 21 de junho tivesse ao menos duas improvisações.]

Zagallo começou a trabalhar na quinta-feira para armar o time para a estreia no Morumbi, no domingo. Não só saía Saldanha. Também era aposentado o 4-2-4. “Estou 10 anos à frente dessa gente. Eu já jogava como ponta-esquerda recuado no 4-3-3. Não tem como jogar Copa do Mundo no 4-2-4”.

A Seleção que Zagallo escalou para o debut era a quase a mesma que Saldanha anunciara antes de ser demitido: a zaga foi igual. No meio, Clodoaldo entrou no lugar de Piazza, Gerson ganhou um pouco mais de liberdade, e Paulo César Caju (substituindo Edu) fez o terceiro homem pela esquerda sem a bola. No 4-3-3 idêntico aos três anos em que Zagallo o comandava no Botafogo; na frente, Jair, Pelé voltando um pouco mais, e Roberto Miranda no lugar de Dirceu Lopes, como centroavante mesmo.

Zagallo conhecia muito bem seu camisa 9. Até quatro dias antes da estreia ele era seu atacante no Botafogo, ao lado de Jair e Paulo César. E, até 1969, também Gerson, que foi negociado com o São Paulo.

Era um Brasil diferente. E foi mesmo no Morumbi, facilitado no amistoso contra um Chile desfalcado de seus melhores jogadores, e que ficou com 10 atletas com 4 minutos. A Seleção fez 5 a 0 sem dificuldades. A não ser para Paulo César Caju, vaiado o jogo inteiro por substituir o santista Edu.

Incompatíveis taticamente

Zagallo esperava o retorno ao gramado de Tostão depois de seis meses parado pelo problema no olho. Mas, na cabeça do treinador, o artilheiro do Brasil nas Eliminatórias com impressionantes 10 gols em seis jogos retornaria como opção a Pelé. “Eles são incompatíveis taticamente. Pelé e Tostão saem muito da área. Meu esquema de jogo pede alguém lá dentro. Eles já jogaram juntos nas Eliminatórias e foram muito bem. Mas a Copa é outra coisa. Preciso de um ponta-de-lança na frente, como foi o Vavá em 1958 e 1962. No futebol hoje não tem mais espaços para as tabelinhas. Quero gente na área para aproveitar os cruzamentos”.

Nada parecia convencer Zagallo do contrário. Nem o fato de que Tostão já estava atuando mais à frente desde 1969, também no Cruzeiro, quando o meio-campista Zé Carlos assumira um lugar na equipe mineira — e que também o levou à própria Seleção, convocado em fevereiro por Saldanha. Jogando ao lado de Piazza, Zé Carlos liberava Dirceu Lopes para avançar mais, encostando mais à frente no próprio Tostão, quase como um centroavante.

Três dias antes de Dario estrear marcando dois gols no amistoso contra a Seleção Mineira [a melhor atuação do Brasil sob nova direção], Zagallo insistia na tese com mais veemência: “é impossível escalar Tostão e Pelé juntos”.

O treinador não abria campo para especulação na frente. Mesmo com o fato de Tostão, ao lado do também reserva Rivellino, ser quem melhor treinava junto com Clodoaldo. Zagallo tinha algumas questões em aberto: embora tivesse chamado Félix para ser titular, ainda testava Ado e Leão. Clodoaldo ameaçava a titularidade de Piazza [ex-capitão de Saldanha]. Dario vinha realmente bem e brigava com Roberto pelo comando de ataque. Paulo César Caju não estava legal, e havia sentido as vaias na goleada contra o Chile em São Paulo. Rivellino encantava fazendo a função inédita mais aberta pela esquerda. Mas ele mesmo encerrava o assunto: “em um mês não vou conseguir ser ponta-esquerda”. Ainda que não fosse realmente preciso.

Um dia depois dos gols de Dario, antes da volta de Tostão, a briga pela titularidade do Mineirinho de Ouro chegava ao próprio grupo. O Papagaio Gerson honrava o nome: “O Tostão tem que jogar nesse time. Com um olho só ele enxerga mais do que a maioria com os dois”.

Tostão de prosa

Zagallo enfim pôde escalar o craque do Cruzeiro, em 26 de abril, no Morumbi. O descolamento da retina ainda preocupava. Mas Tostão tinha condição de jogo. Podia ser o camisa 9 do Brasil como brilhara nas Eliminatórias. Mas ganhou a 10 para o amistoso contra o time sub-23 da Bulgária. Pelé ficou com a 13, no banco, 13 anos depois de sempre jogar com a 10. O histórico número da sorte de Zagallo ficou ao lado do treinador no pavoroso primeiro tempo da Seleção. Sem Pelé e sem Brasil. O que seria a senha para a histérica vaia que corroeu o Morumbi. Paulo César foi vaiado e xingado impiedosamente desde que teve o nome anunciado no estádio. Foi a maior vaia da história do estádio.

A atuação brasileira também mereceu as críticas. O medíocre empate sem gols contra um catado búlgaro, que havia chegado a São Paulo às 3 horas da madrugada daquele domingo.

PC chorou muito no vestiário. Saldanha reiterou, comentando pela Rádio Globo, que a presença dele por dentro, no meio, e não na ponta-esquerda, fazia de Caju “um Fusca quebrado às 18h30 na avenida Rio Branco. Congestiona tudo!”.

Ricardo Serran, n’O Globo, dizia que Zagallo havia “piorado o que já estava ruim” com Saldanha. “Somente um milagre evitará que o Brasil volte a toque de caixa de Guadalajara”. Isto é, só os deuses da bola evitariam a desclassificação no difícil grupo com a campeã mundial Inglaterra e as boas seleções de Tchecoslováquia e Romênia.

Pelé entrou depois do intervalo. Mas no lugar de Tostão, que não tinha mesmo como aguentar 90 minutos. Nem o torcedor aguentaria aqueles 90 minutos. O Brasil melhorou um pouco. Mas ficou no zero no placar e na nota da atuação.

“O time do povo”

A pressão contra o pobre futebol da Seleção cresceu. Em São Paulo, no Rio e em todo o Brasil. Ainda que a pesquisa do Gallup apontasse a Seleção como favorita para o tri para 85% dos brasileiros, o chute era mais torcida do que confiança.

A pressão agora não era apenas por Tostão com Pelé, como insistia Saldanha em suas tribunas. Também Rivellino se pedia no lugar de Paulo César. “O problema do Zagallo é que ele não tem hoje o Zagallo que eu tinha em 1958 para fazer essa função pela esquerda”, comentou Vicente Feola. Zagallo seguia teimoso, como precisa ser muitas vezes um treinador de Seleção: “não vai dar certo Pelé, Tostão e Rivellino juntos na equipe”.

No dia seguinte, último amistoso antes de o Brasil partir para o México para ser a primeira das 16 seleções a se preparar e aclimatar para a altitude da capital, Zagallo surpreendeu e escalou o time que muitos pediam: Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza — pela primeira vez como zagueiro — e Marco Antonio; Clodoaldo e Gerson; Rogério — para ser testado após recuperação de sua lesão muscular, com Jairzinho entrando no segundo tempo —, Pelé e Rivellino; Tostão.

Mais futebol, bem menos vaias, 1 a 0 na Áustria, no Maracanã. Gol de Rivellino. Não foi uma grande atuação. Mas foi a primeira do time com “quem não daria certo juntos” [Tostão, Pelé e Rivellino], e com a dupla “incompatível taticamente” [Pelé e Tostão].

No vestiário, quase sempre acuado pela imprensa, Zagallo insinuou a resposta-desculpa: “esse não é o meu time. É o time do povo”.

Um mês e o time

Os 122 dias de preparação ajudaram a montar um time bem diferente daquele que não vinha funcionando com Saldanha e que realmente só engrenaria com Zagallo na estreia na Copa, na virada de 4 a 1 sobre a Tchecoslováquia.

O Brasil chegou primeiro ao México e foi o último a deixar o país, como previra Zagallo no desembarque. A preparação física foi notável. O Brasil voou em campo em todos os jogos, e ainda mais na altitude da Cidade do México contra a Itália [que vinha de desgastante prorrogação na semifinal vencida contra a Alemanha por 4 a 3, e com metade do elenco abatido pelo Mal de Montezuma, que debilita fisicamente até atletas].

O time de Zagallo

Méritos brasileiros e também de Zagallo, que driblou as suas próprias convicções. Ouvindo bastante os atletas — diferentemente do que faria na Copa de 1974. No dia seguinte à vitória sobre a Áustria, Pelé, — o novo capitão — Carlos Alberto e Gerson conversaram com o treinador e pediram para que fosse mantida aquela ideia de time, com Piazza na zaga, Rivellino pela esquerda — ou até pela direita, como jogou no segunda tempo contra a Áustria —, Tostão mais à frente, Pelé mais atrás. Mas juntos.

“Com esse time a gente ganha a Copa”, confiava Gerson. Zagallo foi se convencendo. Antes mesmo dos 3 a 0 contra o Deportivo Guadalajara, primeiro amistoso no México, garantiu que Rivellino era o novo titular no lugar de Paulo César Caju, que sentira muito todas as vaias. “O Rivellino aprendeu a compor o meio-campo sem a bola, e é arma poderosa chutando de fora da área com aquela canhota”.

Zagallo ainda não descartava totalmente PC. Ainda mais se o jogo estivesse complicado: “quando for para atacar, tiro o Clodoaldo, seguro mais o Gerson, boto o Paulo César na meia direita, e abro o Edu na ponta-esquerda”.

Nos 5 a 2 contra o León, já com Jairzinho de vez na ponta-direita em decorrência da lesão e do corte de Rogério, Tostão fez um gol e enfim ganhou o lugar que estava entre ele e Roberto. “Ele é insubstituível. Ele me convenceu”, disse Zagallo.

No terceiro e último amistoso antes da Copa — 3 a 0 no Irapuato —, Gerson foi poupado. Paulo César voltou ao time. Mas a base já estava definida. Embora, mais uma vez, Pelé, Carlos Alberto e o próprio Gerson ainda tivessem um último pedido a Zagallo: deixar a equipe mais equilibrada defensivamente, escalando Everaldo na lateral-esquerda no lugar do ofensivo Marco Antonio. Um bom modo de também liberar o capita Carlos Alberto mais vezes pela direita, em parceria com Jairzinho.

Zagallo gostou da ideia. E teria mesmo de adotá-la quando, a dois dias da estreia, uma lesão muscular na virilha esquerda tirou Marco Antonio do time e botou Everaldo na história com a equipe antológica que só fez a primeira partida junta na estreia.

O Brasil ganharia todos os seis jogos da Copa. Começaria o primeiro amistoso depois do tri contra o México, e nunca mais os onze iniciais — e finais — da Copa de 1970 jogariam juntos, também pela aposentadoria de Pelé da Seleção em 1971:

Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gerson; Jairzinho, Pelé e Rivellino; Tostão, só jogaram juntos quatro vezes. E ninguém jogou mais do que eles desde a Copa de 1930.

4-2-3-1

O “proto-4-2-3-1” do Brasil de 1970 é o mesmo esquema do Flamengo que seria multicampeão de 1981/82 com Carpegiani no banco, e o mesmo do Brasil de Telê Santana em 1982. Não era assim escalado, apresentado e entendido em 1970. Mas era mesmo um time com dois homens no meio [Clodoaldo mais fixo e Gerson saindo mais]; Jairzinho fabuloso como Furacão mais agudo pela direita, numa linha de três armadores “torta”, com Pelé atrás do centroavante Tostão [quando a bola era brasileira], Rivellino pela esquerda mais próximo dos dois meio-campistas; na frente, Tostão como pivô abrindo espaço e recompondo no lugar de Pelé sem a bola.

Um time completamente diferente do 4-2-4 de Saldanha. O goleiro era outro. Fora Carlos Alberto, toda a zaga diferente. Piazza era titular, mas como volante, com Clodoaldo no banco. Gerson tinha funções parecidas. Jairzinho era um ponta-direita aberto, e praticamente sem espaço para sair do flanco. Tostão e Pelé jogavam lado a lado, quase sempre, e não Pelé mais atrás de Tostão como no time de Zagallo. Edu era o ponta-esquerda colado na lateral, dando amplitude ao time. Não necessariamente o melhor futebol que o mundo já viu de uma Seleção em Copas do Mundo.

“O Brasil de 1970 foi melhor que o de 1958”, diz Pelé, o único que jogou nas duas seleções. Não só pela notável escalação de cinco camisas 10 em seus clubes, no fino da bola e no apuro do preparo físico, depois de extensos quatro meses de preparação de um senhor elenco que, treinando junto, só podia dar no que deu. E ninguém, até a estreia, imaginava que daria liga e traria a taça Jules Rimet em definitivo.

Ninguém?

Zagallo sempre foi otimista, mesmo que a própria equipe fosse outra. Mas ninguém acreditava mais no futuro e na eternidade daquele time do que Gerson. O Canhota, que ajudou a acertar o time, seria essencial como a própria mudança tática criada por ele contra o Uruguai, na semifinal, quando liberou Clodoaldo no meio para empatar o clássico, ficando ele na cabeça da área. Gerson, assim que chegou ao México, previa não só o tri, mas o próprio futuro: “quando eu parar de jogar futebol, vou virar comentarista. Pra provar que esses caras que estão aí não manjam nada de bola”.

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