Carrinho de compras

Nenhum produto no carrinho.

Um escândalo na Boêmia

Durante a maior parte de seus 110 anos de existência, o Bohemians Praha foi um clube humilde e de menor expressão em seu país. Estabelecido na região de Vršovice, distrito da capital tcheca, era presença esporádica na primeira divisão tchecoslovaca até 1973, a partir de quando permaneceu por 22 anos ininterruptos na primeira divisão de seu país. Seu único título na principal competição nacional foi conquistado durante essa “era de ouro”, precisamente na temporada de 1982-83. Ironicamente, o feito ocorreu justamente na temporada seguinte à saída do célebre meia Antonín Panenka, que ficou no clube por 15 anos e emprestou seu sobrenome à cobrança de pênalti que no Brasil é conhecida como cavadinha.

Apesar do título – e de Panenka –, é possível afirmar que se tratou de um período modesto demais para ser chamado de era de ouro. No entanto, esse momento de glória em uma história de humildade converteu o clube numa espécie de herói local. Assim como Portuguesas ou Américas, o Bohemians passou a ser um clube amigo para quase todos. Como um parente boa-praça que não logrou muito sucesso na vida, o clube goza de um respeito quase fraternal por parte da maioria das torcidas de Praga. Mesmo em seu clássico mais importante – o desproporcional dérbi de Vršovice contra o multicampeão nacional Slavia Praha –, sua torcida costuma ser amistosamente recebida quando o time joga como visitante.

A tal era de ouro chegava a seu fim em 1994, com o primeiro rebaixamento em mais de duas décadas. As dez temporadas seguintes trouxeram uma série de ascensos e descensos que culminariam numa crise financeira de tais proporções que quase levou o clube à falência. Incapaz de saldar uma dívida que beirava as 40 milhões de coroas tchecas (cerca de € 1,5 milhão), valor considerável para um clube de seu porte, chegou a ser impedido de disputar o segundo turno da temporada 2004-2005. Por decisão da federação local, o Bohemians Praha ficaria suspenso até que fosse capaz de minimizar seus problemas financeiros.

Nesse momento, entra em cena o infame Karel Kapr, empresário ligado ao ramo de energia e freqüentemente associado pela imprensa local a envolvimentos com atividades escusas. Proprietário do FC Střížkov Praha 9, então um clube da terceira divisão, Kapr viu na situação uma oportunidade para elevar a popularidade de sua equipe, que tinha apenas nove anos de existência e uma torcida pouco numerosa.

E era justamente a torcida do Bohemians o patrimônio que mais interessava a Kapr. Ela e tudo aquilo que significa uma base expressiva de seguidores. Especialmente por se tratar de uma torcida fiel, inflamada e de personalidade peculiar, freqüentemente comparada à torcida do St. Pauli de Hamburgo, por sua inclinação libertária, presença operária e caráter contracultural.

O empresário, então, foi em busca da aquisição da propriedade simbólica do clube, do fetiche de suas cores e emblema na tentativa de arrebanhar seus fãs. Ainda que no imaginário cultural futebolístico, queria apropriar-se de sua história, seu prestígio, suas parcas conquistas, e quiçá explorar a maior referência internacional do clube: a imagem de Antonín Panenka.

É importante observar que, mesmo na capital tcheca, não é de conhecimento geral o desenrolar do controverso tema. O conto mais propagado versa simplesmente que Kapr, diante da catástrofe financeira que assolava o Bohemians, comprou-lhe a marca e a transferiu ao clube de sua propriedade. Esta versão popular da história não é exatamente falsa. No entanto, falha ao deixar de mencionar um elemento fundamental: há um terceiro Bohemian envolvido na disputa.

Seguindo a tradição continental, o Bohemians original foi um clube poliesportivo. Abarcava uma série de outras atividades, além do futebol profissional. Em 1993, seu departamento de futebol tornou-se uma entidade independente daquela que administrava os demais esportes – a parcela poliesportiva, que veio a se chamar TJ Bohemians Praha. Este, sim, abordado pelo impopular empresário quando da aquisição dos direitos sobre a exploração da marca no futebol.

Kapr adquiriu junto ao TJ Bohemians Praha o direito de utilizar a marca em seu próprio clube: seu FC Střížkov Praha 9 passou a chamar-se Bohemians Praha e agora ostentava o uniforme listrado alviverde com o distinto escudo que retrata um canguru.

A aquisição da marca por parte de Kapr ofendeu profundamente a torcida do Bohemians original, uma vez que sequer fora comprada junto ao time que apoiava. O clube não se beneficiou da transação e permaneceu na mesma situação em que se encontrava, impedido de disputar competições, enquanto o FC Střížkov Praha 9 – agora travestido com suas cores – estava em vias de ocupar seu lugar na terceira divisão.

O caso logo chegou aos tribunais, dentro e fora do âmbito esportivo. Ainda que o clube de Kapr jamais tenha sido impedido de utilizar as cores centenárias do Bohemians, a manobra oportunista não teve o efeito desejado. A torcida rejeitou ativamente o clube que passava a carregar sua marca, lançando-se num esforço para reerguer o Bohemians original. A arrecadação chegou perto das 2,8 milhões de coroas tchecas (aproximadamente € 100 mil). Uma parcela pequena da dívida total, é verdade. Mas o suficiente para que o restante fosse negociado e o Bohemians pudesse retornar às atividades.

Imediatamente após o regresso do clube, iniciou-se uma guerra judicial que já se estende por dez anos. A federação tcheca entendeu, desde aquele momento, que se tratava do retorno do velho Bohemians após curto hiato. Chegou a declarar inicialmente que o time de Kapr não poderia atuar com o nome nem o emblema do Bohemians. No entanto, o empresário foi à justiça comum e logrou, por meio de liminar, obter o direito de utilizar os símbolos. A disputa permanece sendo travada. Em meio a idas e vindas nas decisões dos tribunais, o FC Střížkov Praha 9 segue utilizando o nome Bohemians Praha, enquanto o clube centenário utiliza o nome Bohemians 1905.

A temporada 2008-2009 terminou com o Bohemians 1905 como campeão da segunda divisão. Ainda que não seja um título expressivo no contexto europeu, a volta à primeira divisão teve um significado extraordinário para o clube de Vršovice. Chegaria à primeira divisão a disputa que vinha sendo travada nos tribunais havia anos.

Antes que a torcida do agora Bohemians 1905 pudesse terminar as festividades, a imprensa já concentrava a atenção nos porvires da temporada seguinte, quando os dois Bohemians se enfrentariam em campo. Contudo, não seria a primeira vez que o duelo aconteceria nos gramados. Duas temporadas antes, ambos disputavam a terceira divisão. No entanto, trata-se de uma competição regionalizada e de pouca exposição. As duas partidas terminaram empatadas.

O primeiro jogo entre os Bohemians na temporada de 2009-2010 frustrou público e imprensa ao terminar empatado sem gols. O segundo embate viria a acontecer no Ďolíček, casa do Bohemians 1905. Viria. Minutos antes do início, Karel Kapr impediu seu Bohemians Praha de entrar em campo. Alegou ser um protesto pelo fato de o Bohemians 1905 não ser o legítimo sucessor do Bohemians original e não ter o direito de ostentar o escudo pelo qual ele havia pagado. Mais tarde, retificou-se afirmando estar preocupado com a segurança do time e de seus torcedores, dada a hostilidade apresentada por parte dos torcedores do Bohemians 1905.

A vitória foi dada ao time da casa e a equipe de Kapr foi multada e punida com a perda de vinte pontos, o que provocou o rebaixamento do time. Ao se recusar a pagar a multa, o clube foi impedido de disputar a segunda divisão e, para completar, foi rebaixado à terceira.

Os dois clubes voltaram a se encontrar na segunda divisão da temporada 2012-2013. Pela primeira e única vez ocorre um resultado diferente de um empate, com a vitória do Bohemians de Karel Kapr por 3 a 2.

A Kauza Bohemians, como é chamada a disputa na República Tcheca, conta a história de uma desventura causada pela ignorância acerca dos sentimentos e poderes simbólicos característicos do futebol. Por turra, orgulho ou vã esperança de um dia ter sua equipe reconhecida e seu investimento valorizado, Karel Kapr permanece em sua luta judicial para ter direito exclusivo sobre o emblema do canguru. Em Praga, há quem acredite que a insistência na disputa é a forma que Kapr encontrou para manter a visibilidade de seu time, representando uma espécie de inimigo comum. Uma equipe tão antipática que não poderia ser desprezada por público e imprensa.

A situação confirma, como se fosse necessário, o poder e a complexidade do sentimento de torcida e do patrimônio intangível dos clubes de futebol. No mundo onde a cultura do futebol se encontra estabelecida como a conhecemos, é improvável o êxito de manobras administrativas que flertem com sistemas de franquias esportivas.

Deixe seu comentário