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As veias abertas de um “planisférico” racista

A representação colonialista e do ódio racial global através do futebol

Qual o lugar do negro no futebol? O discurso de aceitação de negros como abrandamento de racismo a partir da presença de atletas afrodescendentes não cola. Por quê? Pela nítida carência de ex-atletas exercendo cargos superiores à função de jogadores. O retrato mais cruel dessa realidade se dá a partir do número de treinadores negros que comandaram e comandam as seleções africanas. Ali a representação colonial sempre esteve presente — ao longo do século XX e dos anos que se segue..

Desde um insulto até o holocausto. Do preconceito ao ódio. O nível de manifestação é diferente, mas existem lugares silenciosos onde o racismo quase não é percebido, ou quando o é, logo é justificado com argumentos superficiais, caindo em lugares comuns como a vasta presença de jogadores no futebol brasileiro ou o fato do maior jogador tupiniquim ter sido um negro. Racismo não é somente o que acontece no Leste europeu ou na Rússia quando as torcidas se manifestam contra jogadores negros do próprio time com insultos, ameaças ou lhes atirando bananas.

Como explicar então a escassez de treinadores negros no futebol, não apenas no Brasil, mas a nível global? Talvez os próprios negros não se sintam confortáveis em, primeiramente, exercer uma função de liderança ou serem liderados por outros negros. Afinal, a história sempre colocou o homem branco em posições superiores.

Uma discussão que envolve ex-jogadores e acadêmicos sempre termina quando um ex-atleta afirma que a experiência de vestiário e de situações de jogo não podem ser ensinadas na universidade. É verdade. Portanto, qual é o fator que exclui ex-jogadores negros de atuarem como treinadores ou gestores? Esse é um dos mencionados lugares silenciosos que o racismo habita: a crença de que negros não podem exercer tais cargos e na qual os próprios passam a acreditar.

Já se foi o tempo em que os jogadores negros eram impedidos de praticar o esporte bretão. Porém, como conta o livro ​Guia politicamente incorreto do futebol​, de Jones Rossi e Leonardo Mendes Junior, o êxodo dos melhores jogadores brasileiros — que eram negros — para mercados já profissionalizados desde o início dos anos 1930, como Argentina e Uruguai, além de contratos clandestinos com os clubes brasileiros, aceleraram o tardio processo de profissionalização do futebol do Brasil. Essa inserção se deu pela ambição e vontade de ganhar dinheiro dos atletas negros e não por uma luta social ou por uma concessão humanitária dos brancos. O mercado mostrou que eram eficientes com a bola nos pés, tanto quanto ou mais que os brancos.

Em 4 de abril de 2017, Marco Antônio Rodrigues afirmou no programa ​Bem, Amigos!​ que o futebol era uma das esferas menos racistas da sociedade, pois aceitava negros em condição de igualdade. Também presente no mesmo programa, Rogério Micale, técnico campeão olímpico em 2016 com o Brasil, se sentiu um pouco constrangido, estava quase disposto a afirmar que existia racismo no futebol e que se tratava de algo muito naturalizado entre os jogadores. Não à toa, nunca um jogador de futebol de elite se declarou gay no Brasil até 2017. O futebol, não só brasileiro, é tão conservador, machista e racista — como qualquer outro setor da sociedade — assim como é oportunista, jogando com a conveniência típica de época.

Em pleno século XXI, chegou o tempo de figuras públicas como Donald Trump, Marine Le Pen, Geert Wilders e Jair Bolsonaro ganharem espaço. O futebol não ficaria alheio e há muitos nesse campo que embarcaram em discursos de extrema-direita. Stefano Eranio, ex-jogador do multicampeão Milan dos anos 1990, afirmou enquanto comentarista do canal suíço RSI, que jogadores negros não têm concentração para jogar na defesa e, apesar de fortes fisicamente, costumam cometer erros quando é preciso pensar. Eranio se referia ao erro de Antonio Rüdiger — nascido em Berlim, filho de pai alemão e mãe de Serra Leoa — da Roma contra o Bayer Leverkusen pela Champions League 2015/16. Após o comentário, Stefano foi demitido do canal.

Eranio não está sozinho nessa. Os resultados eleitorais e pesquisas de intenção de voto mostraram, entre 2015 e 2017, a inclinação de grande parte da população mundial a ideologias xenófobas. No futebol, no entanto, o conservadorismo sempre se fez menos latente, com ondas mais sutis de radicalismo e de abrandamento nas manifestações, porém sempre embarcado em correntes ideológicas já existentes nas estruturas políticas da sociedade como, por exemplo, as dos Ultras da Itália, da Alemanha, do Leste Europeu, do Oriente Médio, do Japão ou da América do Sul.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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