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You’ll Never Walk Alone

A história por trás da canção mais icônica do futebol

O famoso hino não-oficial do Liverpool, eternizado a cada pré-jogo pelas vozes dos torcedores reds que lotam Anfield Road, tem uma história muito maior do que se pode imaginar. O coro, conhecido internacionalmente, acontece, invariavelmente, antes do início das partidas dos Reds em casa, quando os alto-falantes do estádio interrompem a música “You’ll Never Walk Alone” e, a partir dali, a torcida segue a canção à capela.

Contudo, a versão da banda inglesa Gerry and The Pacemakers tem origem em Carousel (1956), um filme musical, e é aí onde começa a busca que cruza o Atlântico pela origem deste icônico hino cantado a cada jogo pela Kop, a torcida do Liverpool, no Anfield Road.

Também é preciso entender o motivo pelo qual a canção passou a ser cantada tradicionalmente no estádio dos Reds. Depois dos Beatles, quem dominava a cena “Merseybeat” — as bandas oriundas de Liverpool — era justamente Gerry and The Pacemakers, o segundo grupo local, que quase por acaso gravaram a canção. Outra curiosidade que deixa essa história ainda mais inusitada.

Não fosse a insistência do líder da banda, a música não teria sido gravada. O ritmo mais lento e melódico desafiava os agitados e dançantes hits no ano de 1963. Quando os Beatles lançavam o disco “Please, Please me”, Gerry and the Pacemakers resolveram apostar em “You’ll Never Walk Alone”.

Acabou dando certo. A música entrou no circuito das rádios e o furor fonográfico se encarregou do resto. Os eventos e festas da época tinham uma playlist certa: The Beatles e Gerry and the Pacemakers. O futebol não ficaria imune. Antes de começar os jogos, o sistema de som de Anfield Road, um dos primeiros estádios a contar com sistema de alto-falantes da Inglaterra, entretinha os espectadores que se espremiam nas arquibancadas e cantavam as 10 músicas mais tocadas da semana antes do pontapé inicial.

O documentário alemão, que leva o nome da música, “You’ll Never Walk Alone”, de 2017, rastreou todo o caminho percorrido por essa música. O líder da banda Gerry and The Pacemakers, Gerry Marsden, conta como conheceu a música: “Chovia todo dia e fui ao cinema numa tarde, fui assistir ao Gordo e o Magro, sou apaixonado por eles, eram maravilhosos. Depois ia passar Carousel, parecia ser meio chato, mas eu fiquei pra assistir depois O Gordo e o Magro de novo. Eu dormi e ouvi ‘When you walk through the storm…’, eu acordei e percebi que era fabuloso. Eleva e empolga rápido, tem uma letra linda. Eu falei pra banda que tínhamos uma nova música pra tocar e que era um clássico. Eles fizeram cara feia, disseram que não iam tocar, que nosso estilo era Rock’n’Roll. Eu insisti e disse que íamos tocar sim. Quando fomos tocar em alguns clubes, todo mundo ficava quieto e, no final, todos aplaudiam. Quando fomos pra Londres por causa dessa música, eu sacaneei todos.”

No documentário, o relato de George Sephton, operador de som de Anfield Road, traz uma versão de como a torcida acabou aderindo à música: “O cara que era responsável pelo som do estádio antes de mim foi o primeiro a aprender a operar aquele sistema que era algo muito novo praquela época. Ele costumava tocar o top 10 das rádios nacionais de cada semana. “You’ll Never Walk Alone” foi lançada em outubro de 1963 e atingiu o primeiro lugar das paradas na primeira semana e, claro, ele colocou pra tocar. Enquanto a música esteve entre as dez mais pedidas, ele tocava. Quando a música saiu das paradas e ele parou de tocar, as pessoas começaram a reclamar e ele foi obrigado a colocar novamente e continuou colocando em todos os jogos. Já passaram mais de 60 anos e eu continuo tocando essa música.”

Gerry Marsden se encantou com a música por acaso, mas o clássico já tinha sido gravado por Nina Simone no piano em 1958, dois anos após o lançamento do filme Carousel. Outros cantores famosos também gravaram versões do clássico, como Elvis Presley (1968) e, antes, Frank Sinatra (em 1945 e em 1963). Aliás, Sinatra seria o ator original para o filme Carousel, mas uma divergência com a produção do longa acabou tirando o cantor do elenco.

O longa-metragem não foi considerado uma grande obra ou pelo menos não estava à altura do Musical da Broadway de mesmo nome em que foi baseado. A peça sim é considerada uma obra de arte. Dirigida pela dupla Rodgers & Hammerstein, o musical entrou em cena em Nova Iorque, em 1945, e tanto Richard Rodgers e Oscar Hammerstein são os autores da letra da música que ganharia vida própria. No entanto, a peça musical é uma adaptação de outra obra não-musical que tem origem do outro lado do Atlântico.

O produtor teatral de Nova Iorque, Jack Viertel, comentou no documentário “You’ll Never Walk Alone” sobre o contexto social e cultural que a cidade vivia quando Rodgers & Hammerstein lançaram o musical na Broadway: “Nova Iorque era muito cosmopolita já naquela época com muitos imigrantes de toda Europa. Havia uma oportunidade para imitar a arte europeia de uma maneira ou de outra. A verdadeira origem dos musicais como conhecemos hoje coincidiu com a primeira geração de imigrantes, especialmente dos judeus, que aprenderam música, eu acredito, como parte de se tornarem culturalmente americanos. Era um verdadeiro caldeirão de etnias com muitos elementos que traziam consigo.”

Essa primeira geração de imigrantes judeus a que Jack Viertel se refere não coincidentemente aportou em Nova Iorque no final dos anos 1930 e início dos anos 1940. Eram pessoas fugindo do holocausto prévio à Segunda Guerra Mundial. Foi assim que chegou à cidade o principal responsável pelo surgimento da música que se tornaria o hino do Liverpool.

Ferenc Molnár, um famoso escritor e diretor húngaro, trouxe consigo sua obra e, com ela, a peça Liliom, lançada originalmente em 1909, em Budapeste. Judeu, Molnár chegou a Nova Iorque em 12 de janeiro de 1940 e conseguiu levar algumas outras pessoas posteriormente, uma vez que havia severas restrições para a chegada de imigrantes. Era preciso uma declaração de algum residente se responsabilizando pelo imigrante, como conta Péter Lax, um matemático húngaro que só conseguiu chegar aos EUA graças a Feren Molnár, de quem a família era amiga: “Em 1941, havia muitas restrições aos judeus impedindo acesso à universidade em Budapeste. Ainda não estavam matando, isso só aconteceu quando os alemães tomaram o controle em 1944, foi aí que começaram os campos de concentração. Mas minha mãe decidiu ir embora antes.”

Liliom já era um clássico quando Molnár chegou à cidade nova-iorquina. Não foi difícil inseri-la no circuito teatral. Foi nesse momento que Ferenc Molnár recebeu uma proposta para transformá-la em musical. Ele não gostou da ideia, como conta seu neto Matyas Sarkozi, que vive em Budapeste: “Quando Rodgers & Hammerstein quiseram fazer um musical baseado em Liliom, meu avô não quis. Disse que suas peças não funcionariam em musicais, mas a oferta foi boa financeiramente e resolver aceitar.”

Ferenc Molnár é autor de um dos livros mais vendidos da literatura mundial: “Os Meninos da Rua Paulo” (1907) e também é, indiretamente, o responsável pelo hino mais conhecido internacionalmente do futebol. Uma história que cruzou o Atlântico duas vezes até ser eternizada nas vozes que fazem de Anfield Road um palco digno do espetáculo que é “You’ll Never Walk Alone”.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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