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A outra revolução laranja

O Shakhtar e a política ucraniana

Entre 2004 e 2005, um movimento político de oposição ganhou fama na Ucrânia com o nome de Revolução Laranja. Estudantes acampavam em Kiev, protestando diariamente contra uma suposta fraude eleitoral e interferência russa, além de esquemas de corrupção. As eleições deram a vitória a Víktor Yanukóvytch, candidato do Partido Azul. A oposição batizou as manifestações como Revolução Laranja, já que a cor foi usada pelo perdedor Viktor Yushchenko na campanha eleitoral de 2004.

É nesse contexto que começa o documentário “The Other Chelsea” [O Outro Chelsea, em tradução livre], de Jakob Preuss. A alusão ao clube inglês se dá pelo investimento feito por Roman Abramovich, um “herdeiro” de negócios bilionários que resolveu investir no futebol como um hobby. Foram dez anos de investimentos e prejuízos sempre compensados com novos aportes até que o clube londrino conseguisse um título europeu e, ao mesmo tempo, fechasse uma temporada no azul. O Shakhtar também teve seu patrono, que injetou um enorme capital no clube sem esperar resultado financeiro, mas sim esportivo — e político.

Jakob Preuss conta na edição #4 da revista Panenka que não pretendia fazer um documentário sobre futebol, mas ele viu que existia uma relação direta entre a oligarquia econômica e a política a partir do Shakhtar. Ele percebeu isso quando viajou a Donetsk em 2004, para observar as eleições daquele ano, e viu a importância do Shakhtar neste contexto.

“Shakhtar” quer dizer minerador e a cidade de Donetsk tem sua economia baseada na mineração de carvão e em indústrias metalúrgicas, por isso o nome do time.

Jakob mostra a vida de dois torcedores do Shakhtar: Sasha, um minerador de mais de sessenta anos de idade, e Kolya, apelido de Nikolai Levchenko, que era o secretário do conselho municipal de Donetsk desde 2004.

Kolya, um mini oligarca

Kolya chama de “Golpe Laranja” a revolução que tomou a capital. Ele era do Partido das Regiões, mas que durante o período eleitoral se chamava Partido Azul. No documentário, Jakob pediu que Kolya explicasse um mapa que indicava vitória do Partido Azul no leste ucraniano. Kolya fala da liberdade para que o russo seja uma língua falada e ensinada na região de Donbass, onde o Partido Azul chegou a ter 95% dos votos e é majoritariamente russófona.

Sem conseguir acesso para falar com Rinat Akhmetov — um bilionário que investiu, até aquela época, mais de € 1,5 bilhão no clube de Donetsk —, Jakob Preuss explorou as entrelinhas do discurso de Kolya para ilustrar a figura do oligarca e deputado, o dono do Shakhtar.

“Akhmetov é mais do que um homem de negócios. Ele é mais do que um político. Ele é parte de um fenômeno de pessoas que assumem muitas responsabilidades e, com isso, adquirem muito poder”, disse Kolya, em seu carro, a Jakob, quando iam para um jogo do Shakhtar.

O papel que Akhmetov desempenhava na região de Donbass era exatamente o que Jakob buscava. Um deputado com uma holding gigante e um clube de futebol em seu portfólio, ou seja, uma combinação perfeita para uma influência política e econômica no país. Só que um detalhe da estrutura política no país ficou explícito em uma fala de Kolya: “Aqui, quando você é da oposição, teme o judiciário. Na sua Europa [ocidental], o judiciário protege tanto o governo quanto a oposição. Na Ucrânia, só protegem quem está no poder. Se você perde as eleições, você vai preso.”

Perguntado sobre temer algum tipo de perseguição caso deixe de estar no governo, Kolya revela: “Não tenho medo, porque sei que se alguém tenta nos prejudicar, não importa quanto tempo dure, eles serão punidos. Isso nos protege e nos dá uma sensação de segurança.”

Campo minado

Jakob narra que Kolya tentou se explicar posteriormente, antes de entrar no estádio, dizendo que se referia a algum tipo de perseguição criminosa. Mas não convenceu o documentarista, que até tentou ir ao camarote de Akhmetov no antigo estádio do clube, sem sucesso. Ele acredita que tenha a ver com o que aconteceu em 1995, quando uma bomba explodiu próxima ao antecessor e mentor de Akhmetov: Akhat Bragin. Diz a lenda que os restos mortais de Bragin só foram identificados graças ao seu relógio Rolex.

Em Donetsk, diz-se que muitos megaempresários tiveram fins trágicos durante os anos 1990. Akhmetov escapou desse atentado contra Bragin por ter se atrasado: ele ficou preso no trânsito e esse milagre gerou rumores na cidade a seu respeito. Mas ele continuou o trabalho de seu mal-aventurado antecessor.

Na mesma época em que a mina de carvão estatal — onde Sasha trabalhava — entrava em processo de privatização, e que se construía a pomposa Donbass Arena para a disputa da Eurocopa de 2012, o país atravessava uma grave crise econômica mas, como sempre, a crise era para a maioria da população , enquanto alguns empresários estavam interessados em privatizar minas de carvão ou construir megaestádios.

O documentário mostra a trajetória do Shakhtar na Copa da UEFA 2008/09. Após eliminar o Tottenham, os Mineradores chegavam às oitavas-de-final da competição com um time recheado de brasileiros.

Esses atletas viriam a jogar por grandes clubes europeus, como Willian, que migrou para o Chelsea — após uma breve passagem pelo Anzhi da Rússia —, Fernandinho, que acabou indo para o Manchester City, e Luiz Adriano, que teve uma passagem não muito exitosa num decadente Milan e depois foi para o Spartak de Moscou.

Por falar em Moscou, o Shakhtar enfrentaria justamente o CSKA nas oitavas-de-final da Copa da UEFA. Sasha viajou 17 horas de ônibus até Moscou. Nos tempos de União Soviética, ele estava acostumado a viajar sem nenhum controle nas fronteiras. Agora, precisava de um passaporte. Ele temia que, caso os Laranjas chegassem ao poder, ficasse impedido de entrar na Rússia, precisando de um visto, já que o Partido Laranja estava alinhado com os interesses europeus. A Ucrânia depende do gás produzido pela Rússia, mas também negocia acordos com a União Européia, o que deixa o país dividido entre interesses antagônicos e no meio de uma zona de influência política delicada.

Jakob relata que, entre as pessoas de Donbass, existe um sentimento de que Moscou ainda é a capital deles, e não Kiev. Em 11 de março de 2009, o Shakhtar visitaria o CSKA: era a primeira vez que os clubes se enfrentavam desde a dissolução da URSS. O jogo acabou em 1 a 0 para os russos, com gol de Vagner Love.

No jogo de volta, um narrador de TV diz que Akhmetov esperava que seus jogadores dessem a vida em campo naquela disputa — “metaforicamente”, agregou o radialista. O Shakhtar venceu por 2 a 0 e avançou para as quartas-de-final da Copa da UEFA.

Em seu escritório de secretário do conselho municipal, em Donetsk, Kolya Levchenko conta com naturalidade sobre as construções de condomínios nos subúrbios locais. Ele explica que a sua campanha foi financiada pela empresa que tem junto a outros sócios e, então, começaram as construções em terrenos fora da cidade. O curioso é que o pai de Kolya, advogado e empresário, tenta disfarçar na seqüência, dizendo que seu filho não podia fazer negócios, pois era proibido, já que ocupava um posto público e defendia interesses do Estado. Ele diz que coordenava os negócios da família e falou sobre suas atividades no ramo imobiliário.

Mais adiante, Jakob pergunta a Kolya como ele fazia, já que não estava claro como ele podia atuar no setor privado e no governo ao mesmo tempo. Kolya diz que tinha vendido sua participação na empresa, pois não podia se dedicar a ela, e que o setor de construções é crucial para a cidade. Ele afirma que, caso faça algum negócio, é sempre fora da cidade de Donetsk, justamente para não se aproveitar de sua posição para obter benefícios. Levchenko diz tudo com a mesma seriedade com que disse exatamente o contrário antes.

Pela Copa da UEFA, chegou a vez de enfrentar o Olympique de Marseille pelas quartas-de-final, em Donetsk. Os ingressos estavam esgotados, diferentemente do que acontecia no campeonato ucraniano, como mostra o documentário. Era o estágio mais avançado de uma competição européia que o clube já havia alcançado e lá estava Sasha. E também estava, sob vaias e aplausos, Viktor Fyodorovich Yanukóvytch, após ser anunciado pela locução no estádio. Vitória por 2 a 0 dos donos da casa, gols do tcheco Hübschman e de Jadson, um dos primeiros brasileiros a chegar ao clube.

Uma semana mais tarde, Sasha não pôde ir até a cidade mediterrânea, mas Kolya foi com a sua namorada para o Sul da França. Menos de cem torcedores foram ao setor visitante. Kolya estava num assento premium, obviamente, mas tampouco estava ao lado de Akhmetov e seus assessores em um camarote no Stade Vélodrome, em Marselha. Outra vitória dos ucranianos, desta vez por 2 a 1, com gols de Fernandinho e Luiz Adriano.

Laranjas versus azuis

Por ironia do destino, o rival da semifinal seria ninguém menos que o Dynamo de Kiev: simplesmente o maior clássico do futebol ucraniano. O chaveamento colocava frente a frente as duas faces de um país dividido: o lado azul, representado pelo time laranja e preto, e o lado laranja, representado pelo time azul e branco. A Ucrânia estava de cabeça para baixo. O estádio fervia. O Dynamo abriu o placar com gol contra de Chygrynskyi, mas Fernandinho empatou.

No aguardado jogo de volta, Jadson abriu o marcador para o Shakhtar; Bagoura empatou para o Dynamo e Ilsinho fez o gol da vitória dos Mineradores. Festa no lado azul — ou laranja — da Ucrânia. Como disse Jakob, na Panenka: “um perfeito e enganoso paradoxo”.

A Donbass Arena já ganhava forma. O estádio era financiado por seu patrono: Rinat Akhmetov, que não demonstrava ter sofrido qualquer impacto da crise econômica européia. Na época, Akhmetov já era apontado como o homem mais rico da Ucrânia e seu patrimônio só cresceria a partir dali.

O humilde minerador Sasha gastou todas as suas reservas e viajou para Istambul, onde aconteceria a final contra o Werder Bremen— mais precisamente, no estádio Şükrü Saraçoğlu, do Fenerbahçe, no lado asiático da cidade. Kolya também estava lá. Luiz Adriano fez o primeiro gol do jogo. Naldo, outro brasileiro, empatou para o Bremen e Jadson faria o gol do título.

Era a glória máxima que o time de Rinat poderia almejar. Mesmo com todo o investimento, competir na Champions League seria um nível muito elevado e, mais adiante, o clube colocaria em prática um modelo de negócio muito claro de revenda de seus principais jogadores para o primeiro escalão europeu.

Em Donetsk, um carro de som convocava a torcida para a celebração do título na Praça Lenin. Os jogadores entraram no palco com ternos pretos, gravatas laranjas e capacetes de mineradores. Akhmetov discursou brevemente e o presidente Víktor Yanukóvytch, do Partido Azul, disse em russo que o Shakhtar tinha se tornado um símbolo da Ucrânia, que as vitórias são respeitadas no mundo todo e esse êxito abria caminho para uma Ucrânia unificada. Após os discursos, ambos olhavam para o show pirotécnico, lado a lado.

Estádio padrão UEFA, a cereja do bolo

A Ucrânia receberia a Eurocopa de 2012 em conjunto com a Polônia e, para isso, precisava construir estádios cinco estrelas. A Donbass Arena foi inaugurada na abertura da temporada seguinte com um show de Beyoncé: a cereja no bolo de um projeto ambicioso de Rinat Akhmetov e também ferramenta de propaganda de uma região. Não à toa, o estádio levava o nome da região. Não à toa, o estádio estava colorido de azul em sua inauguração, e não de laranja, a cor do time. A cor do nacionalismo — daquilo que viria a ser chamado de Novorossiya — era mais simbólica do que as cores do times.

Rinat Akhmetov nasceu em 1966 e é o fundador do grupo SCM. Existe muita controvérsia sobre como ele conseguiu adquirir negócios durante o período de privatizações após o fim da União Soviética e independência da Ucrânia. Há indícios de relações com a máfia local, mas ele diz ter investido em negócios de alto risco, como relata o site Liga.net, em um perfil do homem mais rico da Ucrânia. Desde 2008, Akhmetov aparece nas listas das pessoas mais ricas do mundo da Forbes, ora em posições mais altas, ora bem mais baixas. Em 2012, chegou a ocupar a posição #39 do ranking, com patrimônio avaliado em US$ 16 bilhões. A título de comparação, neste mesmo ranking, Mark Zuckerberg ocupava a 35ª posição.

Como acontece com qualquer bilionário, grande parte do capital é especulativo, movimentado nas bolsas internacionais. Diferentes contextos podem variar o tamanho do capital de uma hora pra outra. No caso da Ucrânia, um país que se viu dividido entre pró-ocidentais e pró-russos, com Kiev e Donetsk em cada umas das pontas, criou-se um ambiente de instabilidade para os negócios de Akhmetov.

Personagens como ele estão sempre muito relacionados com o governo, seja ele regional ou nacional. O papel do Estado é crucial nas suas atividades, e não o mercado em si. Foi o Estado que permitiu que, após o final da União Soviética, o mentor de Akhmetov, Akhat Bragin, tivesse relações promíscuas nos processos de privatizações. Bragin era considerado líder de uma organização criminosa, que tinha Rinat e seu irmão, Igor Akhmetov, como seus ”assistentes“.

Do Tartaristão para o Clã Tártaro

O magnata Akhmetov disse que conseguiu seu primeiro milhão vendendo carvão. Rinat é filho de uma família de mineradores de origem tártara. Não é coincidência que Bragin fosse o líder do que era chamado de “O Clã Tártaro”. Mas, como em qualquer organização mafiosa, há sempre um herdeiro quando o líder, ou melhor, “o chefão” morre.

A morte de Bragin abriu espaço para a ascensão de Rinat Akhmetov. Seis de seus guarda-costas também morreram no misterioso ataque em outubro de 1995, no antigo estádio do Shakhtar. Até ali, o clube laranja de Donetsk tinha um histórico muito modesto no futebol ucraniano e soviético. Até então, os Mineradores tinham conquistado quatro Copas Soviéticas [1961, 62, 80 e 83] e uma Copa da Ucrânia [1994/95], o que não é pouca coisa, levando em consideração a dimensão do campeonato, que comportava os clubes de toda URSS. Na Liga Soviética, o Shakhtar jamais conquistou um título. Foram dois vices [1975 e 79] e, por três vezes, ficou em terceiro lugar [1951, 69 e 78]. No âmbito europeu, o mais alto posto atingido pelo clube foi a fase de quartas-de-final da extinta Recopa, na temporada 1983/84.

Foi ali, naquele atentado, que Rinat Akhmetov iniciou sua própria Revolução Laranja. Talvez inspirado em Silvio Berlusconi, que usou o sucesso de um projeto futebolístico como plataforma para um projeto ambicioso, seja na política ou no mercado de investimentos. Um clube de futebol é um ambiente político, que lida com muita pressão midiática, e um modelo de gestão vitoriosa proporciona credibilidade e popularidade como nenhum outro setor. Na Argentina, Mauricio Macri foi outro personagem que usou um clube de futebol para projetar sua imagem, mais ou menos na mesma época em que Rinat iniciou sua aventura no leste da Ucrânia.

Em 1995, Rinat fundou o Dongorbank que, em 2010, se tornaria o FUIB [First Ukranian International Bank]. No meio do caminho, em 1999, um membro do Ministério do Interior ucraniano reportou Akhmetov como líder da organização criminosa mais perigosa do país: ele apresentou um relatório que indicava lavagem de dinheiro, fraude financeira e controle de diversas empresas fantasma. Financiado por doações e pela Open Society Institute & Soros Foudations Network, o site Occrp.org [Organized Crime and Corruption Reprting Project] mostra que dificilmente uma investigação criminosa vai adiante, afinal, o mesmo relatório apontava que as atividades tinham sido interrompidas. As investigações indicavam que testemunhas tinham sido mortas e figuras centrais dos crimes foram incluídas como agentes de empresas, formalizando as relações criminosas e, assim, nunca responderam a processos.

Uma revolução política e outra no futebol

O Shakhtar conquistou seu primeiro título sob a gestão Akhmetov na temporada 1996/97, conquistando a Copa da Ucrânia sobre o Dnipro Dnipropetrovsk, no Estádio Olímpico de Kiev, com vitória por 1 a 0. Na mesma temporada, o clube terminou a liga ucraniana em segundo lugar — nove pontos atrás do absoluto Dynamo de Kiev, que ganhou todas as ligas desde a temporada 1992/93 [que foi a segunda edição desde o final da União Soviética], até a temporada 2001/02, quando o Shakhtar venceria seu primeiro campeonato ucraniano. Foram nove títulos do Dynamo até que os Mineradores conseguissem quebrar o domínio do clube da capital. Era o surgimento de uma resistência esportiva aos “pró-ocidentais”.

No entanto, as duas temporadas seguintes [2002/03 e 2003/04] pareciam indicar a retomada do absolutismo do Dynamo em território ucraniano. Foram três vices: dois na liga e um na copa, todos com o Dynamo campeão, contra somente um título de copa em 2004, em cima do Dnipro Dnipropetrovsk. Mas juntamente com a Revolução Laranja que acontecia em Kiev, uma “outra revolução laranja” tomava forma em Donbass.

O treinador romeno Mircea Lucescu foi contratado para construir um time estrategicamente pautado em identificar jogadores promissores no Brasil. Foram dois títulos seguidos do campeonato ucraniano e o início de um domínio. A partir da temporada 2004/05 até 2016/17, foram nove conquistas na liga nacional, contra apenas quatro títulos dos rivais da capital.

Por um lado, Rinat Akhmetov significava o sucesso da região de Donbass com hegemonia esportiva, chegando à conquista de um título europeu em 2009, à construção de um estádio cinco estrelas e à consolidação de um verdadeiro império financeiro — uma corporação que responde pelo nome SCM, que estampa a camisa do Shakhtar como time mais exitoso da Ucrânia nos anos 2000, que freqüenta a Liga dos Campeões e revende seus jogadores para clubes do primeiro escalão depois de lapidar diamantes brutos nas fábricas de Donestk, com a energia dos carvões das minas de Donbass.

Por outro lado, esse orgulho e êxito da região fez com que o sentimento russo aflorasse nos cidadãos. No início de 2014, uma verdadeira insurreição tomou conta de Donbass. A relação de Akhmetov com os rebeldes sempre foi controversa. Há relatos que colocam o oligarca como principal financiador dos separatistas na região. No entanto, Akhmetov desmentiu cada uma das acusações.

Praticamente dez anos depois do início da Revolução Laranja, Kiev voltava à cena internacional com ataques contra o governo. O apoio russo ao governo de Víktor Yanukóvytch levou à revolta a parcela ocidental da Ucrânia, culminando na expulsão do presidente, aliado de Rinat Akhmetov. Como retaliação, a Rússia anexou a Criméia ao seu território, alegando que a região votou um — questionável — plebiscito em favor da anexação. A península da Criméia já pertenceu à Rússia até os anos 1950 e, durante a União Soviética, houve um gesto cordial que cedeu o território à então República Socialista Soviética Ucraniana. No entanto, assim como acontece em Donbass, a maioria da população é russófona e o sentimento de pertencimento à Rússia é maior do que comparado à Ucrânia. Com o estado de sítio em Kiev, na faixa ocidental do país, os ucranianos não ofereceram nenhuma resistência. O vazio de poder permitiu que a Rússia não apenas anexasse a Criméia, como também interviesse militarmente nos oblasts de Donbass e Lugansk.

No caso da Criméia, o principal clube da região, o SC Tavriya Simferopol — que já foi campeão ucraniano na primeira edição do campeonato logo após a dissolução da URSS, em 1992 — ficou sem poder disputar nenhuma competição até que a situação fosse normalizada, afinal, a região deixou de integrar a Ucrânia e, por isso, um novo clube foi fundado: o FC TSK Simferopol, que passou a integrar o terceiro escalão do futebol russo, juntamente com SKChF Sevastopol e Zhemchuzhina Yalta,que estrearam na Copa da Rússia em agosto de 2014, simbolizavam esportivamente a anexação do território. A federação ucraniana apelou à UEFA e à FIFA, que disseram estar monitorando a situação, mas a iminência de uma competição do porte de uma Copa do Mundo impedia a aplicação de medidas mais drásticas, como uma suspensão do país-sede, por exemplo, que seria o previsto em condições normais ou com países menos influentes nas entidades que governam o futebol. A federação russa sabia disso ao permitir a afiliação dos times e a disputa de seus campeonatos.

Dentro da — não muito simples — divisão política da Federação Russa, passaram a existir, assim, 46 oblasts, 22 repúblicas [Criméia entre elas], nove krais, quatro okrugs, um oblast autônomo e três cidades federais: Moscou, São Petersburgo e Sebastopol, na Criméia. Cada região ou território tem um nível de autonomia específico.

O conflito em Donetsk ganhou proporções — talvez — jamais imaginadas por seus próprios líderes e supostos patrocinadores. O que parecia ser um blefe político, acabou tomando rumo real e mortal. As forças rebeldes tomaram o poder nas regiões de Donbass e Lugansk, proclamando então as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk. A situação era imprópria para a prática do futebol. Imaginar um clássico entre Dynamo e Shakhtar em Donetsk poderia piorar o que já estava muito ruim. Em agosto de 2014, contudo, a Donbass Arena foi alvo de bombardeios antes mesmo que os dois times cogitassem a realização de um jogo naquelas condições.

Em outubro de 2014, voltou a acontecer outro ataque, enquanto o clube já mandava seus jogos em Lviv, a mais de 1200 quilômetros a oeste de Donetsk. Posteriormente, em 2017, passou a mandar seus jogos em Kharkiv — ou Carcóvia —, que fica a pouco mais de 300 quilômetros ao norte de Donetsk. Durante aquele período, o time trasladou seu centro de treinamentos para Kiev. O Euromaidan — como ficou conhecido o movimento que visava uma aproximação da Ucrânia com a União Européia — acabou por isolar do povo de Donetsk, seu principal veículo de propaganda. Foi nessa época que o Shakhtar perdeu dois títulos nacionais, justamente para o Dynamo de Kiev. Também a partir daí, o patrimônio de Rinat Akhmetov encolheu bruscamente, saindo da casa dos US$ 16 bilhões, passando por US$ 2,3 bilhões, e chegando a US$ 5,9 bi em 2018, graças à gradativa retomada da estabilidade na região após um cessar fogo firmado em fevereiro de 2015, mas que, até 2017, ainda não havia sido cumprido.

Em 2018, o Shakhtar disputava as oitavas-de-final da Champions League contra a Roma. No jogo de ida, em Kharkiv, vitória do time de Donetsk por 2 a 1. Na partida de volta, na capital italiana, a vitória por 1 a 0 dos donos da casa eliminou o clube de Donbass pelo critério de gol qualificado.

A Seleção Brasileira levou pra Copa do Mundo na Rússia dois jogadores que vestiam a camisa do Shakhtar na época: Taison e Fred. Isso sem contar outros veteranos que fizeram carreira no time antes de irem para outros clubes na Europa, como Willian, Fernandinho e Douglas Costa — tal como Fred que, pouco antes do estréia do Brasil na Copa de 2018, assinou contrato com o Manchester United por € 59 milhões, de acordo com o site Transfermarkt.

Embora represente uma força de uma parte significativa do país, Akhmetov depende de um Estado estável para garantir suas atividades. Desde 2014, o bilionário realizou diversas ações humanitárias para a região de Donbass. Algumas de suas operações foram tomadas por rebeldes, tanto da auto-proclamada República Popular de Donetsk, quanto de Lugansk. É difícil saber se o magnata impulsionou o conflito para obter uma barganha política ainda mais forte, ou se ele preferia uma região mais estável, visto que seu patrimônio encolheu substancialmente.

A relação promíscua com o Estado ficou evidente quando o patrimônio do homem mais rico da Ucrânia diminuiu graças à crise política que acarretou um conflito bélico e, logo, afetou diretamente a economia do país.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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