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“Fucking forward!”

Uma jornada ao New Den

Doze edições após o lançamento da Corner #1, eis uma fotorreportagem feita no finalzinho de 2014, no dia seguinte ao encontro com João Castelo Branco em Londres. Naquela manhã, a ideia era acompanhar o correspondente da ESPN Brasil na cobertura do jogo entre Tottenham e Manchester United no White Hart Lane, mas uma crise renal me tirou do jogo. Fiquei no departamento médico. Passei a noite num hospital em Londres e só fui liberado após o meio dia. Too late. O jogo dos Spurs começava às 13h.

No dia da viagem para a Europa acordei com dores lombares. Não era a primeira vez. Sabia exatamente o motivo e corri pro hospital. Medicado, fui para o aeroporto e, ao chegar lá, novamente uma crise insuportável. Fui pra enfermaria, tomei mais analgésicos. Embarquei mesmo assim. Bem no meio da viagem de onze horas até Paris, onde faria conexão, aquele sofrimento de novo. Dois comprimidos de Buscopan e a espera desesperadora até que a dor passasse. Uma hora e meia de angústia e caí no sono. 

Acordei em Paris ao meio dia, e tive que enrolar até o fim do dia para embarcar finalmente para Londres. Saí do aeroporto, peguei o trem até o centro da cidade e circulei sem rumo, mas com o Buscopan no bolso, até 20 horas. No fim da tarde, trem de volta para o Charles de Gaulle e rapidinho aterrissei no aeroporto de Heathrow.

Era 25 de dezembro à noite e não tinha transporte público funcionando em Londres, único dia do ano que isso acontece, numa cidade que parece não parar nem pra dormir. Só táxi. Por sorte, hospedei-me no mesmo lugar onde já havia ficado nas primeiras idas à capital inglesa, localizado perto de Heathrow. Escapei de torrar grande parte do orçamento de uma viagem que duraria cerca de um mês.

Londres era a primeira parada da aventura e a entrevista com João Castelo Branco estava agendada para o dia 27. Essa história detalhada está na Corner #1. O papo foi muito legal, mas quem abriu a primeira edição da revista vai perceber que as fotos ficaram uma porcaria, para ser bem contido. Eram os primeiros cliques que eu dava numa câmera. Essa é outra história, mas eu não faria, a principío, as fotos da revista. Comprei uma câmera, pois meu sócio à época viajaria comigo e resolvi ter uma de reserva. Vai que a dele quebrasse ou fosse roubada…

Pois é. Acabou que ele não pôde viajar, pois se esqueceu que seu passaporte estava vencido. Me avisou horas antes de embarcarmos. Eu tinha acabado de voltar do hospital após a primeira crise renal. No começo, achei que fosse uma piada, óbvio, e demorei para acreditar apesar de sua insistência. O roteiro incluía entrevistas e jogos. 

Um desses jogos seria uma partida válida pela Championship, a segundona inglesa, entre o tradicional e temido Millwall e o desconhecido Bournemouth. 

Qualquer um que se interesse por cultura de futebol acaba se deparando com um time que possui hooligans famosos por posicionamentos racistas e xenofóbicos e pela habitual violência do Dockers Derby, entre as torcidas do leste de Londres: Millwall e West Ham.

Quem conhece Londres sabe que o transporte é das coisas mais complexas de se entender de primeira. A mão-inglesa é o de menos, depois de dois sustos, você começa a olhar pros dois lados sempre. Apesar da estação de trem South Bermondsey ser bem próxima ao New Den, estádio do Millwall, de onde eu estava, era mais conveniente pegar um metrô e um ônibus, daqueles típicos de dois andares.

Bermondsey, local onde está o estádio, é um bairro bem pobre para os altos padrões londrinos. Um ambiente característico das cenas de filmes consagrados, como “The Football Factory”, que abordam o hooliganismo como produto de uma classe operária decadente. Nada tem a ver com os arredores de Stamford Bridge, do antigo Highbury ou do moderno Emirates Stadium.

O resto vai ser contado em fotografias, das primeiras que fiz, mas que vão servir para ilustrar essa história. Naquela época, eu mal sabia que o Bournemouth estava construindo uma epopéia desde as divisões mais baixas até o acesso à Premier League, que aconteceria justamente naquela temporada. Os visitantes estavam no primeiro lugar da Championship e ganharam por 2 a 0 dos donos da casa. A torcida local, no entanto, foi um pouco decepcionante. Não houve o clima hostil que se imaginava para um clube mais “underground” como o Millwall. O silêncio dominante era tanto que o momento máximo da torcida local foi um idoso gritando “Fucking Forward!” para algum atacante do time.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.