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É tetra!

Os donos do mundo antes da Copa

Este não é o assunto mais comentado do futebol mundial. Ainda passa despercebido por alguns, mas nos mostra a importância de conhecer a fundo a história daquilo que amamos para não nos esquecermos de grandes feitos do passado e, principalmente, não fazermos pouco caso deles. O tema é conhecido por alguns, mas ainda passa despercebido por outros. Por que a seleção uruguaia usa, com reconhecimento da FIFA, quatro estrelas em cima de seu escudo se conquistou apenas duas Copas do Mundo?

A resposta para esta pergunta também explica o apelido de Celeste Olímpica, usado até hoje para se referir ao selecionado charrua. E começa antes mesmo da Olimpíada de 1924, realizada em Paris.

No Uruguai, a população chega a estranhar quando se fala que a sua seleção de futebol é bicampeã mundial. Para eles, a Celeste é a primeira tetra do planeta. E isso porque as medalhas de ouro em 1924 e 1928 valeram como título mundial.

Não há discussão sobre a distinção entre os eventos: uma coisa é Olimpíada, outra é Copa do Mundo. Só que os registros históricos realmente dão, ao menos, motivos para o debate em relação a 1924 e 1928. Naquela época, a FIFA ainda não tinha criado o seu campeonato do mundo, o que — extraoficialmente — acontecia exatamente nas Olimpíadas.

O futebol nos jogos de Paris, em 1924, tiveram a organização absolutamente independente da FIFA e da Federação Francesa: ambas presididas pelo famoso Jules Rimet.

Foi durante o congresso da FIFA de 1923, em Genebra, que a entidade ficou — ao lado da federação nacional do país sede, no caso a França — responsável pela administração do certame. Veículo oficial da Federação Francesa na época [e até 1946], a revista France Football, que até hoje é renomada no mundo inteiro, propagou, desde antes de a bola rolar, o caráter mundial inédito do torneio que seria realizado.

FIFA e Federação Francesa foram as responsáveis por calendário, regras, inscrições, critérios de admissão dos atletas e cronograma. Tudo isso com extrema liberdade. O exercício dos poderes foi tão satisfatório que serviu como base para a Copa do Mundo FIFA de 1930.

Vale pontuar, também, que os Jogos Olímpicos de 1924 mudaram a história da FIFA — embora a entidade não se lembre tanto deste fato. No caminho de preparação para os Jogos de Paris, a Fédération Internationale de Football Association chegou à VIII Olimpíada ainda mais forte por causa do futebol: subiu de 21 para 39 países associados, número superior ao da federação de Atletismo.

Dimensão mundial foi obsessão

O caráter global em 1924 esteve muito presente. Participaram 22 equipes de cinco continentes, número maior do que todas as Copas até 1982. Na página 330 do número 36 da France Football era anunciado o “Torneio Mundial de Futebol da VIII Olimpíada”. E, a nove meses da bola rolar oficialmente, veículos de imprensa anunciavam que o vencedor seria considerado campeão do mundo.

Vale lembrar que, de 1924 até 1978, sem interrupções, a qualificação — ou seja, o nome do campeonato em si — dos Mundiais era de responsabilidade das federações nacionais dos países-sede. Não era responsabilidade da FIFA. Em 1954, Rimet cedeu à qualificação suíça e limitou à FIFA o direito de criar o subtítulo.

As campanhas vitoriosas em 1924 e 1928

A estréia dos uruguaios foi contra a Iugoslávia, que se considerava uma equipe de certo valor. Só que os sul-americanos não decepcionaram os analistas, que já viam aquele time com um olhar todo especial. A vitória na estréia foi maiúscula: 7 a 0. Só o público que foi minúsculo. Apenas três mil espectadores. Mas isso mudaria dali pra frente, assim como mudaria a instalação celeste, que abandonou a “incômoda e pouco higiênica Vila Olímpica” e se instalou em um casarão: o Château d’Argenteuil.

O segundo desafio reservou uma vitória por 3 a 0 sobre os Estados Unidos, em partida vista por dez mil torcedores. Na terceira rodada, os comandados do técnico Ernesto Figoli não tiveram pena dos franceses: 5 a 1 nos donos da casa. A vaga para a semifinal estava garantida, e o duelo contra a Holanda marcou o maior desafio dos sul-americanos.

Os holandeses abriram o placar no primeiro tempo, e conseguiam agüentar a incrível pressão uruguaia no segundo. Pedro Cea empatou e Héctor Scarone, craque do time, garantiu a vitória em pênalti — bastante contestado pelos neerlandeses.

A decisão foi contra a Suíça, e lotou o estádio de Colombes. Cientes de que testemunhariam a coroação do primeiro campeão mundial, quarenta mil pessoas entraram no estádio e dez mil ficaram no lado de fora. O primeiro tempo foi apertado, mas bom o bastante para o Uruguai ficar na vantagem por 1 a 0. No final das contas, o resultado foi 3 a 0 e uma medalha de ouro com significado mais do que especial: o mundo era celeste pela primeira vez.

Quatro anos depois, o caminho rumo ao bi começou também com os holandeses. Jogando em Amsterdã, os “donos do mundo” fizeram 2 a 0. Depois golearam a Alemanha [4 a 1], venceram a Itália [3 a 2] e, em dois desafios, levaram a melhor sobre a Argentina na grande decisão.

A repercussão mundial do título

A imprensa uruguaia exaltou o feito de seus heróis, mas apenas repetindo o discurso europeu. Os jornais suíços classificaram o Uruguai como campeão olímpico e mundial [e forçaram um título europeu para a Suíça, afinal de contas, naquela época a idéia de um campeonato de seleções européias estava longe de acontecer].

O mesmo ocorreu na França, que em 2008 até promoveu um amistoso contra os uruguaios da seguinte maneira: “O Jogo de cinco Estrelas”. A promoção do encontro, realizado no dia 19 de novembro, gerou ironias por parte de um comentarista de TV chamado… Arsène Wenger.

Em 1930, o país não comemorou apenas o primeiro título de uma Copa do Mundo FIFA. Vibrou com o fato de, pela terceira vez, estar no topo do mundo. E o raciocínio foi o mesmo logo após o Maracanazo, com o narrador Carlos Solé aos gritos de: “É tetra!”.

A discussão hoje

Na verdade, o debate parece encontrar uma solução menos polêmica se deixarmos clara uma coisa. A Copa do Mundo como se conhece é a Copa do Mundo FIFA [a globalizada FIFA World Cup], e nesse terreno a Celeste Olímpica conquistou dois títulos: 1930 e 1950. Mas antes, em 1924 e 28, o Uruguai foi considerado o melhor time do mundo por ter conquistado os torneios mais importantes do futebol mundial. Ambos com organização completa e independente da FIFA.

O Uruguai é quatro vezes campeão mundial, mas duas vezes vencedor da Copa do Mundo. A própria entidade ratificou, um tanto às escuras, tal afirmação. Em 2010, a FIFA reconheceu as estrelas na camisa do Uruguai como “não Copas do Mundo, mas, sim, torneios precursores da Copa do Mundo, de alto nível desportivo e organizados pela FIFA”.

Ou seja, praticamente validou a afirmativa de que os charruas foram quatro vezes os melhores do mundo e duas vezes campeões do seu Mundial.

Em seu texto sobre uniformes oficiais, a FIFA é até mais clara, deixando a entender que vê, sim, o Uruguai como tetra: “As associações membros que ganharam uma ou mais edições precedentes da Copa do Mundo da FIFA [ou da Copa do Mundo feminina] estão autorizadas a colocar em seu uniforme de jogo do conjunto titular a estrela de cinco pontas ou outro símbolo de acordo com as instruções da FIFA por cada vitória em uma Copa do Mundo da FIFA”.

Na discussão por argumentos, os uruguaios têm ao seu lado o maior número de provas cabais que justificam suas estrelas. O tema, hoje, talvez não seja algo que repercuta tanto — talvez algo marcado pelo desinteresse da FIFA em abordar abertamente o assunto, pela menor importância que a AUF [Asociación Uruguaya de Fútbol] tem hoje ou pela borracha que o tempo passa na memória das pessoas. Em relação ao reconhecimento de títulos do passado, este talvez seja o mais óbvio de todos e encontre um paralelo semelhante apenas no título sul-americano do Vasco em 1948 [o que não desconsidera todos os demais].

De qualquer maneira, os desempenhos excelentes nos torneios olímpicos deram aos uruguaios o apelido de Celeste Olímpica — presente até hoje. O que por si só mostra a importância do feito.

Jornalista formado na FACHA, acredita que o futebol, além de ser o melhor dos esportes, é palco para grandes lições sociológicas, históricas... e de vida. Árduo defensor de que 3 a 0 jamais será goleada, foi um goleiro promissor e hoje brinca de ser zagueiro esforçado.

1 Comment

  1. Uruguai é tetracampeão mundial de futebol? » Arena Geral

    maio 21, 2022

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