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Um arsenal de bebidas

Os impactos da chegada de Arsène Wenger nos Gunners

Existe uma foto famosa de Paul Merson, ex-jogador da seleção inglesa, comemorando um gol importante quando jogava pelo Arsenal, então sob o comando do técnico escocês George Graham. É uma daquelas imagens que todo inglês que lê frequentemente as páginas esportivas já viu em várias ocasiões, mesmo que não se lembre mais qual tento ele estava comemorando. Uma daquelas imagens que são colocadas quase sempre que uma notícia sobre o Merson surge ou quando ele concede uma entrevista.

É um retrato não só dele, da cara do jogador, da pessoa, mas dos demônios internos e de uma época no Arsenal. Uma época importante, uma época na qual existia uma cultura, no próprio clube e no futebol inglês de uma maneira geral, que não existe mais.

Na foto, Paul Merson leva as mãos em direção ao rosto, ambas abertas como se estivessem segurando copos grandes de cerveja. A boca está aberta, pronta para engolir a bebida imaginária. Ele está com uma cara de felicidade enorme. Como já escrevi, ele comemorava um gol. E não um gol qualquer; o de empate na final da Copa da Liga Inglesa, a qual o Arsenal venceria naquele dia. Aliás, esta foi a primeira de duas copas domésticas que ganharia na mesma temporada, ambas com vitórias de 2 a 1 em cima do Sheffield Wednesday.

O gesto de Merson foi um aceno claro e elogioso à bebida presente no futebol inglês. A cultura vinha de longa data e todo mundo sabia o que acontecia. Jogadores, diretores, treinadores, jornalistas e fãs. Alguns até achavam esse hábito impróprio, mas poucos tentaram fazer algo para contê-lo.

No Arsenal, as saídas para se embriagar eram chamadas de “The Tuesday Club”, um nome, como se esperaria de qualquer bom inglês, pouquíssimo criativo. Nas semanas em que não tinha jogo terça ou quarta-feira, Graham dava a própria quarta de folga para os… bem, eu ia usar a palavra “atletas”… mas vamos com ‘jogadores’. Sabendo disso, o técnico realizava um treino intenso na terça, e, também sabendo disso, os jogadores faziam planos para depois da atividade. 

Lee Dixon, lateral-direito do time, contou para o jornal “The Independent” como era a rotina: “De manhã, George dava um treino físico muito duro, a gente corria até quase vomitar e, em seguida, fazíamos trabalho na academia. Depois, íamos para o pub Bank of Friendship, perto de Highbury, e tomávamos algumas cervejas.”

E continuou: “Naquele tempo, os jogadores podiam socializar nos mesmos lugares dos torcedores, sem problemas. Eu não bebia muito, seis pints [cerca de três litros e meio] e já estava bêbado. Mas outros, especialmente Tony Adams, bebiam a noite inteira.”

Não era só naquele pub, na verdade, e, obviamente, não eram “algumas cervejas”. Os jogadores saíam bêbados por Londres inteira, e em algumas ocasiões causavam problemas. Em 1990, Adams passou seis meses na cadeia por ter dirigido embriagado. Em 1995, Ray Parlour foi preso em Hong Kong durante uma viagem pela pré-temporada.  

Em 1996, os mesmos dois acionaram um extintor de incêndio em um restaurante da rede Pizza Hut, e a história foi divulgada nos tabloides. Perguntado pelo “The Guardian”, em 2010, se não podia ter escolhido um estabelecimento mais saudável para almoçar, Parlour respondeu: “Não, [Pizza Hut] é maravilhoso, é íntimo. Acho que eram duas [pizzas] pelo preço de uma, por isso a gente foi lá também. Nós estamos arrependidos agora, mas aprendemos com os erros.” Só que este incidente não foi o primeiro erro, e claramente eles não aprendiam.

Apesar dessas desventuras, a cultura era aceita no Arsenal. Por quê? Como sempre, no futebol, o resultado dita tudo. Além daquelas duas copas em 1993, o Arsenal venceu dois títulos da primeira divisão inglesa, mais uma Copa da Liga, uma supercopa inglesa e uma Taça dos Clubes Vencedores de Taças nas nove temporadas em que Graham comandou o time.

“Foi uma parte importante da equipe, em que elos fortes foram forjados e que levaram a gente a dois títulos da liga”, confessou Dixon. Parlour foi na mesma direção: “Fazia bem para a união do time.” Portanto, havia uma justificativa pelas noites passadas sob os efeitos do álcool.

Mas alguns dos jogadores estavam afundando – Kenny Sansom nos anos 1980, depois Tony Adams e Paul Merson na década de 1990 –, pegos num ciclo vicioso de bebida, cocaína, apostas e depressão. 

De repente, como num conto de fadas, chegou um salvador, um cavaleiro desconhecido. De terno, e não de armadura. Francês, alto e magro, com ares de professor de faculdade. Na época, ele era uma criatura exótica no atrasado futebol inglês. “Arsène who?” (“Arsène quem?”) foi a manchete de um jornal no dia em que ele foi anunciado. Logo, iriam descobrir.

Arsène Wenger estava prestes a mudar tudo no Arsenal. Os treinos, a dieta dos jogadores – brócolis entrou no cardápio, tortas saíram – e, claro, a cultura da bebida. Não seria uma tarefa fácil; ele precisaria de ajuda. Infelizmente para o capitão do time, mas felizmente para Wenger, Tony Adams tinha chegado ao fundo do poço. Não aguentava mais o vício e, antes da Eurocopa de 1996, tinha admitido publicamente o alcoolismo e se internado em uma clínica de reabilitação. 

Assim que chegou, o técnico francês disse que apoiaria Adams, ajudando ele a vencer o vício. Para tal, contudo, precisaria que os outros jogadores também parassem de beber, especialmente, na frente do capitão. Funcionou. Existem histórias de jogadores, mesmo depois disso, tomando cerveja demais em certas ocasiões, mas o “The Tuesday Club” não se reunia mais, não havia bebida alcoólica no vestiário ou na sala dos jogadores e Wenger vigiava os movimentos dos seus – agora, sim – atletas.

Adams nunca mais tomou uma única gota de álcool. Já Merson, em um artigo para o Sky Sports em 2020, escreveu: “Joguei com [Wenger] por pouco mais de um ano. Foi a melhor forma física que alcancei na minha vida.”

Infelizmente, Merson deixou o clube no verão de 1997 e voltou a beber e a apostar. Em sua autobiografia, admitiu que tinha perdido sete milhões de libras com bebida, droga e apostas. E só em 2020 conseguiu finalmente parar. Para outros jogadores, como Kenny Sansom, Arsène Wenger chegou tarde demais. Ele tinha saído anos antes e seguiu o mesmo rumo de Merson. Em 2015, foi fotografado dormindo na rua com uma garrafa de aguardente na mão. Felizmente, parece ter se recuperado mais recentemente.

As mudanças impostas pelo técnico francês demoraram um pouco para permear o resto do futebol inglês, mas depois de ver o sucesso e a qualidade do jogo que ele trouxe para o Arsenal – foram três títulos ingleses mais três da Copa da Inglaterra nos primeiros oito anos –, outros treinadores e clubes entenderam que não dava para continuar com a velha forma de trabalhar. Até o próprio George Graham. 

No prefácio da autobiografia de Kenny Sansom, o ex-técnico escreveu: “Quando lembro do meu tempo no Arsenal nos anos 1980, penso sobre o quanto mais a gente poderia ter conquistado se o time não estivesse bebendo tanto. Eles davam o seu máximo – Kenny, Tony, Paul e todos os outros – mas suas atividades fora do campo devem ter tido um efeito prejudicial no seu desempenho.”

Em 2017, Arsène disse: “Não acho que [o álcool] seja mais um problema no esporte inglês.” E, fora as exceções que sempre teremos, ele está certo. “Estou convencido de que o jeito do Wenger é o único jeito no futebol moderno,” afirmou Lee Dixon. 

É difícil discordar.

Pós-graduado em Políticas Públicas pela University College London. Trabalha como jornalista freelancer, escrevendo para Planet Football, i, e Forbes, entre outros. Gosta de escrever sobre o futebol no campo, mas também sobre as relações entre o jogo, sociedade e política.