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O calcanhar de Sócrates

O fim da vida de um gênio do futebol

Em 19 de fevereiro de 1954, em Belém do Pará, nascia Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, que, quando jogou pelo Corinthians, lutaria contra o regime militar com suas armas: a cabeça, os pés e o punho cerrado, naquilo que ficou marcado como a Democracia Corinthiana.

Três nomes que remetem à Grécia Antiga: Sócrates (Sōkrátēs), Corinthians (Kórinthos) e Democracia (Dēmokratía); no entanto, o Sócrates em questão era brasileiro, inclusive no nome, o Corinthians é o clube paulista mais popular e a democracia, aquela, foi corinthiana, mas também, de todos os que queriam o poder nas mãos do povo, como emana a palavra.

Essa história já foi objeto de inúmeras matérias jornalísticas e diversos documentários. A Corner #7, inclusive, falou com Juca Kfouri e Washington Olivetto, dois ícones midiáticos fundamentais para que a comunicação, unindo jornalismo e publicidade, reverberasse aquilo que acontecia nos vestiários do Parque São Jorge, com Wladimir, Sócrates e Casagrande como protagonistas ideológicos.

Wladimir trazia sua formação sindicalizada, Sócrates aportava sua liderança e Casagrande personificava a rebeldia juvenil. Dos três, o primeiro é o único que tem uma biografia longe de vícios. Casagrande passou por muitas recaídas e Sócrates faleceu no dia 4 de dezembro de 2011 , vítima de cirrose hepática.

Também na Corner #7, na entrevista com o jornalista escocês Andrew Downie, biógrafo de Sócrates, ao ser perguntado sobre quando o ex-jogador começara na bebida, ele respondeu: “Começou a beber muito cedo, ainda na adolescência. Ele sempre dizia que bebia cerveja para hidratar, o que num certo sentido, era verdade: num calor de quarenta graus em Ribeirão Preto, você precisa se hidratar. A família dele também era muito social. O pai era cearense, havia chegado em Ribeirão Preto em 1960, e tinha uma posição muito alta na Receita Federal. Muitas pessoas que vinham, não apenas do Ceará, mas também do Pará, que era o estado de origem da mãe de Sócrates, sabiam que a casa dos pais dele era um lugar sociável. Sabiam que iam conhecer um cara de casa. A residência estava sempre cheia de pessoas, o pai era bem receptivo, então, sempre tinha comida à mesa e bebida saindo da geladeira. Isso foi um fator importante para que ele tenha começado a beber tão cedo.”

Como o alcoolismo de Sócrates não era o foco da entrevista, ficou por isso, mas ao ler os episódios da biografia de quando o icônico camisa 8 jogava pelo Botafogo de Ribeirão Preto, o autor traz em detalhes uma série de episódios em que ele chegava sem condições para treinar ou para jogar. Sócrates odiava treinar, inclusive. Mas se garantia nas partidas, mesmo quando passava do ponto na noite anterior. Ele gozava de uma agenda diferenciada de treinamentos, devido ao curso de medicina.

Mesmo os técnicos que pensaram em implementar uma linha dura com o jogador acabavam cedendo devido à sua condição técnica singular no elenco do Botafogo paulista na década de 1970.

A sua ida para a capital também trouxe uma vida mais badalada. Mais dinheiro, mais liberdade, além de se tornar símbolo de um movimento como a Democracia Corinthiana, que transcendeu os gramados e o tornou ainda mais intocável em seus excessos.

Desde os tempos de Botafogo, Sócrates tinha fama de cansar no segundo tempo. Embora o futebol estivesse atravessando uma revolução na preparação física ao longo da década de 1970, ele era um jogador à moda antiga. Daqueles que fumavam sem pudor e bebiam o quanto bem entendessem. Essa licença era conquistada com passes e gols magistrais.

Mas sua vida desregrada não passaria impune, esportivamente falando. Após uma passagem pelo futebol italiano na qual não deixou saudade alguma, e onde ele também sofreu com a saudade, Sócrates voltou ao futebol brasileiro em 1985. Assinou com o Flamengo, mas pouco fez. Garantiu pelo nome e pela história um lugar na Copa do Mundo de 1986. A impressão deixada no mundial da Espanha, quatro anos antes, carimbou seu passaporte para o México, embora numa posição bem diferente da que jogara à época.

Até a camisa era outra, atuou com a número 18, mas foi nessa Copa que seu ativismo o tornou mundialmente famoso, pela faixa estilo tenista que usou na cabeça, com a mensagem “Mexico sigue en pié”, no primeiro jogo contra a Espanha, quando fez o gol da vitória. Ele ainda usaria outros modelos, até as quartas de final, na eliminação para a França. E foi justamente neste jogo que Sócrates provou não ser um atleta. Errático, o jogador se arrastou no escaldante sol de Guadalajara em pleno verão mexicano.

Apesar de Zico carregar sozinho a cruz da eliminação por errar uma cobrança de pênalti durante os 90 minutos, Sócrates e Júlio César foram os brasileiros que desperdiçaram suas chances na disputa após o empate, enquanto o camisa 10 converteu, cobrando como deveria ter feito antes, com raiva.

Sócrates bateu sem força a primeira cobrança, enquanto o zagueiro Júlio César explodiu a bola na trave do goleiro francês Joël Bats depois do erro do autor do gol francês no tempo regulamentar, Michel Platini. No fim, a conversão da penalidade de Luis Fernandez para a França despachou o Brasil e iniciou a invencibilidade sobre os brasileiros em Copas do Mundo, como aconteceu em 1998 e 2006.

Sócrates seguiria no Flamengo por mais um tempo, e depois jogaria pelo seu time de infância, o Santos, onde também não deixou suas impressões digitais em troféus. Acabaria retornando ao clube da cidade onde iniciou sua carreira e cresceu, para então se aposentar dos gramados de forma ofuscada, à sombra do imenso mito construído à sua imagem pelas jogadas e pelos posicionamentos políticos também dentro de campo.

**

Muito tempo depois de se aposentar, Sócrates começou a deixar aparente a sua longa relação com o álcool. E quando se viu a dimensão do problema, já parecia tarde demais. Em 2010, ele teve um programa veiculado no Canal Brasil, no qual entrevistava personalidades brasileiras. Participaram José Trajano, Juca Kfouri e Zico. Nitidamente sem energia, o ex-jogador usava uma faixa prendendo seus cabelos grisalhos bagunçados e sua barba branca por fazer maquiava o desgaste que o álcool e a vida boêmia lhe proporcionavam.

No papo com José Trajano, com quem conviveu em Florença, ele contou uma história de um carnaval, quando os dois moraram juntos na Toscana, em que a festa mais parecia de universitários do que de jogadores profissionais. Sócrates provocou Trajano: “Quero saber a sua opinião de quando você jantava lá em casa… Foram nove meses…”

Trajano respondeu: “Olha, comi bem, bebi bem, fui bem recebido, agora a coisa que eu mais me lembro…” Sócrates o interrompeu rindo, e Trajano seguiu: “Uma coisa que ficou da nossa relação… Eu conto isso pras pessoas e elas não acreditam muito…”, olhou pra câmera e continuou: “Fiquei lá, tem essa história toda com o Sócrates, mas teve um dia em que ficamos nós dois sentados do lado de fora da casa, e você estava brigado com Fiorentina, querendo voltar pro Brasil e tal, e fiz algumas perguntas, fiquei te apertando. ‘Mas vem cá, você jogou na seleção, no Corinthians, em Copa do Mundo, pepepé, mas qual foi o lugar que você mais se sentiu bem jogando, de onde você tem as melhores recordações?’ De um modo geral, quando se faz uma pergunta dessas, você espera que o cara vá falar Corinthians, seleção…”, Trajano olhou para o amigo e disse: “E você me contou de quando você jogava naqueles times lá de Ribeirão, naquele torneio de fazenda, que vocês iam de caminhão… você falou com uma riqueza de detalhes daquele amadorismo, daquelas amizades… e que tinham caras que jogavam muito bem.”

Sócrates então confidenciou: “Você sabe que aqueles meses que passamos juntos foram doloridos, para nós dois, né? Cada um pelos seus motivos, mas ainda bem que você estava perto.”

Trajano finalizou: “Mas também nos enriqueceu muito por outro lado. Nós aprendemos muito. A gente teve momentos ruins, mas em termos de convivência, de olhar o mundo de outro jeito, de longe.”

Essa vida era atípica para um jogador de futebol, mesmo nos anos 1980. Sócrates conviveu com um jornalista com fama de rebelde por nove meses na Itália. E os dois lembraram da festança carnavalesca na casa: “Carnaval na casa do Sócrates tinha Zico, Júnior, Edinho, Cerezo… A imprensa italiana toda do lado de fora querendo entrar… O time inteiro da Fiorentina lá dentro, Antonioni, Passarella… campeões do mundo. Uma cachaçada do cão.”

Então Trajano pediu pra contar uma história e, em meio a muitas risadas, Sócrates disse que ele podia contar o que quisesse: “Lança-perfume era uma coisa que fazia parte do carnaval… E foi proibido depois no Brasil. Era carnaval na Itália e o Sócrates queria um lança-perfume. Não tinha nem festividade direito, como que vai ter lança-perfume? Vamos inventar um!” Sócrates caiu na gargalhada e assumiu que não se lembrava dessa história.

“Tinha um amigo dele que era cabeleireiro. Ele disse que tinha laque. E era colorido, laranja, azul… Quem entrava na festa, você botava no lenço e já dava pro cara cheirar com laque e cortava a gravata dos italianos…”, seguiu Trajano.

Sócrates se lembrou da gravata do Galli. O brasileiro estava com uma tesoura gigante de jardim, e o italiano se ajoelhou, pedindo pelo amor de deus, dizendo que tinha sido um presente de sua mãe.

O programa acabou, e Sócrates estava com uma taça de vinho ao seu lado. Sua aparência não era vigorosa, muito abaixo do que podia estar ali, perto dos 57 anos. Foi justamente nessa época que ele deu entrada num processo clínico, ficou internado e depois, ao sair, participou de uma longa entrevista com Marília Gabriela no “De Frente com Gabi”, do SBT.

Alguns trechos merecem atenção e talvez tenham passado despercebidos na época, para quem assistiu ao vivo. A começar pela sua coloração. Ele sempre foi moreno, mas estava com os olhos inchados e um tom de pele mais amarelado, com os cabelos compridos e a barba bem branca. Visivelmente mais magro e com uma energia nitidamente baixa, normal para quem tinha acabado de se recuperar de uma crise hepática.

Marília Gabriela começou a entrevista pela política. Ela perguntou sobre os escândalos de corrupção que envolviam o então ministro do Esporte, Orlando Silva. Ele tergiversou, afirmou que o sistema político brasileiro era todo corrompido. Sócrates falou do espírito de impunidade dos políticos e disse que “se for mexer muito, não sobra muita gente, não”. Questionado sobre a possibilidade dessas denúncias e dos inquéritos atrapalharem lá na frente, na Copa do Mundo [o programa foi gravado em 2011], ele respondeu: “Tomara que atrapalhe. Essa Copa do Mundo está muito mal-ajambrada. Nós estamos nos preocupando basicamente com estádios, construindo um caminhão de estádios, que particularmente acho um desperdício, nós temos carências muito mais importantes. Alguns desses estádios vão virar cemitérios de quero-queros. Existe uma inversão de valor aí. Por que não fazer jogos em Belém, já que escolheram uma sede amazônica, mas sim, em Manaus? Belém já tem um estádio e tem muito mais futebol. É corrupção.”

Depois abordou o que aconteceu nos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio de Janeiro, as questões que seriam prioritárias, mas que nem tinham começado ainda, como mobilidade e infraestrutura aeroportuária, demonstrando uma noção muito lúcida de um país em descompasso com as diretrizes do governo à época.

Sócrates fez ainda uma previsão para o futuro do Brasil, usando os Jogos Olímpicos de Atenas como exemplo: “Espero que não aconteça o que está ocorrendo na Grécia, que boa parte do debate econômico tem a ver com as Olimpíadas também. Sem dúvida alguma.”

Gabi então abordou o apoio de Sócrates a Lula e Dilma, e o questionou quanto aos malfeitos dos respectivos governos. Ele falou de vícios políticos e de acordos para se obter a maioria no Congresso. Sócrates lembrou então que Lula foi eleito e nada fez com relação ao Ricardo Teixeira e à CBF, e estendeu sua crítica à Copa do Mundo no Brasil, que estava sendo realizada com investimento estatal, apesar de se tratar de um evento privado: “O futebol se tornou um balcão de negócios e nós estamos sendo fornecedores desse capital. O evento dura um mês e o que sobra pra gente?” O purismo esquerdista de Sócrates estava intacto, e isso vai ser visto mais adiante.

Marília Gabriela resolveu falar, também, sobre a saúde dele. Perguntou se ele estava zerado. Sócrates respondeu que sim: “Estou ótimo. Ainda tem o processo de recuperação física.”

Gabi tratou objetivamente da patologia. Sócrates afirmou que tinha cirrose num pólo do fígado e começou a esbanjar, modestamente, seu conhecimento em medicina. “A área do meu fígado que foi tomada é importante, porque atinge a questão circulatória, então dá hipertensão. Gera uma dificuldade para a passagem do sangue pelo órgão e, por isso, causa hemorragia. Mas já está resolvido. A solução é colocar um bypass, para que o sangue passe direto, e agora é só acompanhar. Pode entupir, aí você coloca outro. Troca.” Ele passou a sensação de que tudo estava sob controle, mas abriu margem para que quem o estava assistindo atentamente se questionasse sobre quem estava falando, se era o médico ou o doente. Um doente, no caso, que é alcoólatra.

Quando Marília Gabriela perguntou sobre a causa, se era a bebida, ele disse “achar que sim”, e falou sobre uma hipersensibilidade. Então ela o questionou a respeito de uma possível recaída, e Sócrates soou incerto, mas tentou passar autocontrole: “Não sei, eu não estou bebendo. Não preciso beber.”

Uma fala muito comum entre viciados é justamente a negação da dependência em uma substância, seja ela qual for. Cigarro, álcool, cocaína. Ninguém admite, em várias instâncias, ser um dependente químico. O normal é achar que sempre está no controle. Porém, o reconhecimento do vício é o primeiro passo para um possível controle da situação, de acordo com médicos consultados por esta reportagem.

A entrevistadora continuou no assunto: “Você se diria alcoólatra ou não?” Sócrates respondeu contundentemente: “Não.” E falou do perigo do álcool: “Ninguém sabe a agressão que ele está provocando no seu organismo.”

Ela então tratou da perda de peso de forma elogiosa: “Você está muito bem!” Talvez como forma de levantar o ânimo de quem, visivelmente, estava num processo delicado no qual a auto-estima é sempre imprescindível. Sócrates assumiu que perdeu 25 quilos e tinha recuperado cinco desde a internação.

No decorrer da entrevista, quando perguntado se a bebida já o atrapalhara, ele acabou entregando muita coisa: “Não, quando você é jovem nada atrapalha. Até os 30 anos é uma beleza.” Na Copa do Mundo do México, Sócrates já tinha 32 anos e o que também está dito em sua frase é o que todos sabem: ele bebia desde sempre. Depois, o ex-jogador disse que “nunca fui de beber muito, bebia constantemente, mas não volumes muito grandes”, deixando mais uma dúvida sobre a sua lucidez. E continuou: “Não sinto falta, eu não tenho dependência química. Essa é uma grande vantagem para ficar distante [do álcool]. Tem gente que sofre pra ficar sem bebida ou cigarro.”

O fato dele ser médico e ficar doente também entrou na pauta da entrevista. “Na verdade, quando você está doente, você é paciente, não é mais médico. Você está na mão dos outros. Mas sim, você tem mais conhecimento de fisiologia. Isso não impede que você seja paciente como qualquer outra pessoa, e talvez seja até pior. Porque você pode vislumbrar algo que um leigo nem imagina”, disse Sócrates, mostrando que, provavelmente, ele soubesse da gravidade do seu problema e, por isso, a intenção de minimizá-lo publicamente.

A entrevista seguiu, então, para o lado familiar. Gabi citou o nome dos filhos que o ex-jogador teve com as duas esposas anteriores. A última companheira dele, Kátia Bagnarelli, estava no estúdio, e, ao ser perguntado se o seu filho mais novo, Fidel Brasileiro, era de Kátia, ele respondeu que não, que com ela seriam duas meninas. Marília Gabriela se assustou e indagou se ela estava grávida. Sócrates confidenciou que não, mas que estava programado. A câmera mostrou Kátia com um sorriso de quem está um pouco envergonhada, e Gabi voltou a indagar sobre Fidel Brasileiro: “Você pretendia mesmo fazer uma homenagem ao Fidel Castro?”

— Sim, porque ele representa o meu sonho de sociedade.
— Mesmo hoje?
— Sim. Sempre.
— Mesmo com o que se vê hoje, com o que aconteceu com a população e com a vida em Cuba?
— Na verdade, Cuba sofre consequências por ser uma ilha, um país pobre, com o bloqueio americano desde 1960…
— E as prisões e perseguições políticas dentro do país?
— Isso tem em qualquer lugar. São leis de cada nação. Pior é você matar alguém fora das suas fronteiras. Por que ninguém fala dos americanos?
— Tudo bem, mas agora nós estamos falando de Fidel e de uma homenagem a ele e ao sistema implantado lá.
— Cada nação tem o seu sistema legal e tem de ser respeitado. Aqui nós temos também. Houve uma grande discussão sobre o caso do Cesare Battisti. Na Itália, ninguém entende por que ele não foi deportado. Aqui temos a nossa legislação.
— Em Cuba tinha o paredão. Execução sumária. Tudo isso é perdoável em nome de…
— Eu não sei se é perdoável. Agora tivemos o paredão do Kadafi [Muammar al-Gaddafi, que comandou a Líbia entre 1969 e 2011, até ser morto em 20 de outubro de 2011], antes o do Saddam Hussein, estimulados externamente, não foi uma coisa interna. A OTAN participou ativamente desses dois processos. O conflito Palestina-Israel é a mesma coisa. Não existe sociedade perfeita, mas existem algumas que se aproximam daquilo em que eu acredito. Cuba é exatamente isso. É um país que oferece o básico para todos, dentro das suas possibilidades, todo mundo tem educação, todo mundo tem saúde, todo mundo tem onde morar, mesmo que seja em condições de pobreza, mas todos têm onde morar. E agora estão num processo de alteração da própria constituição, porque eles estão com um gargalo de moradia lá. Eles estão abrindo para que se façam investimentos em moradia para que, de alguma forma, contemplem suas necessidades. Eles não têm dinheiro. Não conseguem vender pra lugar nenhum. Onde tiver uma empresa americana, você não pode comprar de Cuba. Num mundo globalizado como o que a gente vive, você fica amarrado. Se não fosse o auxílio da Venezuela, Cuba não teria energia.
— Você já foi a Cuba?
— Já. Algumas vezes.
— Conheceu o Fidel?
— Não.
— Nunca esteve com ele?
— Não. Sou apaixonado por Cuba e pelo regime.
— E pelo Fidel! Botou o nome no filho.
— Fidel é um simbolismo. É simbólico, assim como o Che.
— Sim, ele é danado de sedutor. É um homem fascinante, tem um carisma extraordinário. Eu o conheci, tive essa oportunidade e o entrevistei.

A conversa durou mais um bloco, e outras questões foram abordadas. Família, futebol e vida. Esta foi a última entrevista de Sócrates, e a esposa dele à época, Kátia, relatou um detalhe não menor de bastidores. De acordo com um texto seu no UOL, Gabi não mediu esforços para que fizessem a entrevista no estúdio. Naqueles dias, o casal só aceitava fazer o que quer que fosse em casa, com acompanhamento médico.

A viúva disse que a jornalista sentiu que ele poderia estar partindo e revelou algo ainda mais angustiante: “A Marília Gabriela insistiu muito. Sentiu que ele estava partindo. Foi um dos programas mais completos da vida dele. Uma narrativa linda, do início ao fim, que ela conseguiu tirar do Sócrates. Em toda a entrevista, ele lidava com quarenta graus de febre. Estava super mal.”

Sobre a condição clínica de Sócrates, Kátia acrescentou: “Eu administrei medicamento e tentei chegar ao SBT como se nada tivesse acontecido. Eles perceberam o quanto a situação era difícil.”

O fato de ser formado em medicina, como ele mesmo disse, dava uma noção mais clara do estrago: “Sócrates era médico. Sabia tudo que estava acontecendo com o corpo dele. Só que não me falava do horror que viria a acontecer.”

O texto de Kátia é pesado. Ela abordou as hemorragias e os últimos momentos ao lado do ex-jogador, além das pessoas que o procuraram e com quem ele quis conversar nas últimas horas. Citou José Trajano, Juca Kfouri e Zico.

Na primeira edição da Corner, há uma dedicatória post-mortem a Airton Martinho, que faleceu em maio de 2015, aos 50 anos, vítima de cirrose hepática. A doença não era a cirrose, mas o alcoolismo. Por isso, muitas vezes, não há cura. Com Sócrates não houve, apesar dos relatos de Kátia Bagnarelli de que ele não bebia havia três meses, antes de falecer. Três meses não foram qualquer coisa perto de uma vida de consumo constante.

O que aconteceu com Sócrates aos 54 anos, acontece com qualquer família, em qualquer país. Aconteceu com Garrincha, aconteceu com George Best. Aconteceu com Brian Clough. O álcool encurtou a vida de lendas do futebol. Um adversário que nem Sócrates, nem Best, nem Clough, nem sequer Garrincha puderam driblar e deixar pra trás.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.