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This is Anfield

Uma das frases mais célebres da história do futebol, proferida numa truculenta entrevista dada já no final de uma carreira das mais brilhantes da história: “Eu queria que o Liverpool fosse como Napoleão e conquistasse o mundo!”. Bill Shankly foi, provavelmente, um dos maiores gênios do “beautiful game”. O que não conquistou em títulos, ganhou em carisma. E marcou a ferro e fogo o seu nome para toda a posteridade.

You Will Never Walk Alone

Perderam o seu pai espiritual, o homem responsável para que o nome do Liverpool FC se tornasse conhecido mundialmente. Foi ele quem inspirou uma geração de torcedores que faziam da Kop, como é chamada a torcida do Liverpool, um mosaico vivo de emoções. Nas escadas que antecedem o túnel de entrada ao gramado, mandou pintar “This is Anfield” e transformou o “You’ll Never Walk Alone” no grande hit da década. Tudo isso hoje é história e tradição. Mas foi com esse escocês baixo e carrancudo que tudo começou.

Um técnico humanista e profundamente dedicado, capaz de dizer a um jogador que o seu joelho lesionado não lhe pertencia, pertencia ao clube. Mas também capaz de jogar psicologicamente como ninguém. Na véspera de um jogo decisivo contra o belga Anderlecht, o técnico entrou no vestiário e apenas disse aos jogadores: “A equipe deles não vale nada, a vitória é de vocês sem nenhuma dúvida. Não admito menos que 3 a 0”. No final, quando os jogadores voltavam triunfantes depois dos 90 minutos, Shankly bateu com o boné no chão e disse com um imenso sorriso “Acabaram de ganhar do melhor time da Europa”. Esse era Shankly.

O técnico escocês mais truculento da história faz parte de uma geração inesquecível à qual também pertencem Jock Stein e Matt Busby. Amigo pessoal de ambos, Shankly era o típico treinador com espírito de camaradagem. Do primeiro, disse que era o primeiro técnico britânico a entrar para a posteridade. Do segundo, que era o melhor manager da história. E ele? Ele foi mais do que isso. Foi a essência do jogo.

Nascido em Glenbuck, uma pequena aldeia mineira no norte da Escócia, William Shankly começou a carreira como jogador para fugir do trabalho árduo que ocupava o resto da família. Era modesto como lateral e o melhor momento da sua carreira se deu no Preston North End, com o qual venceu uma FA Cup. Em 1949, já depois de ter sido convocado pela Escócia, pendurou as chuteiras e, junto ao seu irmão Bob — que chegou a vencer uma Copa da Escócia com o Dundee Utd —, começou a se preparar para seguir a carreira de técnico. Começou no modesto Carlisle Utd, mas, rapidamente, saiu por desavenças com o presidente. Seguiram-se curtas etapas no Sunderland e no Grimsby. O seu estilo paternalista, apesar de exigente, rapidamente o fez popular entre os jogadores. Paralelamente, começou a trabalhar com os sindicatos e com o Labour Party. Durante toda a sua vida foi um sindicalista empenhado e um socialista empedernido. Um homem que gostava de relembrar as suas raízes proletárias e utilizá-las como motivação para os próprios jogadores. Quando treinou o Huddersfield, contratou um jovem escocês minerador de 16 anos prometendo aos diretores que as 45 mil libras pagas se tornariam em 100 mil quando o vendessem. No final foram 115 mil, quando o Manchester United contratou o jovem que se chamava Dennis Law.

“This is Anfield” e o “Boot Room”

Contratado para ressuscitar um colosso que vivia um período péssimo na sua história, o Liverpool tinha caído para a segunda divisão inglesa. Rapidamente, Shankly impôs o seu método e revolucionou a instituição. Juntou-se aos veteranos da casa, Paisley, Reuben e Fagan e criou o “Boot Room”, isto é, uma sala onde todos tomavam chá, falavam de futebol, política e religião.

Todas as táticas, contratações e dispensas eram analisadas ali, por vezes, em sessões que duravam até a madrugada. Shankly ficou conhecido em Anfield por ser o homem que fechava o estádio de noite e o abria de manhã. Foi o primeiro a implantar os treinos com rachões de cinco pra cada lado e obrigou os jogadores e realizar todas as refeições juntos.

Em poucos meses, o clube se tornaria uma grande família e o decrépito Anfield começava a parecer um castelo. Aos bons jogadores que Shankly foi descobrindo nas reservas, juntaram-se contratações cirúrgicas como Ian St. John, Thompson e Yeats, que provaram ser fundamentais. O time subiu imediatamente de divisão e começou a disputar título atrás de título. Quatro anos depois de chegar, o Liverpool voltava a saborear um título de campeão, finalizando um processo de metamorfose espetacular. Na temporada 1964/65, o clube venceria a FA Cup, apesar de ter caído nas semifinais da Copa dos Campeões diante da Internazionale de Milão. Porém, no final da década, a maioria dos jogadores com quem tinha começado esta aventura estavam já em idade avançada, e os Reds perdiam protagonismo para o Manchester United e o Leeds United. Quando todos pensavam que Shankly estava acabado, ele voltou a operar um milagre.

As chegadas certeiras a Anfield de Kevin Keegan, Heighway, Clemence e Toshack deram o sangue novo que os Reds precisavam. Shankly reorganizou o seu time à volta de Keegan, que voltou a devolver o Liverpool ao lugar mais alto. O time terminou a Taça das Cidades com Feiras como semifinalista em 1971, mas, dois anos depois, levantou o troféu, o primeiro título europeu do clube que mais taças conquistaria na década seguinte. Shankly passou esses anos moldando o seu Liverpool até atingir a perfeição.

A lenda de Liverpool

A sua equipe de 1973 era uma das mais metódicas e eficazes da história do futebol inglês. Foi então que, subitamente, Bill Shankly anunciou que se aposentava. A direção não quis aceitar a sua saída, mas o homem que dizia sempre que em Liverpool só existiam dois times, “o Liverpool e os reservas do Liverpool”, mostrou-se inflexível. Rapidamente, buscou-se um substituto. Rumores dizem que Shankly queria que Jack Charlton fosse o seu sucessor, mas a versão oficial continua a corroborar a ideia de que foi o próprio técnico que elegeu Bob Paisley, um dos homens fulcrais do “Boot Room”. O clube continuou o seu caminho, porém, o técnico rapidamente se arrependeu da sua decisão. Passava os dias no campo de treinos e os jogadores continuavam a tratá-lo como “Mister”, enquanto que a Paisley apenas lhe chamavam “Bob”. O segundo lugar no campeonato de 1973/74 por parte do Liverpool, que terminou com o título do Leeds de Don Revie, levou a direção a pedir ao técnico que se afastasse de Anfield, sob a acusação de que não estava dando espaço de manobra ao seu sucessor. Tristemente, o fiel técnico concordou. E Paisley tornou-se o mais bem-sucedido treinador da história do futebol britânico.

Depois de passar os anos a observar jogadores e times, Shankly tornou-se a maior lenda viva da cidade. Era o ídolo dos torcedores que o paravam na rua e convidavam para tomar chá só para o ouvirem falar do jogo. Em 1981, um leve ataque cardíaco o levou ao hospital. Os torcedores acudiram às portas do centro médico rezando e cantando o hino do Liverpool horas a fio. Primeiro anunciou-se que Shankly melhorava, mas subitamente a sua condição piorou drasticamente. O técnico acabou por falecer aos 61 anos num 29 de setembro. O luto invadiu o futebol britânico, e o homem que uma vez disse que o Beautiful Game era algo mais do que a vida ou a morte subiu aos céus onde ainda hoje continua a orientar os seus rumos às glórias.

Liverpool parou. O luto já tinha invadido a cidade muito antes, no ano anterior, quando outro famoso da cidade, um tal de John Lennon, era assassinado. Os anos de 1960 em Merseyside se resumem facilmente a esses dois ícones. Cavern Club e Anfield Road tornaram-se os dois templos preferidos dos liverpuldianos. Na noite seguinte à morte de Shankly, o time jogou pela Copa dos Campeões e goleou do modesto OPS da Finlândia por 7 a 0, tal e qual como Shankly esperaria.

Dias depois, num jogo pela liga inglesa contra o Swansea, treinado pelo ex-jogador do Liverpool, John Toshack, que foi uma das apostas de Bill Shankly quando treinador, o jovem técnico entrou em campo e comandou seu time vestindo a sua velha camisa Red com o número 10 nas costas. Nas arquibancadas havia gente que chorava. Genuinamente.

Jornalista e escritor. Autor dos livros “Noites Europeias”, “Sonhos Dourados” e “Toni Kroos: El Maestro Invisible”, “Sueños de la Euro” e “Johan: a anatomia de um gênio” Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos. O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona. Estudou comunicação na Universidade do Porto.

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